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Empresas que mudam

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Sexo sustentável e saudável: marcas apostam em lubrificantes naturais

Lubrificante da Lubs - Divulgação
Lubrificante da Lubs Imagem: Divulgação

Camilla Freitas

De Ecoa, em São Paulo (SP)

06/01/2022 06h00

Você fala sobre sexo com suas amigas e seus amigos? E com sua família? E com a pessoa com quem você se relaciona? Muitas vezes rola aquela vergonha de abordar esse tema até mesmo quando estamos vendo uma série e começa uma cena mais "caliente" na tela e nossos pais estão do lado. Quem nunca, não é mesmo?

Cerca de 30% dos brasileiros têm sua primeira experiência sexual antes dos 15 anos. Mas sexualidade é mais que a relação sexual em si. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, define sexualidade como "um aspecto central do ser humano ao longo da vida" que abarca "sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução". E, para que possamos viver nossa sexualidade de maneira plena, segundo a OMS, é preciso que nos livremos de preconceitos e tabus — entre eles, o tabu ligado ao prazer feminino.

Enquanto alguns ainda ignoram o fato de que mulheres têm prazer sexual, outros olham para isso não só como um tema que deve ser abordado no debate público, mas também como uma oportunidade de negócio. Conhecido como "sexual care", o mercado de cuidado íntimo e prazer feminino vem crescendo e já é uma tendência no Brasil, de acordo com Clariana Leal, sócia da Climaxxx e educadora sexual. "É uma tendência que já estava crescendo fora do Brasil, mas que estourou aqui nos últimos dois anos", conta.

Dentro desse mercado, outra tendência que veio para ficar é a dos produtos que, além de se preocuparem com a saúde sexual de mulheres, também demonstram cuidado com o meio ambiente.

Como qualquer cosmético, produtos como lubrificantes e cremes íntimos possuem ingredientes que podem não só ser ruim para a saúde, como para o planeta. E, de olho nisso, algumas empresas optaram por se dedicar a cuidar das duas frentes.

Acho que é para onde o capitalismo está indo. O futuro está no desenvolvimento de produtos que abarcam desde feminismo até proteção ao meio ambiente.

Marina Ratton, CEO da Feel

O que tem no rótulo?

O ressecamento vaginal pode se dar por inúmeros motivos: menopausa, uso de ansiolíticos e anticoncepcionais são alguns deles. O uso de lubrificantes é um afago para o prazer sexual de pessoas que fazem parte desses grupos, mas também pode deixar a relação mais prazerosa e divertida para todo mundo.

Os ingredientes desses produtos, no entanto, podem gerar um problemão se não forem olhados com cuidado. "É difícil ter um parâmetro de tudo o que é usado porque são muitos os lubrificantes no mercado. Mas entre os que mais aparecem há o propilenoglicol e os derivados de petróleo", comenta Nyle Ferrari, expert em cosméticos naturais e bem-estar e autora do livro "Beleza natural por dentro e por fora".

Enquanto o propilenoglicol pode causar alergias, os ingredientes derivados de petróleo são considerados altamente cancerígenos, porque pode haver contaminação durante sua extração. E por falar em extração de petróleo, esse é um ponto crítico também para o planeta.

Caso derramado no meio ambiente, o petróleo desencadeia vários prejuízos para o ecossistema, como a intoxicação de animais marinhos, por exemplo. "A indústria do petróleo é muito poluente, até porque se trata de um produto não renovável de grande impacto ambiental. Se tem derivados de petróleo, não dá para dizer que o produto é sustentável", comenta Nyle.

Além do propilenoglicol e dos derivados de petróleo, o perfume em lubrificantes pode ser outro vilão para a saúde e para o meio ambiente. Segundo a especialista, não é possível saber ao certo que substâncias foram misturadas para gerar certa fragrância. "Você está liberando um coquetel de ingredientes que muitas vezes não sabe exatamente como é que vai interagir com o ambiente", explica. Quanto à saúde, assim como o propilenoglicol, o perfume é um potencial alergênico.

Como qualquer cosmético, ainda pode haver outra questão ética e ambiental com a produção dos lubrificantes: a testagem em animais.

Usar essas formulações veganas e mais limpas de lubrificantes é como cuidar de uma parte da saúde muito primordial, que é a saúde sexual, e acho que essa procura tende a aumentar porque isso vai mudar a vida de muitas pessoas.

Clariana Leal, sócia da Climaxxx e educadora sexual

Para se sentir bem

Marina Ratton, criadora da Feel - Divulgação  - Divulgação
Lubrificante da Feel
Imagem: Divulgação

Marina Ratton trabalhava na área de tecnologia e inovação em uma empresa farmacêutica. Durante o ano de 2018, contudo, uma passagem pelos Estados Unidos a fez refletir sobre como algumas coisas poderiam mudar dentro desse mercado. Assim que voltou ao Brasil, tentou emplacar um projeto na área onde trabalhava, mas não teve sucesso. Foi então que, em 2019, decidiu largar tudo e empreender.

Entre as demandas que queria atender estava a que tratava do prazer feminino. Não sabia se faria, então, um lubrificante ou um aplicativo. Após uma pesquisa própria para construir o produto com as futuras clientes, decidiu-se pelo primeiro.

"Quase 400 mulheres, ou 60% das que participaram da pesquisa, disseram que costumavam sentir desconforto na relação sexual. E quando a gente perguntava o que elas faziam em relação a isso, a maioria dizia que não fazia nada, ou seja, se acostumaram com esse desconforto. E aí o lubrificante faz sentido nesse cenário", conta Marina.

Foi assim que a Feel nasceu. A empresa de Marina, que possui outras duas sócias, conta com outros dez funcionários que vendem de lubrificantes a vibradores, óleos hidratantes e sabonetes, todos produtos para a região íntima.

Por mais que quisesse um produto 100% natural, Marina teve que abrir mão um pouco desse processo para atender a uma demanda das clientes: o perfume. Como os óleos naturais não podem entrar em contato com a mucosa vaginal, o jeito foi produzir um sintético. Sendo assim, o lubrificante da Feel é 97,3% natural, com uma essência sintética aprovada pela Anvisa. "Eu vivo dizendo que nunca fui de tirar 10 na escola, mas na Anvisa eu tiro", brinca a CEO da marca.

Prazer natural

LUBS - Alessandra Levtchenko/UOL - Alessandra Levtchenko/UOL
Produtos da LUBS com lubrificantes naturais e veganos
Imagem: Alessandra Levtchenko/UOL

Outra marca que tem como CEO e fundadora uma mulher com o propósito de mudar a relação dos brasileiros com o sexo e com o meio ambiente é a LUBS.

Também depois de passar uma temporada nos Estados Unidos, a fundadora da marca, Chiara Sandri, percebeu o potencial do mercado de lubrificantes naturais no Brasil. "Era difícil encontrar produtos de qualidade, com ingredientes naturais e uma comunicação mais ampla, sem ser apelativa", diz "A ideia da Lubs é normalizar o prazer de forma inclusiva." Tudo isso com fórmulas naturais e veganas.

E, para os que acham que discussões como essa não geram lucros, a LUBS abriu as contas para a reportagem de Ecoa e contou que superou o faturamento de R$ 1 milhão em um ano de marca, com crescimento médio de 35% ao mês.

Cada vez mais essa preocupação com a saúde e com o meio ambiente está indo também para o mercado do sexo, o que é maravilhoso. E acredito que isso não se trata de uma modinha, é realmente uma tendência.

Nyle Ferrari, jornalista

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