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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

7 alternativas para fomentar uma educação transformadora

FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images
Kamila Camilo

Kamila Camilo

Kamila Camilo, é feminista negra decolonial, ativista, há 10 anos atua com projetos sociais, tem como missão deixar o mundo um lugar melhor do que ela encontrou e faz isso gerando conversas que transformam e fazendo perguntas provocativas. É inquieta e atualmente canaliza seu senso de justiça ajudando organizações a gerarem impacto positivo através de seus negócios na consultoria Impact Beyond, onde atua como Diretora de operações. Gestora de Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, atualmente lidera a comunidade Global Shapers (iniciativa do World Economic Forum - WEF) no Brasil. Foi Valuable Young Leaders destaque em 2020, e é colaboradora em Uol Ecoa.

03/10/2021 06h00

Se tornou senso comum que "educação" é a chave para a transformação, mas, quando questionamos a fundo, poucas pessoas são capazes de definir o que de fato é educação, qual seu propósito, quem deve ter acesso, como deve ser. Teria o Estado direito de arbitrar a educação que crianças e jovens recebem dos pais? A escola ensina ou educa? Quais parâmetros poderiam nortear uma boa educação? São muitas dúvidas, mas em tempos sombrios, negacionistas e com evidente aumento das desigualdades precisamos falar sobre educação, mas não apenas no sentido stricto sensu.

O convite aqui é para falar da educação transformadora, aquela capaz de mudar realidades, abrir horizontes e que é construída pelo ecossistema em que os indivíduos estão inseridos, ou seja: família, escola e comunidade, e também para refletirmos sobre um aspecto amplo que inclui a educação não formal, especialmente em uma país como o Brasil, onde pessoas pobres e pretas, por exemplo, podem levar até 9 gerações para conquistarem a chamada mobilidade social.

O Fórum Mundial de Educação Não-Formal (2019) levantou discussões relevantes sobre pauta e dentro os tópicos estavam:

  • A educação formal não é mais suficiente: por si só não entrega mais o conjunto de habilidades técnicas e socioemocionais necessárias para o desenvolvimento das crianças e jovens;

  • Diversidade e inclusão são chave no processo formativo e ajudam na redução das desigualdades;

  • Reconhecer e fortalecer as redes que trabalham como sistema de apoio da educação formal, por exemplo organizações como os Escoteiros, SENAI, CIEE, Instituto Movimentarte, que oferecem aos jovens seja no contraturno escolar ou aos finais de semana atividades que ajudam a desenvolver as habilidades que não estão no currículo escolar comum.

Essa educação possibilita ao indivíduo um olhar mais profundo e integral do aprendizado, nestes espaços os jovens desenvolvem não apenas o aspecto cognitivo, mas o físico, social e espiritual acessam ferramentas que apoiam o autoconhecimento, a inteligência emocional e a conexão com seus desejos e sonhos. Esses espaços permitem um mergulho em si que é castrado no modelo tradicional no qual a informação é entregue em um volume tão grande que o horizonte de aplicabilidade se perde.

Eu sou fruto de uma educação transformadora, me lembro da minha professora de língua portuguesa na terceira série (professora Vitória Keiko) que colocava no rádio um CD tocando música clássica e me estimulava a escrever sobre o meu caminho até a escola, ela me ensinou a observar e falar sobre isso, propor melhorias. Trazia-me pertencimento, significado e, sobretudo, me permitia saber que eu tinha uma voz e que ela merecia ser ouvida. O que consequentemente me ajudava a entender que eu era responsável pelos meus atos e como eles poderiam afetar a nossa comunidade, o planeta e a mim mesma.

E por falar em planeta, vale lembrar que o imperativo dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são um convite ao nosso comprometimento com a mudança verdadeira em nossa forma de viver, aprender e consumir.

Dito isso, é urgente endereçarmos soluções e buscarmos como sociedade responder aos desafios da ODS 4 (Educação de Qualidade) no sentido mais amplo possível, o que inclui repensar a forma como ensinamos, formato de participação tanto de educadoras (es) quanto de educandas (os). Isso porque não existe educação transformadora sem mudança de cultura e apoio aos educadores que estão na linha de frente.

E embora os números não sejam animadores, já que em novembro de 2020, mais de 5 milhões de meninas e meninos de 6 a 17 anos não tinham acesso à educação no Brasil. Desses, mais de 40% eram crianças de 6 a 10 anos, faixa etária em que a educação estava praticamente universalizada antes da pandemia e hoje as escolas, se assemelham mais a presídios que espaços de aprendizagem e o formato de ensino não seja ideal, temos a oportunidade de fomentar metodologias de acompanhamento educacional com foco em Desenvolvimento Sustentável, guiadas por testes de avaliação de personalidade, isso é o que o projetos como Reflexões da Liberdade faz em escolas, empresas e presídios, por exemplo.

Mas essas organizações não têm o poder de escala que o Estado tem, e aqui é fundamental que haja apoio a fim de que esse novo modelo educacional enxerga cada pessoa com as suas complexidades e não apenas como futuros robôs e ferramentas, mas como alguém com vontades, habilidades, sonhos e necessidades únicas. Mas como fazer isso acontecer de fato? Trago aqui alguns caminhos para essa construção:

  1. Planejamento baseado em evidências (governo digital): sem dados qualificados não é possível ofertar customização a ponto de entender a necessidade individual;

  2. Participação social: precisamos construir com quem vai ser impactada (o) diretamente, partir de um princípio básico da tecnologia que é colocar o usuário no centro;

  3. Inclusão e letramento digital: em resposta a pesquisa Davos Lab do Fórum Econômico Mundial 97,8% dos jovens brasileiros disseram que conectividade deveria ser um direito básico, e durante a pandemia foi possível constatar o quanto a falta de conectividade amplia as desigualdades. Inclusão digital aqui é igual a inclusão social;

  4. Diversidade e inclusão em todos os ambientes escolares: escolas particulares com propostas efetivas de inclusão de pessoas com deficiência, pessoas de baixa renda, pessoas negras, inclusive no que diz respeito a liderança, professores e poder executivo, já que sem diversidade no espaço que se desenham as políticas públicas não há diversidade na ponta;

  5. Fortalecimento e apoio das organizações do terceiro setor que trabalham com a pauta: trazendo o monitoramento e avaliação já previsto do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) indicadores qualitativos também e ampliando o acesso a crédito e investimento público e privado;

  6. Sustentabilidade: para garantir que haja futuro precisamos incluir a pauta em todo contexto da educação, indo desde de educação ambiental, até modelos construtivos para os prédios escolares mais sustentáveis, alimentação mais saudável (que contribui diretamente para o desenvolvimento das crianças) e etc;

  7. Acesso a saúde integral (mental, emocional, ambiental, financeira, preventiva) como parte essencial para o desenvolvimento das crianças e jovens.

A Curadoria de Ecoa

Flora Bitancourt - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Flora Bitancourt
Imagem: Fernando Moraes/UOL
As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta coluna de opinião, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Flora Bitancourt, curadora de Ecoa.

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