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14 Anéis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como o New Orleans Jazz fez a pior troca da história da NBA em 1976

Magic Johnson concede entrevista coletiva em 2014, na Califórnia - Mario Anzuoni/Reuters
Magic Johnson concede entrevista coletiva em 2014, na Califórnia Imagem: Mario Anzuoni/Reuters
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

27/08/2021 04h00

Poucas coisas que acontecem fora das quadras na NBA são tão duradouras e marcantes quanto uma troca desastrosa. Pergunte a Billy Kings, o ex-GM do Brooklyn Nets que pelo resto da carreira vai ser lembrado pelas transações desastrosas que fez no cargo, trocando todas as escolhas de Draft possíveis e afundando a franquia por longos anos antes de ser enfim demitido.

Eu não sei bem por que gostamos tanto de trocas horríveis; talvez porque ser GM na NBA é um cargo extremamente limitado - só 30 vagas existem no mundo, afinal -, e é satisfatória a sensação de que somos mais inteligentes que uma dessas pessoas quando uma faz algo errado. Ou então porque simplesmente é divertido ver alguém tão fora da realidade, tão errado mas tão convicto, quebrar a cara. Independente do motivo, continua sendo um dos maiores guilty pleasures do basquete.

No entanto, quando falamos nas piores trocas da história da NBA, Billy King e o resto da liga estão apenas disputando o segundo lugar, porque o primeiro já está ocupado por uma troca tão horrenda, tão desastrosa e tão hilária em retrospecto que é difícil imaginar ela sendo alguma vez superada. Uma troca que envolveu seis prêmios de MVPs, sete títulos da NBA e dois dos 15 maiores jogadores que a liga já viu, todos eles indo na direção OPOSTA da equipe que fez a troca. E essa é a história que eu vou contar hoje aqui no 14 Anéis.

O ano era 1976, e a NBA vivia nesse momento uma série de mudanças significativas na sua existência - mais especificamente, havia acabado de se fundir com uma liga rival, a ABA. Em contrapartida a essa fusão, que criava um monopólio e enfraquecia a união dos atletas, os jogadores obtiveram na mesa de negociações o direito de mudarem de times livremente após o fim dos seus contratos.

É isso mesmo: os jogadores não podiam trocar de times como agentes livres igual acontece hoje em dia; pelo contrário, eles eram praticamente obrigados a renovarem com as mesmas equipes, o que os impedia de ganharem salários à sua altura no mercado. A criação da free agency foi o preço dos atletas para aceitar a fusão entre NBA e ABA.

Uma vez oficializada a mudança, a NBA começou a viver um período de movimentação de jogadores sem igual na sua história, mas havia uma pegadinha: embora eles pudessem agora assinar contratos no mercado para mudar de times, as equipes que perdiam atleta ainda tinham o direito de receber uma "compensação" a ser paga pela sua nova equipe - ou seja, a agência livre não era tão livre assim, e no fundo funcionava como uma troca. Conforme as franquias começavam a executar dezenas de contratações, elas perceberam a moeda de troca perfeita: escolhas de Draft, que passaram a ser usadas pelos times como compensação por novas contratações.

Mas essa não foi a única grande mudança que a fusão entre ABA e NBA trouxe para o basquete. A NBA também incorporou quatro franquias da ABA - San Antonio Spurs, Denver Nuggets, Indiana Pacers e a hoje chamada de Brooklyn Nets - e recebeu mais de oitenta novos jogadores, criando um problema logístico de como alocar todos esses atletas. Para piorar, muitos desses jogadores recém-chegados não haviam passado pelo Draft da NBA: a liga, na época, permitia apenas que jogadores entrassem no Draft após quatro anos de universidade, enquanto a ABA tinha aberto as portas para jogadores de todas as idades.

Esse descompasso significava que alguns jogadores não tinham um time para jogar na NBA, e a liga criou uma solução: um "Draft" complementar. Nesse evento, cada time da NBA podia selecionar um desses jogadores da ABA que não haviam passado pelo recrutamento normal. Em contrapartida, quem o fizesse perderia sua escolha de primeira rodada do próximo Draft.

O que nos leva ao time responsável por esse desastre épico, o então New Orleans Jazz, que em 1979 mudaria de cidade e se tornaria o hoje conhecido Utah Jazz. Nesse Draft complementar, a franquia selecionou um jovem e talentoso pivô chamado Moses Malone, que havia saltado direto do colegial para a ABA, perdendo sua escolha de primeira rodada em 1977 no processo.

Só que, alguns meses depois, começou a primeira free agency da história da NBA, e times começaram a contratar jogadores loucamente. O técnico do Jazz, Butch van Breda Kolff, decidiu que queria trazer o craque do Los Angeles Lakers, Gail Goodrich, que ele tinha treinado anteriormente na Califórnia. Goodrich era uma estrela, campeão da NBA e cinco vezes All-Star, e um nome grande que poderia ajudar o time de New Orleans a se manter vivo em um momento de turbulência financeira na NBA, mas já tinha 33 anos e caminhava para o final da carreira. Ainda assim, Kolff estava decidido a contratar Goodrich a todo custo - e, como se tratava de um jogador consagrado, o Jazz precisava de uma compensação à altura para os Lakers.

As escolhas de primeira rodada do Draft de 1978 e 1979 da equipe foram colocadas no pacote de compensação, mas não era suficiente. Então, o Jazz ligou para o comissário da NBA e perguntou se poderia "devolver" Moses Malone para recuperar sua escolha de Draft de 1977, que tinha perdido para trazer o pivô. A NBA aceitou, Malone entrou em OUTRO Draft de dispersão, e New Orleans juntou mais uma escolha ao pacote que enviou para os Lakers.

Kolff tinha realizado sua vontade: Goodrich era jogador do Jazz em troca de três escolhas de primeira rodada. Mas o resultado foi um fiasco: Aos 33 anos, o jogador não era sombra do craque do passado, e o encaixe em New Orleans foi um desastre. Para piorar, ele jogou apenas 27 jogos antes de romper o tendão de Aquiles, que levaria ao fim da sua carreira dois anos depois. O técnico, é claro, acabou demitido.

Mas o que torna essa a pior troca da história não foi o que NOLA recebeu, mas sim o que perdeu. Começando por Moses Malone, que passou por Portland e Buffalo antes de finalmente chegar em Houston, onde aquele jovem cru da ABA se tornou um dos melhores, mais dominantes e devastadores pivôs da história do esporte. O astro encerrou a carreira com três prêmios de MVP da NBA e um título com o Philadelphia 76ers, em 1983. Hoje está eternizado no Hall da Fama.

Ironicamente, parte do motivo de se adquirir Goodrich era para o Jazz conseguir uma estrela que impulsionasse o time rumo à sua sobrevivência, e foi justamente Malone quem se tornou esse grande astro do basquete. No ano que o Jazz finalmente abandonou New Orleans rumo a Utah, 1979, o pivô ganhou seu primeiro MVP pelos Rockets.

Mas espera, fica pior; muito pior. As escolhas trocadas pelo Jazz de 1977 e 1978 acabaram virando jogadores de pouca expressão. Mas, em 1979, o Jazz acabou o ano com apenas 23 vitórias, a pior marca da NBA e que rendeu à franquia a escolha #1 de todo o Draft... só que essa escolha agora era dos Lakers, que a usaram para escolher um jogador chamado Earvin "Magic" Johnson, hoje amplamente celebrado como o maior armador da história do esporte. Em 12 anos de carreira jogando em Los Angeles, Johnson foi eleito três vezes MVP, somou cinco títulos da NBA e se estabeleceu como um dos maiores jogadores da história do basquete.

Então se você está fazendo as contas, a decisão de van Breda Kolff de adquirir Gail Goodrich (aos 33 anos!) custou a New Orleans Moses Malone E Magic Johnson, simplesmente dois dos melhores da história e que imediatamente transformaram seus novos times em candidatos ao título. Nenhuma outra troca da história da NBA chega perto do que o Jazz fez naquela noite de 1976.

E fica ainda melhor: a escolha de 1978, #8 geral, acabou sendo enviada pelos Lakers para o Boston Celtics em troca de Kermit Washington. Os Celtics tinham acabado de perder para a aposentadoria seu ala, o lendário John Havlicek, e precisavam urgentemente de uma reposição. Para esse fim, usaram a escolha #8 recém-recebida em um jogador da posição chamado Freeman Williams. Sabendo que tinham essa escolha extra para achar um contribuinte imediato, Boston pode se dar ao luxo de usar a sua própria escolha, a #6, em um jogador que só viria para a NBA depois de um ano: um tal de Larry Bird, que acabaria por se tornar - adivinhe! - um três vezes MVP, três vezes campeão e outro dos maiores jogadores da história do basquete.

Então não só a troca custou ao Jazz Moses Malone E Magic Johnson, mas ela também foi a responsável indireta por Boston acabar com Larry Bird e os Lakers com Magic, criando a rivalidade que dominou os anos 80 e transformou a NBA em uma mega potência do entretenimento!

Eu acho seguro dizer que essa troca nunca, nunca vai ser superada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL