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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

5 boas práticas para enfrentar a misoginia no ambiente de trabalho

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Imagem: Getty Images
Flora Bitancourt

Flora Bitancourt

Flora Bitancourt é empreendedora social, sócia da Impact Beyond e do Socialab Brasil, diretora do fiiS Brasil, líder da campanha fome de ação e presidente voluntária do Instituto Movimentarte, integrante da rede de empreendedores do Fórum Econômico Mundial, Global Shapers.

15/09/2021 10h27

Aos 19 anos de idade comecei meu primeiro projeto social e, ao entrar pro mundo do impacto positivo, o mergulho nos movimentos sociais foi um caminho sem volta. Quando me aprofundei no universo do feminismo, passei a entender os efeitos da misoginia na minha vida e a observar muito mais atentamente as situações cotidianas que enfrentamos enquanto mulheres. Anos depois, quando me tornei mãe de uma menina, me comprometi não apenas a encarar todos os desafios impostos a nós, mulheres, no dia a dia, mas a combatê-los.

Todas as mulheres têm alguma história para contar sobre ser desvalorizada, interrompida, ignorada, de não ser levada a sério, de ser substituída por um homem. Ainda que acreditem que não, ao refletir profundamente, certamente encontrarão pelo menos uma situação.

Para recorrer a um exemplo pessoal, estou há algumas semanas para escrever este artigo, me vi dividida entre diferentes títulos e abordagens e, em alguns momentos, com certas barreiras para expressar o que esse tema realmente significa na minha vida e na de tantas mulheres no mundo. Senti, por fim, que falar sobre o preconceito de gênero com o qual convivemos e que domina muitas relações, principalmente profissionais, não é algo simples e muitas vezes nos sentimos vulneráveis.

Nos últimos dois anos, comecei a trabalhar mais com o mercado tradicional, e eu, que nunca tive carteira assinada e sempre trabalhei como empreendedora ou professora, me vi num contexto social diferente, com profissionais de outras áreas, em um ambiente muito dominado pelo machismo. Para ter meu espaço respeitado entre meus pares masculinos, ativei um modo de desconfiança. À força, aprendi a levantar minha voz para ser ouvida em reuniões, num combate ao já tão conhecido mansplaining, essa mania pejorativa de nos dizer como que se faz algo, com o qual as mulheres convivem diuturnamente.

Vislumbrei a hipótese de precisar da parceria de um homem para me fazer mais ouvida em determinada reunião. Senti coisas que ainda não consigo dar nome. Sei que senti desconfortos enormes, engoli sapos que até levei pra casa para não perder uma oportunidade de negócio. Não me levaram a sério, julgaram minha capacidade.

É importante acreditar na equidade de gênero e na vontade genuína de homens e mulheres mudarem essa realidade, mas ainda estamos muito distantes disso. A equidade, segundo o dicionário Michaelis, é nossa capacidade de reconhecer imparcialmente o direito de cada um, é complemento, que isso só acontece a partir do reconhecimento das características individuais e necessidades específicas do outro. É preciso uma transformação social bastante profunda e ampla. Se não começarmos agora a mudar nossas ações, essa realidade seguirá igual por muito tempo ainda. Enquanto todas as mulheres não forem tratadas com equidade, continuaremos a ganhar menos, a ter menos reconhecimento e, consequentemente, menos promoções, a sermos interrompidas antes mesmo de concluir uma pequena frase, etc.

E para aprofundar um pouco o entendimento sobre a seriedade deste assunto, lanço mão de alguns dados e fatos, que nos ajudam a compreender o cenário real.

No livro The Authority Gap, a jornalista Mary Ann Sieghart, relata diversos casos sobre a diferença entre valorização, respeito e autoridade que as mulheres e meninas têm em diversas situações comparadas aos homens. A autora apresenta dados entristecedores como: meninos e meninas já absorveram a ideia de superioridade masculina; juízas americanas são quatro vezes mais interrompidas; quando uma mulher fala mais do que 30% do tempo em um diálogo, o interlocutor masculino acha que ela monopolizou a conversa. Pais e mães acham que o QI de seus filhos homens é maior que o das filhas. Mulheres e homens lêem mais livros escritos por homens do que por mulheres. Pesquisas feitas em currículo iguais, porém, com a alteração apenas do nome mostram que os nomes masculinos recebem mais convites para entrevistas e com propostas de salários mais altas.

A plataforma equalmeasures2030 que reúne dados sobre igualdade de gênero em todo o mundo oferece uma calculadora muito interessante para vermos quantos anos teremos quando atingirmos a equidade em alguns países, em diferentes situações.

No meu tempo de vida, se continuarmos nesse ritmo lento de desenvolvimento, terei por volta de 60 anos, quando todas as mulheres casadas tiverem acesso a contraceptivos; 90 anos, quando todas as mulheres brasileiras chegarem ao Ensino Médio. E também aos 90 conseguirei ver um governo com equidade nos cargos de liderança - hoje, no Brasil, a proporção de mulheres em cargos seniores no governo é de 9%.

E infelizmente, segundo as proporções calculadas pelo site, no meu tempo de vida o Brasil não vai atingir a meta de todas as mulheres se sentirem seguras ao andar na rua durante a noite - número que hoje é 28% - e tampouco viverei para ver leis suficientes para garantir a equidade de gênero no trabalho, isso significa: presença em cargos de poder, salários e benefícios equivalentes, oportunidades iguais e recorrentes.

A crença de que homens são superiores às mulheres está enraizada dentro de nós e precisaremos de muito tempo, de reflexões coletivas e leis para que essa realidade seja diferente hoje e para as próximas gerações. Eu faço aqui um convite para este início de mudança, trazendo cinco formas de lidar com situações em que a misoginia se fizer presente, especialmente, em seu ambiente de trabalho:

  1. Faça parte de uma rede de apoio: procure o grupo de afinidade de gênero em sua organização, e caso ainda não tenha, seja protagonista e inicie esse movimento;

  2. Faça o teste do pescoço: Observe melhor (principalmente se for homem) o ambiente da sua reunião e perceba quantas mulheres estão presentes, se elas estão sendo ouvidas o quanto gostariam e se você poderia ceder sua vez para alguma delas;

  3. Acompanhe e compartilhe mulheres inspiradoras e perfis ativistas nas redes sociais como: @think_olga, @djamilaribeiro1 e @sam_sateremawe

  4. Reconheça, valorize e apoie: as duplas jornadas das mulheres que trabalham com você e são mães.

  5. Doe recursos: Pode ser dinheiro, tempo ou alguma habilidade para alguma instituição que atue no empoderamento das mulheres:

- Política: @elasnopoderbr

- Combate a violência doméstica: @institutomariadapenha

- Mulheres indígenas: @anmigaorg e @surarasdotapajos

- Mídia/jornalismo: @generonumero

- Empregabilidade de mulheres egressas: @passarelalternativa, @cooperativalibertas @humanitas360

- Empreededorismo periférico: @redenoispnois

-Empreendedorismo negro: @pretahub

- Mães Empreededoras: @B2mamy e @maternativa

-Empregabilidade: @secandidatemulher

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