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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com quarto título, os Warriors consolidam a maior dinastia da sua geração

Jogadores do Golden State Warriors comemoram a conquista do título da NBA 2022 após vitória sobre o Boston Celtics no TD Garden. 16/06/2022 - Adam Glanzman/AFP
Jogadores do Golden State Warriors comemoram a conquista do título da NBA 2022 após vitória sobre o Boston Celtics no TD Garden. 16/06/2022 Imagem: Adam Glanzman/AFP

Vitor Camargo

17/06/2022 00h55

Quando o Golden State Warriors perdeu as Finais de 2019 para o Toronto Raptors, parecia que uma das sequências mais brilhantes da história do basquete tinha chegado ao fim. Klay Thompson tinha acabado de romper o ligamento do joelho, e iria perder pelo menos um ano para se recuperar; ele acabou perdendo dois após também romper o tendão de Aquiles, e havia sérias dúvidas se ele voltaria a jogar basquete em alto nível. Kevin Durant, que rompeu o tendão de Aquiles durante as Finais, havia jogado sua última partida pelos Warriors, e era conhecimento comum que ele deixaria o time como agente livre ao final da temporada. Golden State ainda tinha Stephen Curry e Draymond Green, mas ambos estavam do lado errado dos 30 anos e caminhando para a fase final das suas carreiras. Ninguém pode ser culpado por pensar então que a dinastia do Golden State Warriors tinha chegado ao fim.

E, se tivesse chegado mesmo, não teria sido um problema. Esse time dos Warriors já tinha deixado sua marca na história da NBA como poucos outros antes dele. Golden State chegou a cinco Finais consecutivas entre 2015 e 2019 - apenas o segundo time da história da NBA a fazer isso, depois dos Celtics de Bill Russell nos anos 50/60 (que chegou a dez) - e venceu três delas. A equipe bateu o recorde de mais vitórias em uma única temporada da história da NBA (73), e venceu mais jogos entre 2015 e 2017 que qualquer outro time em um triênio na história do esporte. Seu time de 2017 tem um argumento legítimo para ser considerado o melhor e mais dominante que a NBA já viu. E isso sem falar no quanto os Warriors e sua estrela, Stephen Curry, mudaram para sempre a forma de se jogar e até mesmo pensar basquete.

Mas, quando os Warriors venceram o Boston Celtics no Jogo 6 das Finais para conquistar o título da NBA, seu quarto em oito anos, Golden State sacramentou de vez sua posição como a maior dinastia da sua geração. Em uma época marcada por extrema movimentação de jogadores, onde é cada vez mais difícil manter um time junto por vários anos e as janelas de candidatos ao título estão cada vez menores, o que os Warriors conseguiram fazer ao longo desses oito anos - seis Finais, quatro títulos - deveria ser impossível. A coisa mais próxima que a NBA viu nos últimos 20 anos foi o San Antonio Spurs de Tim Duncan e Gregg Popovich, mas nem eles foram tão dominantes ou transformadores como esse time dos Warriors. E se esse título brilhante, dominante em 2022 deixa algo claro é isso: a dinastia dos Warriors, nesses dois anos, não foi a lugar nenhum; foi apenas uma breve calma antes de outra tempestade.

E esses dois anos de intervalo foram esquisitos, mas uma mostra do que faz desse time dos Warriors tão brilhantes e diferenciados fora das quadras. Ao invés de perder Durant por nada, Golden State negociou um sign-and-trade com o Brooklyn Nets que trouxe o All Star D'Angelo Russell para a Califórnia, mesmo que ele não fosse um encaixe particularmente bom com a equipe. Quando Curry quebrou a mão logo nos primeiros jogos da temporada 2020, Golden State mudou de foco e passou a acumular ativos para o elenco, trocando Russell para o Minnesota Timberwolves por Andrew Wiggins e uma escolha de Draft (que acabaria virando Jonathan Kuminga) e aceitando um ano de derrotas para ter uma escolha melhor no Draft.

A essa altura, Wiggins era considerado quase um peso morto na NBA; depois de anos decepcionantes com os Wolves, a expectativa era de que os Warriors usariam seu salário e os ativos acumulados (leia-se escolhas de Draft) para trocar por outra estrela. Mas os Warriors, assim como o San Antonio Spurs nos quais eles se inspiram, não vencem apenas por talento, e sim por combinar isso com uma cultura vencedora, altruísta e coletiva que tira o melhor dos seus jogadores. Eles tinham fé que o talento que fez Wiggins ser escolhido #1 no Draft não tinha desaparecido, e que em Golden State ele poderia virar um jogador decisivo.

Esse talvez seja, de certa forma, o maior resumo do que esses Warriors são. Wiggins não virou apenas um jogador decente em Golden State, ele foi possivelmente o segundo melhor jogador do time campeão em 2022 (certamente foi nos playoffs). Golden State não trocou Wiggins, não trocou suas escolhas de Draft, e apostou na sua cultura, continuidade, e retorno à forma de Curry, Thompson e Green para caminhar a linha mais difícil do basquete: ser um legítimo candidato ao título no curto prazo, enquanto mantém jovens talentos e monta uma base para o futuro. Entre Jonathan Kuminga, Moses Moody, Jordan Poole e James Wiseman, os Warriors tem um quarteto de jogadores ainda em contrato de calouro que podem montar um time vencedor daqui a quatro ou cinco anos, sendo que esse time já está ganhando HOJE títulos e entrando em 2023 possivelmente como favoritos a repetir. Todos os times sonham em fazer isso, mas poucos conseguem - um testamento à qualidade também da diretoria dos Warriors.

E 2022 acabou sendo a temporada mágica. Se Golden State recebeu críticas por não ter transformado Wiggins e seus jovens jogadores e escolhas de Draft em veteranos prontos para ajudar, ficou claro que não seria necessário. Curry, Green e Thompson, finalmente saudáveis deu o tom; os três não jogariam uma partida juntos até os playoffs, mas quando jogaram, Golden State não deu chance para ninguém (campanha de 16-6 nos playoffs). Ao redor dos três, os Warriors contaram com a ascensão de jovens jogadores draftados pelo próprio Warriors em Jordan Poole e Kevon Looney, um Wiggins transformado da água para o vinho, e contratações pontuais de jogadores em contratos mínimos (Nemanja Bjelica, Otto Porter, Gary Payton II). E esse conjunto de fatores - os astros da casa, os veteranos desacreditados, os jovens recém-draftados - só funcionou junto dessa maneira por causa do nível único de continuidade, cultura e dos pilares já estabelecidos em Golden State, ao redor dos quais é tão mais fácil encaixar as peças que faltam.

E não da para minimizar o quão dominantes foram os seus playoffs. Denver estava desfalcado e não era adversário à altura, é verdade, mas depois Golden State passou com propriedade pelo time #2 do Oeste em Memphis, dominou a estrela de Luka Doncic, e bateu um time dos Celtics que vinha sendo o bicho papão da segunda metade da temporada regular. O nível de dificuldade foi enorme e o time respondeu à altura, evocando a mágica do passado e brilhando novamente nos maiores palcos do esporte.

O Golden State Warriors de Curry e Kerr, antes de 2022, já estavam entre os maiores, mais icônicos, dominantes e transformadores da história da NBA. Eles estavam no Panteão, e não precisavam provar mais nada para ninguém. O título de 2022 não vem como uma prova, vem como apenas um lembrete: os campeões não foram a lugar nenhum, Eles estavam apenas descansando, recarregando as energias. E agora eles estão mais uma vez no topo da NBA.