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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil: um país entre a queda e a aterrissagem

Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, apresentador do "Flow Podcast" - Reprodução/ YouTube
Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, apresentador do 'Flow Podcast' Imagem: Reprodução/ YouTube
Marcio Black

Marcio Black

Marcio Black é Cientista Político e Coordenador do Programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal.

10/02/2022 06h00

"Tudo o que nós tínhamos, parecemos ter perdido;
Nós devemos ter realmente pago o preço."

Bob Marley and The Wailers

"Esta é a história de um homem que se atirou do 30º andar e durante a queda repete para si mesmo a cada andar pelo qual passa: 'até aqui, tudo bem', 'até aqui, tudo bem', 'até aqui, tudo bem'. Mas o importante não é a queda, é a aterrissagem." Essa é a parábola narrada no início do filme "La Haine" (O Ódio) de 1995, que marcou minha adolescência e, assustadoramente, resume o Brasil atual.

Ou poderia dizer Brasis atuais, por se tratar de um país dividido por profundas desigualdades raciais ao ponto de estarmos na 110ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, se contabilizamos a população negra, e na 40ª se contabilizamos apenas a população branca.

Essa diferença brutal se materializa nas violências que mobilizaram nossa atenção nas últimas duas semanas, como o assassinato de Moïse Kabagambe a pauladas; de Durval Teófilo, trabalhador que chegava em casa e foi morto com três tiros no peito, enquanto por outro lado temos Monark, um podcaster, YouTuber ou seja lá o que for, ao lado de um deputado federal, defendendo a fundação de partidos nazistas no Brasil. Tivemos ainda um líder do MBL promovendo um curso do grupo dizendo que as pessoas "aprenderão a matar democratas" e hoje (9) de manhã o agora ex-comentarista Adrilles Jorge, da Jovem Pan News, supostamente se despede da audiência com o gesto nazista do "Sieg Heil".

Qual a relação de uma coisa com a outra? A materialidade: o que é reivindicado como "liberdade de expressão" em um lugar se materializa em algum outro lugar como ato de violência - e geralmente os alvos são pessoas negras, mulheres ou LGBTQIA +.

Liberdade de expressão, diálogo e tolerância são princípios. E a finalidade desses princípios é funcionar como veículos para o bem-estar da maioria, para o bom funcionamento das instituições democráticas. Não como organizadores ou mobilizadores de violência.

O que precisamos ter em mente em 2022 é que precisamos ter bom senso, responsabilidade, e assumir que discursos de ódio e mensagens que promovam a violência não podem ser tolerados. E não existe paradoxo nenhum em bloquearmos esse tipo de atitude em nome da liberdade: o que Monark fez não pode ser tolerado em hipótese alguma, por ninguém, justamente porque atenta contra o direito de existir de todo um grupo de pessoas.

E aqui reside o reconhecimento da responsabilidade de quem exerce a função social de "figura pública". Elas precisam ser responsabilizadas pelas violências cotidianas que mobilizam sob a égide da "liberdade de expressão", do "humor", com o risco de banalizarmos essa mesma violência, pois no final do dia o produto disso são corpos negros estendidos no chão.

A liberdade de expressão reivindicada aqui, geralmente pelos corpos masculinos e brancos, é a liberdade para expressar a morte. A violência. O genocídio, sim, pois a morte se expressa fisicamente e simbolicamente - enquanto do outro lado o que temos são pedidos protocolares de desculpas. Ou apenas desculpas: "estava bêbado", "achei que fosse um assalto", "queria extravasar minha raiva".

Vivemos num momento fundamental para a história política e social do Brasil. Mas o que é evidente por enquanto é uma sensação de que a história da sociedade brasileira é a história de uma sociedade que cai, e que durante a queda continua a repetir para si mesma: "até aqui, tudo bem", "até aqui, tudo bem", "até aqui, tudo bem". Mas o importante aqui não é a queda, é a aterrissagem.

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