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Devemos editar os termos racistas nas obras de Monteiro Lobato?

O escritor Monteiro Lobato - Reprodução
O escritor Monteiro Lobato Imagem: Reprodução

Rayane Moura

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

29/01/2021 04h00

"Macaca de carvão", "Carne preta", "Beiçuda", "um frangalho de nada". Esses são termos que o escritor Monteiro Lobato, o pai do Sítio do Picapau Amarelo, usava em suas obras para se referir a pessoas negras. Em 2020 seu primeiro livro infantil, "A menina do narizinho arrebitado", completou 100 anos. Dois anos antes, sua obra havia entrado em domínio público, o que levou diversas editoras a republicá-la. Com o aniversário e a série de reedições, a discussão sobre a exclusão de termos racistas em novas edições de sua obra foi retomada.

A bisneta de Monteiro Lobato, Cleo Monteiro Lobato, decidiu relançar o clássico "A menina do narizinho arrebitado", sem os trechos racistas da obra. A mudança não foi bem recebida por alguns. O secretário de Cultura, Mario Frias, disse que o caso era uma "vergonha". Já Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, chamou a mudança de "mutilação".

Histórico racista

Em 2010 foram reveladas diversas cartas em que Monteiro Lobato fazia elogios à KKK (Ku Klux Klan), seita supremacista branca que assassinava negros e judeus nos Estados Unidos. Vale destacar que Lobato foi um dos membros da Sociedade Eugênica de São Paulo, onde mantinha relações estreitas com vários dos principais nomes das políticas eugenistas brasileiras como Renato Kehl e Arthur Neiva. A palavra eugenia foi inventada por Francis Galton. Galton a definia como: "O estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente."

Conheça quais são os argumentos favoráveis e contra as alterações nos clássicos de Lobato, de acordo com uma série de especialistas ouvidos por Ecoa:

SIM

Não afeta o grosso da obra original

Diversas obras de autores famosos foram adaptadas, e não perderam a sua originalidade. Nomes importantes como Pedro Bandeira, Maurício de Sousa e Walcyr Carrasco já adaptaram alguns dos seus clássicos aos novos tempos.

Além disso, as obras de Lobato entraram em domínio público em janeiro de 2019, com isso os clássicos originais permanecem disponíveis para todos que desejam ter acesso. Inclusive para reinventá-las, como foi o caso da HQ "Rancho do Corvo Dourado", releitura steampunk pós-apocalíptica de Sítio do Picapau Amarelo
Na edição de Cleo Monteiro Lobato, a essência de Narizinho Arrebitado: Reinações de Narizinho Livro 1 (Underline Publishing LLC ) não foi modificada e cerca de 98% do material original foi mantido.

As adaptações feitas pela bisneta do autor são uma reformulação da obra, com exclusões e alterações apenas dos trechos considerados racistas. Na nova versão, por exemplo, Tia Nastácia deixa de ser uma empregada do sítio e passa a ser "amiga de infância" de Dona Benta.

Afeta as crianças e adolescentes negros

As obras de Lobato fazem parte do currículo escolar, e os seus termos racistas lidos em sala de aulas já afetaram diversos alunos negros, gerando piadas e bullying na classe.. O que sente uma menina preta, sentada na classe, ouvindo a professora ler um texto onde se fala 'negra beiçuda'?

Qualquer conteúdo racista que adentra o universo escolar atinge as crianças e as afeta, por vezes, irreversivelmente. Todos os que trabalham no campo da educação precisam se atentar ao fato de que há, no Brasil, uma vasta produção de saberes artísticos e científicos antirracistas, de diversos campos do conhecimento. Um exemplo é a literatura indígena, que representa a vivência e saberes de povos originários brasileiros. Esses conteúdos precisam ser aprendidos e incorporados ao currículo escolar como diz a lei sancionada em 2008 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, referente à inclusão obrigatória no currículo das escolas públicas e particulares de nível fundamental e médio, do ensino de história e cultura indígena brasileira.

Lobato também realizava adaptações

Segundo a bisneta do autor, Cleo Monteiro Lobato, o próprio Monteiro realizou diversas adaptações de seus clássicos a cada nova edição. "Tem a obra original para ler. Quem quiser ler a de 1920 pode ler! Ele modificou a obra dele, a cada nova edição ele modifica palavras, evolui sem parar".

A intenção dessa nova adaptação é que os clássicos de Lobato sejam lidos pelas próximas gerações, daqui a 80 ou 100 anos.

NÃO

Existem outros autores para serem lidos por nossas crianças

A proposta de reformulação desses termos racistas, na obra lobatiana, poderia ser interpretada como uma insistência em "salvá-la" face às mudanças sociais e políticas pelas quais o Brasil está passando. Existe uma necessidade de escolas e universidades investirem no ensino, aprendizado e pesquisa de obras literárias produzidas por sujeitos negros/as e indígenas.

A promulgação da lei 10.639/03 (11.645/08), que modificou a Lei de Diretrizes e Bases Nacional de Educação, lançou luz a um campo de conhecimento que está cada vez mais presente nas escolas, nas universidades, em ambientes de educação formal e informal: o ensino da História e Cultura Afro-brasileira. É um direito de todos saberem a história que os constituiu.

No campo da literatura para jovens e adolescentes, há uma vasta produção literária, no Brasil, comprometida com a educação para as relações étnico-raciais de forma integrativa, uma literatura que questiona a "história única" dos vencedores, como é o caso de "Histórias da Preta", de Heloisa Pires Lima, e "Amoras", do Emicida

É possível contextualizar o racismo de Lobato

Alguns especialistas sugerem que as obras de Lobato são incontornáveis e não devem ser banidas das leituras escolares, mas, sim, ter suas passagens racistas contextualizadas por mediadores.

Para esses especialistas, a obra de Lobato tem valor cultural, apesar de conter trechos racistas que devem ser explicitados e trabalhados criticamente.

É melhor fazer um estudo crítico da obra

Os livros de Monteiro Lobato podem ser retirados dos currículos da educação infantil e do ensino fundamental, mas serem estudados na etapa final do ensino médio, numa perspectiva de resistência, revelando como o racismo de uma época pode influenciar no fazer profissional escolhido por qualquer pessoa e em qualquer área, como o contexto social de uma época molda nossos posicionamentos.

Assim, os jovens com competências emocionais mais estruturadas para compreenderem as formas com as quais o racismo opera na sociedade brasileira, serão capazes de buscar caminhos possíveis para sua superação, olhando e reescrevendo suas próprias histórias e trajetórias de vida. Com isso, as obras de Lobato devem ser levadas para a academia como modelo de racismo perpetuado na literatura, para que assim os futuros profissionais de todas as áreas do conhecimento tenham acesso a uma formação literária crítica.

Fontes: Ale Santos, autor de sci-fi e fantasia afroamericana, consultor de gamificação pela Savage Fiction e Finalista do Jabuti 2020; Cintia Cardoso, Mestra em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutoranda pela mesma universidade e estuda branquitude na Educação; Felipe Castilho, autor de livros de fantasia, famoso pela série "O legado folclórico"; Jim Anotsu, escritor, roteirista e tradutor brasileiro, é referência em literatura juvenil no Brasil; Kiusam de Oliveira, escritora de livros infantis, professora da Universidade Federal no Espírito Santo, possui Mestrado em Psicologia e Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo; Luana Antunes Costa, docente do Instituto de Linguagens e Literaturas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB/CE) e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão "Sobre o Corpo Feminino - Literaturas Africanas e Afro-brasileira (CNPq/UNILAB); Messias Martins, bacharel em história na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e fundador do canal Literangra.

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