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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Luta pelo Quilombo Saracura é oportunidade de fortalecer futuro negro de SP

Passado e futuro negro de SP estão em jogo na luta pelo Quilombo Saracura - Elton Santana
Passado e futuro negro de SP estão em jogo na luta pelo Quilombo Saracura Imagem: Elton Santana

17/07/2022 06h00

Nascido de um quilombo, território do samba, o Bixiga hoje passa por um momento crucial para entender a sua história e pensar o seu futuro. Notoriamente associado à imigração italiana pela branquitude, por muito tempo o bairro paulistano teve sua memória negra invisibilizada, ou não tão destacada como a memória europeia, como ocorreu com a própria cidade de São Paulo.

Existem registros de ocupação humana e sua interação com o ambiente em plantas históricas e fotografias desde o século XIX, aproveitando a geografia favorável de sinuosas curvas, matas e baixadas, sobretudo na área do vale do rio Saracura. Tais registros atestam a presença de habitações e atividades como lavagem de roupas e pesca às margens dos cursos d'água: "A região do Bexiga abrigou um dos mais antigos quilombos de São Paulo: o Saracura. Em região brejeira, o quilombo se formou no final do século XIX às margens do ribeirão homônimo, cujas nascentes localizam-se no morro do Caaguaçu, na região da Avenida Paulista", diz tese de Stella Paterniani (2019).

Saracura - Vincenzo Pastore, Coleção Instituto Moreira Salles (IMS).  - Vincenzo Pastore, Coleção Instituto Moreira Salles (IMS).
Vale do Saracura (região da atual praça 14 Bis) entre o final do século XIX e início do século XX
Imagem: Vincenzo Pastore, Coleção Instituto Moreira Salles (IMS).

A persistência de antigas morfologias urbanas na mesma localidade é testemunho dessa história. O antigo caminho da Saracura Grande, usado pelos quilombolas e adaptado às condicionantes da topografia da encosta da Grota do Bixiga, foi pavimentado e recebeu o nome de rua Almirante Marques Leão. Seu traçado não retilíneo é prova de que é anterior ao arruamento de malha ortogonal da Bela Vista "oficial", além do fato de que seu desenho não está presente em plantas históricas anteriores a 1930. A rua Lourenço Granato é mais um exemplo, pois seu desenho acompanha o leito do córrego Saracura Grande, que passa "escondido" sob o leito carroçável.

saracaura 2 - Geraldo Horário de Paula Souza/Centro de Memória da Saúde Pública/Faculdade de Saúde Pública/USP - Geraldo Horário de Paula Souza/Centro de Memória da Saúde Pública/Faculdade de Saúde Pública/USP
Área próxima ao córrego Saracura Grande, em que é possível visualizar a presença de edificações, caminhos abertos e quaradores de roupas. Sem data e autoria registradas
Imagem: Geraldo Horário de Paula Souza/Centro de Memória da Saúde Pública/Faculdade de Saúde Pública/USP

De 2000 para cá, uma série de trabalhos acadêmicos, artísticos, filmes e reportagens têm questionado essa tradição seletiva que prioriza a memória italiana e mostrado a importância da presença negra na construção deste território. Pesquisas como a da cientista social Larissa Nascimento (2016) e do antropólogo Alessandro Lopes Lima (2020) reúnem elementos que confirmam a existência de um quilombo urbano no local. Para Lima, a vida cotidiana do Saracura estava em integração com o ambiente. Os alimentos eram usados para consumo próprio ou como ingredientes para quitutes vendidos em outros pontos da cidade. As águas eram usadas para a lavagem de roupas, outra atividade que gerava renda aos quilombolas.

Os contornos étnicos do Bixiga também foram examinados por Reinaldo José de Oliveira (2017) e Márcio Sampaio de Castro (2006). Ambos chamam atenção para a presença negra. O segundo denomina a região do vale do rio Saracura como "o quadrilátero negro" do Bixiga. Oliveira afirma que se tratava de um território que pertencia à cartografia negra da cidade, onde as "espacialidades negras" conformaram "enquistamentos étnicos consolidados" e onde os negros encontraram formas de se articular em organizações sociais e culturais.

Apesar da profusão de estudos mais recentes, em 1989 a historiadora Maria Beatriz Nascimento já trazia no filme "Orí" a referência ao Quilombo Saracura, ligando-o ao território da escola de samba Vai-Vai, herança e continuidade dele, agremiação que ali se originou como um cordão, ocupando por décadas a região. Em 1984, a historiadora Célia Lucena citava em seu livro "Bexiga - A sobrevivência cultural" uma ata de 1831 da Câmara Municipal que menciona a tentativa de fechar o acesso do Anhangabaú ao Bexiga, cujo objetivo era impedir o trânsito de pessoas escravizadas ao local.

Dois anos antes, em 1982, Geraldo Filme nos informava que o samba no vale do Saracura é tradição e continua, apesar da urbanização que não o respeita. Ao estudar a obra do músico, o historiador Amailton Azevedo (2006) diz que, nas composições do artista, "o Bixiga possui sua marca principal não como espaço que se verticalizou e modernizou, mas como lugar construído e conquistado pelas pessoas que viviam na várzea do Saracura, um dos locais preferidos de encontro dos descendentes de africanos para jogar futebol e cantar sambas". Evidenciando a sobrevivência relativa dessas práticas, a jornalista e pesquisadora Claudia Alexandre diz, em seu livro ("Orixás no terreiro sagrado do samba", 2021), acerca dos ensaios do Vai-Vai: "É tradição, até hoje, seus integrantes percorrerem as ruas do bairro em cortejo, como uma mistura de agradecimento, demonstração de pertencimento ao território e ocupação do espaço urbano".

Não foi por acaso que a primeira sede do Movimento Negro Unificado (MNU), enfrentando a ditadura empresarial-militar, em 1978, teve lugar na rua Maria José, 450. Pouco depois, a mais longeva organização negra em atividade no país, que completou 44 anos anos em 2022, ocupou outro endereço no Bixiga: o número 518 da rua Almirante Marques Leão. A localização era parte da luta por reivindicar visibilidade à origem quilombola e resistente do território.

No entanto, apesar de todas essas evidências, ainda hoje perdura a não valorização e a dificuldade de reconhecimento de territórios quilombolas e negros nas cidades. No artigo "Por uma história pública dos escravizados no Brasil" (2014), Hebe Mattos, Martha Abreu e Milton Guran ressaltam que, até o final do século XX, "impressiona a ausência de esforço para determinar os lugares de memória dos processos de escravização em massa".

Memória e presença ameaçadas pelo "progresso"

Douglas - Thiago Fernandes - Thiago Fernandes
Douglas Belchior em ato pela preservação do Quilombo Saracura
Imagem: Thiago Fernandes

Em 2022, vivemos mais um período em que as ideias de progresso e de desenvolvimento ecoam no imaginário urbano e ameaçam a memória e a territorialidade da população negra no bairro, como já ocorreu em outras décadas, com a canalização dos rios e a construção do leito da avenida Nove de Julho, por exemplo. Na mesma perspectiva, a preservação do patrimônio cultural é encarada como veículo de congelamento, ou seja, como algo que "atrapalha" a construção de obras públicas e empreendimentos privados que têm como objetivo "desenvolver" e "valorizar" um determinado bairro e a própria cidade.

Mas esta assertiva é apenas parte da estratégia de invisibilidade, pois a memória, assim como a preservação do patrimônio cultural e arqueológico, é objeto de disputa nas cidades, lugar de sofisticação de mando e afirmação e reafirmação de territórios. Por isso, a memória e o patrimônio cultural têm sido, ao longo da modernidade, tão disputados. Trata-se de poder e seu exercício.

Coordenadas pela concessionária Linha-Uni, contratada em formato de Parceria Público-Privada pela Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, e pelas empresas Acciona e Alstom, as obras da futura estação da linha 6-Laranja do Metrô - que ligará a estação São Joaquim ao distrito da Brasilândia (local, também, de registro arqueológico: o sítio do terreiro de candomblé Santa Barbara, realizado pelo arqueólogo doutor Rossano Lopes Bastos quando atuava no IPHAN/SP) - ocuparam a quadra da escola de samba, deslocada para outro endereço no bairro. Restou, naquele local, a placa do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura na esquina com a rua Rocha, sinalizando que ali nasceu a agremiação mais vencedora do Carnaval paulistano.

No entanto, durante a escavação arqueológica prevista por lei para esse tipo de obra, a empresa especializada contratada pelo consórcio do Metrô, A Lasca, encontrou um material de extrema importância para estudar a ocupação negra do bairro. "Trata-se de uma pequena área com vestígios arqueológicos, de transição do século XIX para o XX e primeira metade do XX, localizada às margens do córrego Saracura", informa o cadastro do sítio no Iphan, feito em abril de 2022.

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Bloco Ilú Obá De Min se apresenta durante ato organizado pelo movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai. Registro em 02 de julho de 2022
Imagem: Michel Françoso

Da compreensão do valor desses achados para o direito à memória, à terra e à presença da população negra no bairro e na cidade, o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, do qual os autores deste texto fazem parte, se formou para lutar pela preservação deste sítio, indo aos órgãos responsáveis cobrar a formalização do compromisso. Composto por moradores, sambistas, pesquisadores, militantes negros, o movimento atua por um memorial no local e um projeto de educação patrimonial feito junto à comunidade, além da mudança do nome da estação de 14 Bis para Saracura Vai-Vai. A mobilização também tem se organizado de modo a auxiliar na permanência da população negra na região, de forma que a chegada do transporte não seja agente de gentrificação.

É importante enfatizar que a mobilização popular não se coloca contra a construção da linha e das estações do Metrô, pois entende sua importância para a mobilidade urbana do município e para o deslocamento de moradores e trabalhadores do bairro. No entanto, pretende-se, de um lado, garantir a preservação dos remanescentes arqueológicos do Quilombo Saracura, a musealização da estação com os elementos e motivos do território negro, combinado a um extenso programa de educacão patrimonial e a mudança do nome da estação. De outro, mostrar que a permanência e a visibilidade dos vestígios contribuem para o que entendemos como o verdadeiro desenvolvimento urbano e social, que abrange: a formação de uma sociedade ciente e consciente sobre seu passado e sobre a história urbana de sua própria cidade; o devido reconhecimento e valorização de sítios de importância histórica negra, assim como das memórias e manifestações culturais ligadas a eles; e, por fim, o entendimento de que patrimônio cultural não é apenas monumentos e objetos presos no passado, mas algo com dimensão no tempo presente e importante para o fortalecimento de identidades e laços afetivos com o território no futuro. O passado é aquele lembrado, ou seja, aquilo que dizemos dele. E dizemos: estamos aqui e vamos ficar.

A preservação do Quilombo Saracura é um imperativo legal, étnico, reparador, e sem dúvida, uma oportunidade para que o modelo de desenvolvimento que defendemos seja alcançado e para que o Bixiga seja devidamente reconhecido como território negro em São Paulo.

Autoras(es)

Adriana Terra - Jornalista, Mestre em Estudos Culturais pela EACH-USP.

Claudia Muniz - Arquiteta e Urbanista, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, Professora no curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP e Integrante do Coletivo Salve Saracura.

Lucas Inocencio Almeida - Técnico em Museologia, graduando em Museologia-UFBA, Membro da União dos Amigos da Capela dos Aflitos e do Instituto Tebas.

Luís Michel Françoso - Antropólogo, Doutorando em Antropologia Social pelo PPGAS-USP, membro do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (GEAC/USP) e integrante do Coletivo Salve Saracura.

Rossano Lopes Bastos - Arqueólogo, Doutor e Livre docente em Arqueologia Brasileira MAE/USP, Membro da Rede de Arqueologia Negra, membro do ICOMOS/Br (Conselho Internacional de monumentos e sítios/UNESCO).