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Fred Di Giacomo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Tenho medo de quem bota racista pra tomar conta de um país multicultural"

A banda Devotos lança, em agosto, o disco Devotos - Punk Reggae - Tiago Calazans/Divulgação
A banda Devotos lança, em agosto, o disco Devotos - Punk Reggae Imagem: Tiago Calazans/Divulgação
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

20/07/2021 06h00

"Tive uma infância muito do caralho, vixe... Pelada na rua, empinar pipa, brincar de pega, jogar pião. Quase fui jogador de futebol, cheguei até o juvenil do Santa Cruz (PE), mas, aí, eu já tinha a Devotos".

Marconi de Sousa Santos, pernambucano de 50 anos, sonhava em ser boleiro como quase todos moleques pobres do Alto José do Pinho, favela de Recife (PE), mas, como poucos brasileiros, Cannibal, como é conhecido nacionalmente, acabou se tornando um ícone do rock nacional, responsável por parir um clássico do punk sul-americano: "Agora tá valendo" (1997), álbum lançado quando o trio (que mantém a mesma formação desde 1988 e se completa com Neílton, na guitarra, e Cello, na bateria) ainda chamava-se "Devotos do Ódio".

Futebol e rock n' roll

1 - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
"Tínhamos um time aqui no Alto José do Pinho chamado Peñarol, em homenagem ao Peñarol do Uruguai. Essa foto foi de um campeonato que participamos na Tamarineira e ficamos em segundo lugar.", Cannibal da banda Devotos
Imagem: Acervo Pessoal

"Sou tão apaixonado por futebol que eu deixava de ensaiar para jogar campeonato de várzea. Neílton e Cello é que me centraram", conta Cannibal, torcedor do Santa Cruz "no bom e no ruim". Já sem o "do Ódio" no ome, os cabras gravaram outros seis discos de estúdio, começando com o álbum homônimo lançado pela Rock It!, gravadora de Dado Villa-Lobos (Legião Urbana). Este trabalho contava com alguns reggaes em seu repertório e participações de gente grande como Ras Bernardo (ex-Cidade Negra) e Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso).

Os autores de pedradas como "Punk rock, hardcore, Alto José Pinho" e "De Andada", lançaram, ainda, duas coletâneas e um disco ao vivo. Infelizmente, a primeira gravação de estúdio deles, produzida por Clemente (Inocentes e Plebe Rude) se perdeu depois de confusões com a gravadora paulistana que lançaria sua, então, estreia.

Para agosto, Cannibal, cujos dreads longos passam da batata da perna e o cabelo negro não da vista de ser ameaçado por fios brancos, planeja "Devotos Punk Reggae", álbum com dez regravações de seus reggaes. O primeiro single, a inédita "Nossa História", foi lançado dia 30 de junho. "Nossa História" traz letra de Cannibal ,que homenageia gigantes negros do Brasil como o pioneiro palhaço Benjamin e a revolucionária Luísa Mahin, mãe do abolicionista Luís Gama.

Me condenaram porque minha pele ofusca vocês
Já ouviram falar na heroínas de Tejucupapo?
Já ouviram falar Maria Bonita e o cangaço?
Luísaa Mahin gerou o erê
Grande Otelo sorriu pra você
A vida é um circo e Beijamim
Sou eu e você

"Nossa História", Devotos

Minha casa, minha vida

2 - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Cannibal dos Devotos do Ódio no começo da sua fase punk, anos 80
Imagem: Acervo Pessoal

"O Alto do José do Pinho é a base de tudo", diz Cannibal, que nasceu em Vitória de Santo Antão, Zona da Mata Pernambucana, mas mudou-se com quatro meses para o Alto do José do Pinho, quando o pai biológico o entregou para a sua família de criação. Hoje, encontra esporadicamente o pai, que mora em São Paulo, mas a mãe biológica nunca chegou a conhecer.

Antes do "faça você mesmo" punk, a cultura de solidariedade da comunidade da zona norte de Recife já moldava a cabeça do jovem cantor: "Nos anos 80, saneamento básico era um problema sério aqui", conta Cannibal, que mora no Alto José do Pinho até hoje, "Dona Detinha foi a primeira pessoa a ter água encanada no Alto José do Pinho, mas ela não ficou com a água só pra ela, não. Ela fez um chafariz para compartilhar a água com toda comunidade".

Em 2018, Cannibal passou a rodar as escolas públicas de Pernambuco falando sobre a transformação social através da música, com seu primeiro livro "Música para o povo que não ouve" (CEPE, 2018). O trabalho com jovens não é novidade pra ele. O Devotos apoia diversas organizações sociais e os festivais que organiza na comunidade, onde Cannibal "conhece todo mundo", influenciou centenas de moradores comunidade, famosa por seus afoxés e caboclinhos. Recentemente, uma live promovida pelo músico arrecadou uma tonelada e meia de alimentos para os que passam fome.

"Fazia muitos anos que não via gente na minha porta pedindo esmola", afirma Cannibal que não poupa críticas ao atual presidente: "esse governo não leva a nada, só à morte". O cantor tem se engajado em informar as pessoas do bairro, como se cadastrar para tomar a vacina contra a covid-19. "Não tenho medo desse governo, mas tenho medo de quem botou esse cara no governo -- botaram uma pessoa racista pra tomar conta de um país multicultural".

Nem tudo é treta na quebrada de Canni, no entanto: "por termos sido criados no Alto José do Pinho, nunca tivemos dificuldade em incluir outros ritmos em nosso som: o reggae em Pernambuco é forte e marginalizado, como o punk." Por isso, desde 2000, o trio tem gravado reggaes em seus trabalhos. O ritmo entrou na vida da banda por influências de bandas como The Clash e Bad Brains, mas Cannibal já era familiarizado com o gênero, via Bob Marley, desde a juventude. Além do Devotos, Cannibal também tem uma banda de reggae, a Café Preto.

Afro-Punk

3 - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Cannibal, vocalista da banda Devotos, e o amigo Wally que o apresentou ao rock
Imagem: Acervo Pessoal

"A música entrou na minha vida tarde, só lá por 84, 85. Quem me apresentou pro rock — inicialmente pro heavy metal — foi o Wally, um amigo do colégio. O primeiro disco que eu comprei foi o Iron Maiden (1980), mas eu não conseguia me identificar tanto com o estilo e, na época, não sabia o porquê".

Até então o jovem Cannibal curtia bailes funk com os amigos da sua quebrada sem muito interesse por guitarras distorcidas, no entanto, por andar de skate, conheceu uma galera que o apresentaria à cultura que mudou sua vida: o punk.

As músicas do punk contavam coisas muito parecidas com o que acontecia aqui na comunidade e os frontmans das bandas eram mais parecidos comigo, até mesmo na pele. Clemente [outro punk negro] é meu ídolo até hoje. Cannibal, Devotos

Cannibal fala sobre rock, mas fala sobre raça. O heavy metal e o rock mainstream, no geral, foram muito dominados por brancos. Nos anos 70 e 80, bandas de punk, ska e hardcore — como Bad Brains, Inocentes, Specials, DK, Cólera e Death — eram alternativas para o monocromático ritmo criado por Chuck Berry, mas embranquecido por Elvis e seus discípulos.

Em Recife, influenciados pela explosão do movimento punk paulista, havia bandas punk como SS-20 e Câmbio Negro HC, mas as principais influências de Cannibal vinham de SãoPaulo mesmo. Pressionado pelo amigo Lael, da SS-20, Cannibal, que gostava mesmo de panfletar e militar no movimento, montou uma banda, batizada pelo amigo, e estrearam assim, com pouquíssimo ensaio no festival "Terceiro encontro antinuclear", em 1988. Nascia assim a maior banda punk do Nordeste brasileiro.