Opinião

'Inimigos' se uniram para evitar desastre ambiental no Mar Vermelho

Fim de ano com gostinho de fim de mundo - entre secas, enchentes e guerras, as últimas notícias têm trazido uma forte sensação de impotência e frustração. Mas o mundo pode ser diferente, como mostra essa história real e recente em que governos nacionais, empresas de petróleo e até mesmo crianças de escolas dos Estados Unidos evitaram um potencial derramamento de óleo de um milhão de barris no oceano.

O Mar Vermelho é uma região essencial para o comércio mundial, por onde passam 12% de todas as mercadorias, tornando a área estratégica também para o transporte de petróleo e gás natural entre as regiões do Oriente Médio, África, Ásia e Europa. A região abriga ainda diversas espécies que só ocorrem ali e combina alta temperatura e salinidade, o que torna o ecossistema único e um modelo para projeções de mudanças climáticas. Trata-se de uma área de intensa disputa, onde muitas civilizações desde a antiguidade já tiveram seu rumo alterado pelo controle do Mar Vermelho - e onde, no meio de um desses conflitos recentes, um navio ficou "esquecido" por diversas décadas.

Em 1988, um grande petroleiro chamado FSO Safer, pertencente a uma empresa estatal do Iêmen, foi ancorado em águas costeiras para servir como plataforma flutuante de armazenamento e descarga de petróleo. Décadas depois, o navio já não ia muito bem, mas suas operações e manutenção foram suspensas em 2015, após o início da guerra civil no Iêmen. A partir daí, os riscos de desintegração aumentaram muito, ameaçando derramar 1,14 milhão de barris de petróleo no Mar Vermelho - quatro vezes mais óleo que o famoso acidente de Exxon Valdez, que teve um custo de limpeza estimado em de US$ 20 bilhões de dólares.

Mapa confeccionado por agência britânica mostra risco de vazamento do petroleiro no Mar Vermelho
Mapa confeccionado por agência britânica mostra risco de vazamento do petroleiro no Mar Vermelho Imagem: FSO

O casco do navio já estava corroído pela água salgada; a casa das máquinas inundada; e poças de óleo se formavam no convés. O vazamento era iminente, mas conforme os anos se passavam e a complexidade do problema só aumentava, ficava difícil de acreditar que alguma atitude seria tomada. Até que em 2021, o coordenador residente da ONU no Iêmen, David Gressly, resolveu intervir e começou a intermediar a colaboração paralisada para evitar um derrame.

Por meio da ONU, com doações de 23 dos 193 países membros, foi possível arrecadar fundos para transferir o petróleo para um navio em boas condições de navegar. O processo de financiamento não foi fácil: eram necessários US$ 143 milhões de dólares, dos quais os países doaram US$ 93 milhões, a indústria petrolífera outros quase US$ 20 milhões. Mas muitos países e empresas não acreditavam na possibilidade de sucesso da operação e ainda faltavam recursos, o que levou a ONU a começar um financiamento coletivo online. Foi aí que a notícia chegou até um grupo de jovens dos Estados Unidos, e gerou uma mobilização das escolas públicas locais.

Pequenos vazamentos e corrosão no navio petroleiro FSO Safer.
Pequenos vazamentos e corrosão no navio petroleiro FSO Safer. Imagem: FSO

A conta pode até parecer alta, mas equivale a apenas 22 minutos de inatividade do Canal de Suez (o principal do Mar Vermelho) e menos de 1/140 da conta estimada em caso de derramamento. E ainda que por um pequeno período, em agosto deste ano, o governo do Iêmen e seus opositores na guerra civil trabalharam juntos para evitar uma crise humanitária e ambiental caso o navio se partisse.

A vida marinha local - e nós - também temos um respiro. O Mar Vermelho é considerado o maior refúgio mundial para os recifes de corais contra as alterações climáticas, pois os corais da região toleram aumentos de temperatura muito maiores do que outras espécies de corais.

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Mas acima de tudo, o caso traz um exemplo daquele mundo que queremos acreditar, onde mesmo em meio a desafios aparentemente intransponíveis, em regiões fortemente disputadas, encontrou-se um caminho. Um mundo onde independentemente de nossa idade, origem ou recursos, cada um de nós pode desempenhar um papel importante na proteção do nosso planeta e na construção de um futuro mais sustentável.

Beatriz Mattiuzzo é oceanógrafa, mestranda em Práticas de Desenvolvimento Sustentável, instrutora de mergulho e cofundadora da Marulho, negócio socioambiental que intercepta redes de pesca junto a pescadores locais em Angra dos Reis.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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