Opinião

No TEDx Amazônia, a presença mais impactante foi a da fumaça sobre Manaus

Ao desfazer minha mala, percebo que todas as roupas cheiram a fogueira — não frequentei luau nenhum. Eu voltava da minha primeira viagem a Manaus, no meio da Amazônia. Nos três dias em que estive ali, o ar permaneceu tomado de fumaça. Na primeira vez que vi o Rio Negro, não pude enxergar a outra margem por causa da neblina.

Outubro foi o pior mês dos últimos 25 anos em relação aos incêndios, que queimam florestas no oeste do Pará. Carregadas pelo vento, fuligem e fumaça se espalham continente adentro.

Tenho certeza de que não foi intencional, mas não houve presença mais impactante no TEDx Amazônia, evento realizado entre 2 e 4 de novembro, e que reuniu ativistas, empreendedores, cientistas, influenciadores, líderes indígenas e comunitários. Respirar o ar tóxico traz a certeza de que é preciso agir, urgentemente, pela preservação da floresta. Se pra você ativismo ambiental ainda parece um grande mimimi, divido coisas que aprendi e que ajudam a entender por que esse lance de Amazônia é, sim, problema seu.

O brasileiro precisa se sentir dono da Amazônia

Tá na Constituição de 88: o bioma da Floresta Amazônica é patrimônio nacional. Na teoria, isso deveria assegurar sua conservação. Na prática, não é o que acontece. Distante dos grandes centros, fica parecendo que não é problema nosso. "Difícil proteger e defender aquilo que a gente não conhece", disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Marina tem razão. Quando seu problema de todo dia é o ônibus que não chega, é difícil pensar em questões planetárias. Mas, quando você se dá conta de que a chuva torrencial que alagou a rua e impediu o ônibus de circular no seu bairro está diretamente relacionada ao desequilíbrio ecossistêmico provocado pelo desmatamento - a tal crise climática - talvez caia a ficha.

Marina Silva no TEDx Amazônia: "tenho me esforçado para evitar o 'eu te disse?'"
Marina Silva no TEDx Amazônia: "tenho me esforçado para evitar o 'eu te disse?'" Imagem: Divulgação TEDx Amazônia

O brasileiro precisa SE ORGULHAR da Amazônia

Uma parte do problema está na barreira linguística. As pessoas que realmente entendem de floresta falam (muitas) outras línguas. Ana Carla Bruno, antropóloga, falou sobre um app, desenvolvido por dois garotos manauaras, que contém um teclado com caracteres especiais das línguas amazônicas. Chama-se Linklado. "A escrita é um instrumento de poder", disse. De transmissão de conhecimento. De propaganda.

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E de luta. A líder indígena Maial Paiakan, a primeira Kayapó a formar-se em direito, empenhou-se em traduzir a constituição, para capacitar seu povo a lidar com leis e abrir uma frente de batalha sólida pelos indígenas.

Outra parte está na partilha da cultura local. Maickson Serrão, que cresceu nas margens dos rios de Boim, no Pará, ficou chocado ao descobrir que o povo das cidades sabia mais de Chapeuzinho Vermelho que de Curupira. (Aliás, "a" Curupira, aprendi). Daí ele criou um podcast, o Pavulagem, que traz gente local pra contar as histórias dos encantados da floresta. Foi recebido como celebridade.

Soluções para conter o desmatamento podem estar na própria floresta. (E fazem cocô)

Federico Pardo foi fazer uma reportagem sobre Macacos-Aranha, espécie em risco de extinção, pela National Geographic. Ficou sensibilizado e entrou numa cruzada em defesa dos primatas, que ele chama de "jardineiros da floresta", porque plantam árvores. Ao comer frutos e fazer cocô, dispersam mais de 600 mil sementes por ano. 0,1% delas viram árvores. Ou seja, 2 árvores por dia.

Não dá pra tirar o dinheiro da equação

Para Juliano Assunção, economista do Climate Policy Initiative, o carbono pode mudar o destino da floresta
Para Juliano Assunção, economista do Climate Policy Initiative, o carbono pode mudar o destino da floresta Imagem: TEDx Amazônia/Divulgação
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E talvez essa seja a única maneira de convencer os grandes a comprarem a briga pela conservação.

. Juliano Assunção, diretor executivo do Climate Policy Initiative e professor de economia da PUC-Rio, aposta na Amazônia como fiadora das emissões de carbono do mundo. Desde que isso seja muito bem pago. E em dólar - no mínimo US$ 20 por tonelada. Estamos falando de um fluxo financeiro de cerca de 320 bilhões de dólares pelos próximos 30 anos. Para chegar a esses valores, Juliano elaborou um modelo matemático ao lado de colegas da academia — se esse tipo de coisa te impressiona, um deles é Thomas Heller, que dividiu um prêmio Nobel em 2007 com Al Gore. O mesmo levantamento aponta para o fato de que ao invés de neutralizar o carbono, a Amazônia emitiu 1,1 bilhões de toneladas de CO2 por causa das queimadas e do desmatamento só em 2020. Ou seja, estamos literalmente queimando as verdinhas.

. Muitas das queimadas e do desmatamento têm a ver com a criação de gado — porque é preciso abrir caminho para o pasto. Luís Fernando Laranja, empreendedor que vive de quebrar a cabeça pra criar soluções sustentáveis e lucrativas, está trabalhando em um modelo de pecuária regenerativa - que nada mais é que plantar árvores em pastos. "Não basta mais conservar. É preciso regenerar". Ele garante que esse modelo pode render muito mais para os investidores.

Mas... Floresta não é fábrica de iPhone

"Quando morava na floresta, comia o cacau no tempo do cacau. O bacuri no tempo do bacuri." Marina Silva, ministra do meio ambiente, está falando sobre o respeito ao tempo da natureza. A atividade extrativista não funciona como linha de produção.

pra produzir e comercializar sem destruir. É o comércio ético. A Rede Origens Brasil, que cobre uma área de 60,9 milhões de hectares, reúne 4 mil produtores entre povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais que comercializam 22 ingredientes e abastecem 33 empresas. Os produtos, portanto, têm garantia de origem e rastreabilidade. Estão à venda pra todo Brasil no Mercado Livre.

Ainda assim, há o risco de os recursos se esgotarem, se submetidos à lógica das demandas imediatistas. É por isso que tem gente, como a advogada Vanessa Hasson Oliveira, que defende que existam leis específicas para proteger a natureza, como se ela fosse uma pessoa. É reconhecer que nem tudo o que está nela pode ser aproveitado, mesmo que de forma sustentável.

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Ativistas são escudos humanos. E são assassinados

Narubia Werreria usou voz de trovão para alertar sobre as mortes dos ativistas ambientais
Narubia Werreria usou voz de trovão para alertar sobre as mortes dos ativistas ambientais Imagem: TEDx Amazônia/Divulgação

"Maria! José! A luta segue em pé!" Claudelice Santos homenageou seu irmão e sua cunhada, ativistas, mortos em uma emboscada em 2012, provocando comoção no auditório. Hoje, sua "casa de respiro" acolhe defensores ameaçados de morte;

Bushe Matis, presidente da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, na fronteira com o Peru, "arma" os jovens com tecnologias de monitoramento avançadas para mapear a presença de invasores;

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Adnan Demachki, ex-prefeito de Paragominas, responsável por uma renascença ambiental no município, viu queimar o prédio e os carros do Ibama na cidade, depois de uma ação de apreensão de um carregamento de madeira extraída ilegalmente;

Ângela Mendes, a filha de Chico Mendes, e que viu o pai ser assassinado aos 19 anos, hoje preside uma organização para honrar o legado da família. Não sem riscos: a líder indígena Narubia Werreria, nos lembra, aos gritos, que entre 2012 e 2021, somos o país que mais matou ativistas ambientais. 1 a cada 3 era indígena.

Defender o reforço dos órgãos de fiscalização ambiental e defesa dos recursos humanos, abastecê-los de recursos, financeiros e humanos, deveria ser prioridade de governos e empresas.

O que pra uns é uma causa, pra outros é casa

Valcleia Solidade convida a todos a conhecer a realidade de perto para contribuir que ela mude
Valcleia Solidade convida a todos a conhecer a realidade de perto para contribuir que ela mude Imagem: TEDx Amazônia/Divulgação

O evento, que se realizou no Armazém XV, zona portuária de Manaus, reuniu cerca de mil pessoas nos três dias. Ao final, houve uma emocionada confraternização, regada a sabores locais, com clima de Faria Lima. Apesar da fumaça.

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Não longe dali, pessoas em situação de rua se banhavam nas calçadas da Praça da Matriz, para vencer o calor que passava dos 35 graus, em meio a ambulantes que disputavam os pedestres com ofertas de películas para celular.

A provocação de Valcleia Solidade, que dividiu com uma audiência emocionada sua trajetória de luta pelos ribeirinhos, ganha força:

Para você, que usa a narrativa de que a Amazônia vai salvar o planeta, te convido a conhecer a realidade de perto. E contribuir para que mude.

Valcleia Solidade, superintendente de desenvolvimento sustentável de comunidades da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)

Ui, doeu.

* A jornalista viajou a convite do TEDx Amazônia e Mercado Livre, patrocinador oficial do evento

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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