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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Revertendo o efeito dominó da destruição da natureza

Área recuperada com agrofloresta em Jaguariúna (SP) - Flavio Moraes/UOL
Área recuperada com agrofloresta em Jaguariúna (SP) Imagem: Flavio Moraes/UOL
Inger Andersen

Inger Andersen

Inger Andersen é diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)

05/06/2021 06h00

Desde o início da revolução industrial, a relação da humanidade com a natureza foi celebrada como um triunfo. Por meio da inovação, iluminamos países, construímos indústrias e viajamos para o exterior com velocidade sem precedentes. Com o desenvolvimento da agricultura, um número recorde de pessoas está sendo alimentada e, em algumas partes do mundo, a expectativa de vida mais que dobrou.

Cada vez mais, no entanto, parece ser uma vitória de Pirro. A queima de combustíveis fósseis está emitindo gases de efeito estufa, desencadeando uma reação em cadeia de mudanças climáticas, níveis tóxicos de poluição do ar e eventos climáticos extremos, como inundações, ondas de calor, secas e incêndios descontrolados. A rápida destruição de habitats de vida selvagem por meio do desmatamento e da agricultura industrial também é responsável pelo surgimento de três em cada quatro novas doenças infecciosas. Isso inclui vírus zoonóticos como a gripe aviária, SARS, MERS, Ebola e provavelmente a COVID-19, contra a qual o mundo continua lutando há mais de um ano desde seu surgimento.

Esse é o efeito dominó da degradação ambiental. A conservação por si só não nos levará onde precisamos chegar. Os oito principais tipos de ecossistemas - agrícolas, florestais, de água doce, marinhos, montanhosos, pastagens e savanas, turfeiras e urbanos - estão todos sendo degradados. E, assim como no dominó, a deterioração de um ecossistema tem efeito cascata no restante.

Pelo menos dois bilhões de pessoas dependem diretamente de terras de cultivo e pastagens, mas um terço das terras está altamente degradado devido ao uso de pesticidas e fertilizantes e devido à criação de paisagens de monocultura. O que, por sua vez, aumenta a insegurança alimentar e leva à degradação de outros ecossistemas para a criação de novas terras agrícolas. A expansão agrícola e a extração de madeira levaram a uma redução global de 178 milhões de hectares de área florestal nas últimas três décadas - uma área equivalente a cinco vezes o tamanho da Alemanha.

Ao longo do último meio século, o uso de água doce aumentou cerca de 600% e quatro bilhões de pessoas enfrentam regularmente escassez de água. Os oceanos e a vida marinha fornecem até 80% do oxigênio na atmosfera, mas os estoques de peixes estão entrando em colapso rapidamente. A crescente poluição por plástico está tornando os oceanos tóxicos, enquanto o branqueamento e a acidificação podem fazer todos os recifes de coral em todo o mundo desaparecerem até o ano 2100.

Padrões semelhantes de degradação em outros ecossistemas estão derrubando cada vez mais nossa proteção ambiental, tornando-nos mais vulneráveis à tripla ameaça das mudanças climáticas, perda da natureza, poluição e resíduos.

Devemos investir na restauração de ecossistemas - reflorestamento, florestamento, renaturalização e agricultura regenerativa, entre outros esforços. É essencial, como disse o Secretário-Geral da ONU António Guterres, finalmente fazer as pazes com a natureza.

A restauração é possível em grande escala, conforme detalhado em um relatório conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização para Alimentação e a Agricultura (FAO). Os países precisam cumprir seus compromissos de restaurar um bilhão de hectares de terras degradadas e adicionar compromissos semelhantes para áreas marinhas e costeiras. Os governos e os atores do setor privado devem triplicar os investimentos anuais em soluções baseadas na natureza até 2030 e quadruplicar os investimentos atuais de US$ 133 bilhões até 2050.

Além dos recursos físicos, corações e mentes devem mudar. O jogo da humanidade não pode ser sobre conquistar a natureza. Mudar para um efeito dominó positivo na natureza envolve perceber que todos nós fazemos parte dela, e mudar de ações em cascata rumo à destruição de nosso planeta para um efeito cascata de ações positivas, que permitem que a natureza e as gerações futuras prosperem.

Embora grande parte do mundo esteja experimentando o efeito dominó negativo dos colapsos ecológicos, em alguns casos, novas regras já estão sendo seguidas. Desde o plantio bem-sucedido de 200 milhões de árvores diversas no Sahel, a duplicação da cobertura florestal da Costa Rica desde os anos 1980, o Programa de baixo pesticida de Agricultura Natural com Orçamento Zero no estado indiano de Andhra Pradesh, a restauração da lagoa costeira de água salobra de Chilika na costa leste do país, até as inovações como proteínas alternativas (carne cultivada em laboratório). Investimentos em restauração estão reduzindo a pobreza e a fome e contribuindo para a saúde, a paz e a segurança humana.

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), lideranças globais, cientistas, membros da sociedade civil, povos indígenas e líderes comunitários estão pedindo uma aceleração na restauração de ecossistemas. As novas regras do jogo precisarão ser escritas em outubro e novembro na Conferência de Biodiversidade da ONU em Kunming, China, e na COP26 em Glasgow, Reino Unido. Nelas, governos de todos os continentes se reunirão para formar um consenso e declarar compromissos sobre como prevenir, interromper e reverter a degradação de ecossistemas.

Sim, os investimentos necessários são significativos. Mas os custos da inação seriam dez vezes maiores. Se adotada globalmente, a próxima Década da Restauração de Ecossistemas será lembrada como um ponto de virada histórico na forma como nos envolvemos com a natureza e como enfrentamos as ameaças ambientais que estão diante de nós

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