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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quatro histórias para se acompanhar na semana do Draft da NBA

Bradley Beal foi cortado da seleção dos EUA para os Jogos Olímpicos de Tóquio - AFP
Bradley Beal foi cortado da seleção dos EUA para os Jogos Olímpicos de Tóquio Imagem: AFP
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

26/07/2021 04h00

Caso você não saiba, nessa quinta feira, dia 29/07, acontece o Draft da NBA de 2021 - o recrutamento universitário, no qual os times da NBA tem a chance de escolher os principais talentos dos EUA (e do mundo) que estão oficialmente se profissionalizando. Eu já falei anteriormente sobre alguns dos principais jogadores do recrutamento desse ano, mas com essa data tão importante se aproximando, me pareceu adequado fazer uma "Semana do Draft" aqui no 14 Anéis.

Mas o interesse que cerca o Draft não é apenas pelo recrutamento em si; como as escolhas de Draft da NBA estão entre as moedas de trocas mais valiosas de toda a liga, a proximidade do evento em si costuma levar a um aumento na atividade de trocas e negociações ao redor da NBA. E como essa semana promete ser CHEIA de dramas e histórias secundárias, então separei quatro das principais narrativas para se ficar de olho nos próximos dias e que podem afetar diretamente o recrutamento.

Começando com...

1. O que o Golden State Warriors vai fazer com suas escolhas?

O Golden State Warriors está em uma situação peculiar; com Steph Curry, Draymond Green e a volta de Klay Thompson, a equipe se enxerga - com razão - como um possível candidato ao título. Enquanto isso, o time também tem duas valiosas escolhas de loteria no que promete ser um excelente Draft: a sua própria escolha, #14, e a do Minnesota Timberwolves, #7. E embora o Warriors possa se beneficiar de aumentar a profundidade do seu elenco, adicionar dois calouros sem experiência profissional não é geralmente o melhor caminho para um time que quer vencer no curto prazo com um núcleo cada vez mais velho.

Os Warriors estão fazendo suas pesquisas sobre os jogadores cotados para essa região de escolhas, mas não é segredo para ninguém que os Warriors preferiam não ter que usar ambas as escolhas; pelo contrário, junto a James Wiseman, escolha #2 do Draft passado, os Warriors têm usado suas escolhas para montar um pacote competitivo capaz de ir atrás de veteranos estabelecidos ou até mesmo mais uma estrela no mercado, a fim de ajudar a maximizar os últimos anos do seu Big Three campeão.

O que esse pacote é capaz de trazer em retorno ainda é incerto, mas por serem tantas peças avulsas, as opções também são mais variadas. Golden State não precisa usar os três ativos para buscar reforços; pode usar Wiseman e uma das escolhas para um titular médio ao invés de mais uma estrela, por exemplo, e gastar a outra escolha em um calouro mais experiente e pronto para contribuir no curto prazo. Quem sabe até mesmo juntar suas duas escolhas para subir no Top4 e pegar um dos principais prospectos da classe.

Essas são alternativas possíveis, mas Golden State está mirando mais alto com seu pacote, sonhando em trazer mesmo uma nova estrela para o elenco, e alguns nomes parecem que estarão disponíveis: Pascal Siakam, Ben Simmons, Damian Lillard, ou então...

2. O que vai ser o futuro de Bradley Beal?

Mesmo sem que haja um interesse explícito de uma estrela em ser trocada - ou do seu time em trocá-la - times da NBA estão sempre de olho em possíveis grandes nomes para ficar disponíveis no mercado a qualquer momento, e os sinais são em geral os mesmos: uma estrela mais veterana, chegando ao final do seu segundo contrato, e preso em um time ruim sem perspectivas de título. São esses jogadores que em geral pedem por uma troca e mudam o panorama do mercado da NBA.

Nesse sentido, Bradley Beal tem sido um dos jogadores mais cobiçados da NBA nos últimos anos; o ala-armador dos Wizards pode se tornar agente livre ao final da temporada 2022 e, apesar da boa arrancada no final da temporada passada, o time não tem nenhuma perspectiva de títulos. Até agora, os Wizards têm recusado as investidas de troca pelo seu astro e estão focados em construir o melhor time possível ao seu redor.

Mas qual é a postura de Beal sobre tudo isso? Até aqui, ele nunca pediu oficialmente uma troca, mas essa offseason parece um momento decisivo: Beal pode colocar os rumores para descansar de vez assinando uma extensão de contrato com os Wizards, ou pode pedir uma troca para um time competitivo. E, se o fizer, o timing ideal para isso seria agora, antes do Draft começar, quando as escolhas do recrutamento ainda estão em cima da mesa e ele é mais capaz de controlar seu destino - e dos Wizards de conseguirem um retorno melhor e mais claro.

Se Beal vai mesmo pedir troca, eu não sei, e provavelmente nem ele - alguns ao redor da NBA acreditam que vai, outros que não. Mas essa semana provavelmente vai, de um jeito ou de outro, nos dizer muito sobre o futuro de Bradley Beal.

3. Teremos trocas no alto do Draft?

Já faz alguns meses que é sabido que Cade Cunningham vai ser selecionado com a primeira escolha do Draft: ele tem o piso mais alto de todos os jogadores dessa classe, e o potencial para ser uma grande estrela capaz de transformar uma franquia. A essa altura, a única questão é que time vai fazer essa escolha.

O senso comum nos diz que será o Detroit Pistons, que ganhou a loteria do Draft para garantir a escolha #1. Times simplesmente não deixam passar jogadores do calibre de Cunningham. Nós acabamos de ser lembrados novamente nas Finais que a NBA é uma liga de estrelas, e que é quase impossível ser campeão sem ter um grande astro; e, para times em reconstrução, o Draft é a grande chance de conseguir um desses jogadores, e por isso não faz sentido para os Pistons trocar sua escolha e deixar Cunningham passar.

No entanto, têm crescido ultimamente os boatos de que algumas equipes - em particular o Houston Rockets, que tem a escolha #2 - estão fazendo ofertas agressivas para tentar pegar a escolha dos Pistons. Claro, não te nada errado nos Pistons ouvirem algumas propostas pelo seu ativo e ver se algo salta aos olhos, mas é difícil saber se existe um interesse real de Detroit. Esse tipo de troca seria quase sem precedentes na história recente da NBA; o único caso semelhante foi em 2017, quando o Boston Celtics trocou a escolha #1 (Markelle Fultz) pela #3 (Jayson Tatum) e outra escolha futura. No caso, deu muito certo para Boston, mas dificilmente estabeleceu algum tipo de precedente.

O caso Boston, no entanto, nos mostra qual seria o roteiro para os Pistons caso decidissem trocar a escolha, que só faria sentido em dois casos: se os Pistons acharem que tem outro jogador melhor do que Cunningham no Draft, ou se eles acharem que a diferença entre Cunningham e seu jogador #2 é pequena a ponto de valer mais a pena pegar os ativos extras que Houston está oferecendo - colocando seus ovos em cestas diferentes e diversificando os investimentos. Eu acho que é o caso? Não, mas tem fumaça suficiente para se levar em conta.

E mesmo caso os Pistons não queiram trocar a #1, ainda vale ficar de olho no resto do Top4; a maioria dos especialistas acredita que esse Draft tem um topo com quatro jogadores - Cunningham, Green, Mobley e Suggs - e vários times com múltiplos ativos ficaram logo do lado de fora desse Top4, e provavelmente querendo entrar na brincadeira. Só precisa de um time com uma opinião diferente sobre o valor desses jogadores para mudar tudo.

4. Qual é o plano do Cleveland Cavaliers?

Com a escolha #3, o Cavs controla até certo ponto o destino do Draft. A expectativa atual é de que Cunningham e Green sejam as duas primeiras escolhas, e quem Cleveland selecionar pode ser o primeiro dominó a definir como o resto da primeira rodada vai se estruturar. A escolha, a princípio, parece que seria entre Mobley e Suggs, mas não são as únicas opções dos Cavs. Ir em outra direção ou mesmo uma troca não está descartada pelos especialistas.

Caso os Cavs mantenham a escolha, a expectativa em geral é de que peguem Evan Mobley, o pivô de USC, o que faz sentido... só que, ao mesmo tempo, correm boatos de que os Cavs também estão tentando negociar o armador Collin Sexton, que estará elegível para uma grande extensão que os Cavs supostamente não querem pagar. Juntando esses dois pontos - a suposta disponibilidade de Sexton e a escolha #3 - algumas possibilidades interessantes.

Juntar ambos em uma troca só seria uma possibilidade interessante, mas improvável; Cleveland não está no ponto do seu elenco de fazer esse tipo de grande movimento. Mas será que uma possível troca de Sexton pode influenciar a decisão com a escolha #3? Parte do argumento a favor de Cleveland escolher o pivô, Mobley, é de que eles já tem dois jovens armadores no elenco disputando a bola e minutos (Sexton e Garland), e adicionar Suggs apenas aumentaria o problema - mas, se Sexton for trocado, isso deixa de ser um problema, então será que isso significa que aumentam as chances de Suggs de sair aqui? E caso Sexton não seja troca, isso faria Cleveland tender a Mobley? São possibilidades, assim como é de que os Cavs estejam dispostos a trocar para descer no Draft por um pacote que permita ao time acumular mais ativos para sua reconstrução.

Não faço ideia de qual direção a franquia vai tomar, mas é um dos times mais interessantes de se monitorar nessa reta final.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL