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Árvores maiores que o Cristo Redentor terão proteção 'especial' na Amazônia

Tronco de Angelim Vermelho encontrado na Amazônia, com 85 metros de altura, medido por pesquisadores - Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução
Tronco de Angelim Vermelho encontrado na Amazônia, com 85 metros de altura, medido por pesquisadores Imagem: Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo (SP)

13/06/2022 06h00

Um vale recluso com dezenas de árvores gigantescas. Não é um conto de fadas. No Vale do Jari, no Amapá, cientistas descobriram espécies com mais de 80 metros de altura - mais que o dobro do tamanho do Cristo Redentor (38 metros). Para se ter noção, a altura média das árvores amazônicas é de 50 metros.

Em breve, um decreto estadual deve conceder proteção e reconhecimento especial às gigantes. A iniciativa pode ser o início para a pesquisa e conservação das espécies na Amazônia e no Brasil.

Segundo o promotor Marcelo Moreira, o objetivo é estabelecer qual o tamanho da área que deverá ser reconhecida como "vale das árvores gigantes" com o futuro decreto do governador Waldez Góes (PDT). O cálculo estima cerca de 1 mil hectares como lar das gigantes. Segundo Moreira, o estudo está nas últimas etapas de articulação com o governo.

Angelim Vermelho: espécie está entre as mais altas identificadas na Amazônia; na foto, uma de 85 metros de altura - Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução - Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução
Angelim Vermelho: espécie está entre as mais altas identificadas na Amazônia; na foto, uma de 85 metros de altura
Imagem: Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução

As expedições para mapeá-las foram realizadas em 2019 e 2021. Localizá-las só foi possível com um radar capaz de analisar a floresta na posição horizontal e determinar a diferença de altura entre as copas das árvores. As gigantes foram encontradas em áreas difíceis de chegar. São 220 quilômetros de barco e 10 horas a pé na mata. Os cientistas só alcançaram a maior delas na segunda tentativa.

O isolamento é uma proteção contra o corte ilegal, mas a promotoria pretende criar um raio com interesse ecológico para incentivar o estudo e a conservação das espécies e de toda a área. "Seria como um tombamento histórico", resume Moreira.

A história das árvores gigantes

As árvores gigantes do Jari são de um período anterior à colonização portuguesa do Brasil. O Angelim Vermelho, por exemplo, com 88,5 metros de altura, tem entre 500 e 600 anos de idade. "São monumentos. Elas viram o que nós não vimos", afirmou à época o chefe da expedição, Eric Bastos Gorgens, professor do Departamento de Engenharia Florestal na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

Em comum, as gigantes no Amapá crescem mais do que as outras para dominar o acesso à luz. O crescimento é lento, o que costuma torná-las valiosas para o corte.

O decreto do governo destacaria a importância da conservação das gigantes para o meio ambiente e para contar a história natural do nosso país. "A ideia é criar uma proteção jurídica e simbólica", acrescenta o promotor Moreira. Os promotores têm pressa. A discussão sobre terras no Amapá é histórica.

Amapá: a terra das gigantes

A divisão do Amapá atual é recente. Antes da Constituição de 1988, era considerado um território da União e só recebeu a autonomia do estado em 1991. No passado, o local foi disputado por franceses, espanhóis, holandeses, ingleses e portugueses em busca de um ponto estratégico na Amazônia.

Em 1637, Portugal impôs uma capitania no Amapá enquanto jesuítas e franciscanos entravam no território para tentar catequizar povos indígenas que sempre estiveram ali, como os Karipuna, Palikur, Waiãpi e Galibi. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), o Amapá foi o primeiro estado onde todas as terras indígenas foram reconhecidas pela União.

Apesar das três décadas como estado, a União continua a doar milhares de hectares para a administração estadual. Só em 2022, foram doados 159 mil hectares para o governo amapaense, que também fez concessões para empresas madeireiras internacionais, como a TW Forest, explorarem trechos da unidade de conservação da Floresta Estadual do Amapá. A presença tem gerado atrito entre ambientalistas e empresários.

O objetivo da promotoria com o decreto é deixar claro até onde a concessão pode explorar e prevenir eventuais impactos às gigantes — especialmente às que ainda não foram encontradas.

Nas contas dos pesquisadores, é difícil precisar quantas delas existem na Amazônia. Nas contas do chefe da expedição, as árvores encontradas até agora representam só 0,16 % de toda a área amazônica.

As árvores gigantes não são exclusivas da Amazônia, mas precisam da quantidade correta de chuva, vento e luminosidade para vingar. As áreas de proteção e territórios indígenas explicam como os exemplares amapaenses podem ter sobrevivido ilesos até hoje.

Topo de Angelim-vermelho encontrado pelos pesquisadores no Amapá; com 85 metros de altura, ainda não é a maior espécime encontrada - Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução - Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução
Topo de Angelim-vermelho encontrado pelos pesquisadores no Amapá; com 85 metros de altura, ainda não é a maior espécime encontrada
Imagem: Instituto Federal do Amapá (Ifap)/Reprodução

Em 2018, por exemplo, uma imbuia com 535 anos foi cortada no município de Vargem Bonita, Santa Catarina, a cerca de 400 km de Florianópolis. O objetivo era transformá-la em cerca. O corte estimulou biólogos e policiais ambientais à busca por araucárias gigantes, algumas com mais de 2 metros de diâmetro, ainda resistentes em uma Mata Atlântica cada vez mais devastada.

No Amapá, o promotor Moreira acredita que o decreto usaria leis ambientais já existentes contra infratores. Para ele, é cedo para uma lei nacional só para as gigantes. Mas é um começo. "É uma boa ideia", conclui.

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