PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A importância de um ecossistema vigilante contra as mudanças climáticas

Participantes no terceiro dia da COP26 - Paul ELLIS / AFP
Participantes no terceiro dia da COP26 Imagem: Paul ELLIS / AFP
Flora Bitancourt

Flora Bitancourt

Flora é empreendedora social, curadora de Ecoa, sócia da Impact Beyond, sócia do Socialab no Brasil, diretora do fiiS no Brasil e presidente voluntária do Instituto Movimentarte, parte da rede de empreendedores do Fórum Econômico Mundial, Global Shapers. Idealizadora da campanha Fome de Ação. Está no momento em Glasgow acompanhando a COP 26 por ECOA.

07/11/2021 06h00

A COP26, que está acontecendo em Glasgow, na Escócia, está sendo considerada um evento histórico e conta com um número de participações que a coloca como maior COP já realizada, com quase 40 mil pessoas credenciadas, superando o encontro de Paris em 2015, com 25 mil. Sendo esta uma ocasião decisiva para o rumo de nosso planeta, a necessidade de metas audaciosas e responsivas por parte dos países faz com que muitos digam que agora já estamos no momento "tudo ou nada".

Na presente ocasião, seis anos após o essencial Acordo de Paris, onde 196 países formalizaram o maior compromisso que a humanidade já assumiu com o ambiente, é o ano de avaliação dos progressos e afirmação de novas metas. Como já era de se esperar, a delegação brasileira frustra mais um vez ao propor um meta de menor impacto do que a feita anteriormente. Especialistas declaram a proposta do governo como "pedalada climática" porque, por mais que a meta de redução seja maior em porcentagem e tenha passado de 43% para 50%, em números totais o valor é menor do que o proposto seis anos antes, quando a contribuição nacionalmente determinada (NDC) passa de 1,20 GtCO2eq (gigatonelada de carbono equivalente) para 1,05 GtCO2eq.

O novo relatório, o Clima e Desenvolvimento: Visões para o Brasil 2030, propõe um cenário e políticas climáticas muito mais ambiciosas e reais e traz uma visão prática de como o Brasil pode atuar pela diminuição das emissões de carbono até 2030, com cenários que equivalem a reduções de 63% e 80% no prazo. O material também considera de forma profunda e técnica todos os contextos importantes para essa transição, garantindo a geração de novos empregos, aumento de renda e do PIB. O documento contou com a participação de 300 especialistas e foi conduzido pelo Centro Clima da COPPE-UFRJ, responsável por um Comitê Técnico-Setorial, e pelo Instituto Talanoa, que liderou o Comitê de líderes sobre Política Climática.

Diz o relatório: "Temos a responsabilidade e a oportunidade de criar empregos, dar fim à perda de florestas, eliminar os incentivos à grilagem, investir em energia limpa barata e acessível a todos os brasileiros. O caminho da justiça climática é inegociável e não podemos perder este momento."

Por isso, o que quero trazer hoje é a importância de outros atores brasileiros na corrida contra os impactos negativos das mudanças climáticas, por mais que nosso cenário federal não seja animador. O que chamamos de governos subnacionais, que são os estados, estão se comprometendo de forma estruturada com a meta net zero, ou seja, zero emissões de carbono até 2050. Aqui em Glasgow foi lançado o consórcio Brasil Verde, onde 22 governadores se comprometeram com ações em prol do meio ambiente em três pilares: bioeconomia, reflorestamento e energia renovável.

Além disso, desde o início do ano, um movimento internacional de organizações da sociedade civil e lideranças climáticas vem mobilizando uma campanha chamada Race to Zero (Corrida para o Zero) e o Race to Resilience (Corrida pela Resiliência). Sem a participação direta do Governo Federal, mas com engajamento dos governos estaduais, até outubro de 2021, o movimento conseguiu a adesão de 10 estados brasileiros, que representam 58% das emissões nacionais do Brasil. Só isso já demonstra um imenso avanço na campanha. Daniela Lerário, líder do Brasil pelo Climate Champions na COP, é uma das responsáveis, no grupo, pelo engajamento dos estados brasileiros numa frente de esforço pela redução de emissões, comemora: "Não tínhamos nenhum estado no hemisfério sul e, depois de sete meses de longas conversas, trouxemos em maio o estado de Minas Gerais, o que foi muito revolucionário. De maio para cá vamos chegar na COP com 10 estados, ou seja, (conseguimos reunir) mais de 50% das emissões do Brasil abaixo de compromissos" contou ela em uma conversa com o UOL ECOA.

No terceiro dia da Conferência das Partes, um acordo com mais de 100 países, incluindo o Brasil, trouxe seu compromisso com o final do desmatamento no mundo. Apesar de todas essas boas notícias, fica a dúvida: quanto podemos confiar nesses acordos? Como eles serão garantidos? Sabemos que são acordos declaratórios e não vinculados a decretos oficiais. Por isso, convido a todos a direcionarmos nossos olhares e esforços para apoiar o ecossistema de pessoas e organizações da sociedade civil que irão ficar em cima e lutar por decretos e políticas públicas ou militar pelo veto de projetos de leis que reduzam a segurança de nossa biodiversidade e dos povos originários. Mas principalmente, acompanhar e batalhar pela aprovação dos regramentos que protegem o meio ambiente e a sociedade. Esse importante evento deixa uma mensagem: 2022 será um ano de ativismo, precisamos estar de olhos abertos e nas ruas para recuperar o nosso País.

Com uma delegação de mais de 80 jovens e 40 indígenas presentes em Glasgow, o Brasil bate recorde de representação da sociedade civil. O evento conta com dois espaços dedicados aos diálogos entre a delegação brasileira. Neles percebemos uma clara separação: de um lado estão os que lutam por um país mais justo e que entendem que a agenda climática só será efetiva quando as outras lutas sociais forem consideradas, com mesas plurais que pedem por justiça racial e justiça climática. De outro lado fica fácil notar alguns que presenciam mais uma viagem internacional paga com o dinheiro do contribuinte, que atua sem tratar abertamente destes números e da realidade desastrosa que opera hoje em nosso país no setor da preservação ambiental.

Vemos hoje muitas iniciativas: uma importante frente de ação por parte dos estados brasileiros; a sociedade civil, com foco na juventude, altamente organizada e uma série de diagnósticos sérios e profícuos. Com tudo isso, é quase uma aberração que o governo federal praticamente assista passivo aos acontecimentos históricos deste momento, ou pior, mascare a realidade em que o Brasil ora agoniza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Opinião