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O que as lives de Anitta nos ensinam sobre transformação social

Sérgio Luciano

Sérgio Luciano tem como missão de vida o despertar da potencialidade que vive em cada ser humano, a partir da própria sabedoria de cada um. Com experiência em logística e gestão de processos, faz parte da rede Guerreiro Sem Armas, formação de tecnologias sociais para a realização de projetos e sonhos coletivos, e encontrou sua paixão de vida no Process Work, uma abordagem terapêutica para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento derivada da psicologia jungiana.

20/05/2020 04h00

Dias atrás, fui surpreendido com a notícia de que Anitta (cantora e empresária), que muitos amam e tantos outros odeiam, e Gabriela Prioli (advogada, mestra em direito penal e professora), que recentemente foi comentarista política no quadro "O grande debate", na CNN Brasil, estavam fazendo lives sobre política no Instagram. Curioso sobre o que estava rolando, resolvi assistir à gravação das duas lives que aconteceram até agora. Tive uma grata surpresa e muitos aprendizados.

A surpresa veio ao ver a Anitta assumindo seu papel, enquanto figura pública, no campo político. Além de perceber tamanha posição de vulnerabilidade e coragem, ao se assumir ignorante sobre o tema e se permitir investigá-lo ao vivo, sob olhos atentos do público e dos críticos de plantão.

O aprendizado veio, por um lado, ao escutar conteúdos relevantes trazidos pela Gabriela, que eu ainda desconhecia. Por outro lado, ao olhar para aquelas conversas e refletir sobre os significados e potenciais impactos delas no campo social.

Compartilho com vocês algumas dessas reflexões.

Não saber é simplesmente não saber, e uma oportunidade de aprender

Anitta recebeu uma enxurrada de críticas e foi alvo de piadas por dizer que não entende sobre política e querer aprender. Vindo de pessoas que já sabem sobre o tema e acharam suas dúvidas ridículas, ou com respostas óbvias. Também houve quem a criticasse por não ter atendida sua expectativa de que, por ela ter dinheiro, ou por ser uma celebridade, já deveria saber sobre isso.

Ao dizer que não sabe sobre política, ela representa a voz de milhões de brasileiras e brasileiros que não tiveram, ou não têm, acesso a uma educação emancipadora. E a voz que silencia o não saber de Anitta é a mesma voz que silencia esses milhões e os coloca às margens, dizendo que o protagonismo deve ser restrito àqueles que já tem acesso ao conhecimento. Conscientemente ou não, o conhecimento se torna instrumento de opressão e aumento de desigualdades.

Mas, no final das contas, todos temos nossas ignorâncias. Todos não sabemos algo. E não saber é simplesmente não saber, uma oportunidade de aprender.

Como você tem lidado com o seu não saber? E com o não saber do outro?

Todas e todos temos um papel político, e é nosso direito exercê-lo

Outra forte crítica à Anitta foi que ela é artista, e que deveria deixar as discussões políticas para aqueles que trabalham com isso ou que mais entendem do assunto.

Oras, se seguirmos essa premissa, o que nós, milhões de brasileiros que ocupamos as mídias sociais diariamente, estamos fazendo? Se pouco ou nada sabemos, deveríamos nos calar diante e assistirmos passivos às ações e decisões de esfera executiva e legislativa. Nem opiniões contra, tampouco a favor.

Mas, ao que parece, figuras públicas são fortemente cobradas de não se envolverem em discussões sobre política, enquanto o fazemos diariamente numa escala e esfera bem menor. E muito provavelmente, algumas pessoas, ao lerem isso, vão encontrar 1001 justificativas para silenciar ou invalidar a voz de Anitta.

Ademais, nos esquecemos que ela não é apenas artista. Ela é também a Larissa (nome real), cidadã. E empresária, para além de cantora. Dentre outros papéis. E, cada um destes papéis, tem seu espaço e nível de influência nas discussões políticas, bem como interesses.

Quais papéis você tem socialmente? Como eles dialogam com a política? O que você tem feito a partir de cada um destes papéis?

Figuras públicas têm poder de influência, e podem usá-lo com sabedoria

A voz de uma figura pública tem o peso do seu alcance. Quanto mais projeção, mais peso. Mais potencial de influência. Ainda que enquanto indivíduo ela não queira, esse é o resultado inerente do papel que assume.

Anitta, só em seu Instagram, tem 46 milhões de seguidores. Outros tantos milhões em demais mídias sociais. Ocupa semanalmente manchetes de portais de conteúdo. E, ainda que talvez você não goste dela, outros tantos milhões escutam atentamente sua voz.

Quando usa suas mídias sociais, construídas ao redor Anitta artista, para falar de sua ignorância sobre política enquanto Larissa, cidadã, ela está dizendo para milhões de pessoas que a acompanham: "- Tá tudo bem não saber sobre política! Vem aqui e vamos aprender junto". Ela contribui com a desconstrução do mito de que é feio não saber.

Ao promover uma conversa simples e prezar por uma linguagem popular, Anitta torna o conhecimento acessível e derruba barreiras sociais. O conhecimento, outrora elitizado, ganha nova forma. Mesmo que as pessoas não entendam os termos jurídicos usados na política, certamente terão a acesso à mensagem que estes termos carregam.

Anitta contribui para derrubar as barreiras de uma política elitizada, tornando-a acessível ao povo. Promove uma educação emancipadora. E isso, certamente incomoda muita gente.

Vale lembrar que figuras públicas não se limitam, aqui, a pessoas físicas. Pessoas jurídicas também o são. Uma grande empresa tem voz, muita voz. E influenciam decisões a nível nacional e mundial.

E se tantas outras figuras públicas dedicam parte de sua energia para uma educação emancipadora?

Esse é meu sonho, confesso. Afinal, política não é apenas sobre eleição e sobre os 3 poderes. Esses são parte de um espectro maior.

No sentido mais amplo, política é sobre construirmos futuros. Transitarmos entre o individual e o coletivo, na busca por caminhos que deem conta de cuidar de nós e dos outros. Vivendo o conflito das diferenças e buscando as convergências.

E, sem emancipação, seremos eternos reféns de poucos, que continuarão a usar do poder e do conhecimento para manterem um sistema de opressão que se vale da manutenção da ignorância como estratégia de sobrevivência.

Sérgio Luciano