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Conversa de Portão #7: Como anda a saúde mental da mulher negra?

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

27/10/2020 04h00

Mulheres negras sabem e sentem como o racismo as atravessa, e o impacto em seu desenvolvimento, autoestima e em como se colocam no mundo. Aprendem a parecerem sempre fortes. Mas qual o preço disso? Como superar tantas adversidades e pressões tentando manter o equilíbrio e a saúde mental? Como reivindicar o direito ao autocuidado?

A saúde mental da população negra é o tema do 7º episódio do Conversa de Portão. Para falar sobre o tema, a apresentadora Lívia Lima entrevista Ana Carolina Barros, psicóloga e coordenadora do Casa de Marias, espaço terapêutico cultural inaugurado no início do ano na Vila Esperança, zona leste de São Paulo.

"As mulheres são as que estão liderando os índices de depressão, os transtornos de ansiedade, os processos psicóticos, esquizofrênicos, de surto e, mesmo assim, nem sempre são as que mais conseguem acesso a esse tipo de serviço", diz Ana Carolina (a partir de 8:41 do arquivo acima). "A gente sabe que em termos de sofrimento psíquico existe para o público feminino uma sobrecarga, digamos assim, social, muito importante que se desdobra em efeitos subjetivos que a gente não pode negligenciar".

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 23 milhões de brasileiros possuem diagnóstico de distúrbios mentais. Até este ano, estimava-se a depressão como a doença mais incapacitante do planeta. No Brasil, se considerarmos que 54% da população se autodeclaram negra ou pretos e pardos, podemos afirmar que grande parte poderia ser afetada. Uma pesquisa realizada em cinco países europeus e no Brasil, aqui coordenada pelo departamento de medicina preventiva Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, homens jovens, minorias étnicas e moradores de áreas com baixos indicadores socioeconômicos apresentam mais chances de maneira inédita de transtornos mentais, incluindo esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão com sintomas psicóticos. A OMS divulgam estudo recente avaliando que 93% dos países, incluindo o Brasil, interromperam Serviços de Saúde Mental durante a pandemia da Covid-19.

"Quando a gente fala de saúde mental da população negra, a gente precisa partir do pressuposto - que para nós é uma concretude - de que o racismo estrutura a sociedade que a gente vive. Se a gente parte desse fato, dessa verdade, a gente vai entender que uma pessoa negra, desde que nasce, está o tempo todo convivendo com essa realidade. Ela está, de alguma maneira, gerenciando todos os desdobramentos que o racismo coloca no dia a dia", explica (a partir de 13:35 do arquivo acima).

Isso significa que esses estruturantes não podem ser dissociados da formação subjetiva. "A nossa subjetividade, a formação que a gente tem internamente, digamos assim, está acoplada. a todo esse contexto, a todo este mundo e a essa sociedade que nos rodeia. Então, se eu estou ansiosa, se eu estou deprimida, se eu não consigo me alimentar direito, se eu tô sofrendo de insônia, se eu tenho um transtorno de pânico, isso não se dá exclusivamente por fatores de intrapsíquicos", explica (a partir de 15:21 do arquivo acima).

O Conversa de Portão é um podcast produzido pelo Nós, Mulheres da Periferia em parceria com UOL Plural. Este episódio teve produção de Carol Moreno, direção musical de Sabrina Teixeira Novaes, trilha sonora e edição de som por Sabrina e Camila Borges. Novos episódios vão ao ar todas as terças.

Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts e em todas as plataformas de distribuição. Você pode ouvir Conversa de Portão, por exemplo, no Youtube, no Spotify, no Google Podcasts e no Deezer.