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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Eu e Ela

A deputada estadual Erica Malunguinho com São Paulo ao fundo - Arquivo pessoal
A deputada estadual Erica Malunguinho com São Paulo ao fundo Imagem: Arquivo pessoal
Erica Malunguinho

Erica Malunguinho

É pernambucana, artista e educadora. Mestra em Estética e História da Arte, tornou-se a primeira deputada estadual trans eleita no Brasil, em 2018.

25/01/2021 04h00

Eu & ela. Caminhões de combustível alimentam a vigília da cidade. São Paulo, sempre à espreita, deseja? Deseja que mais a respirem. E espera, entre qualquer respiro, que nenhum a deixe dormir. Como as gigantes, ela nunca dorme. "Não cessa" — dizem os chavões.

Mas, devagar e discretamente, ela cerra alguns olhos e apaga algumas luzes, enquanto tantos outros perambulam e mais outras se acendem. Como tantas e com tantos, não se permite o descanso, pois se sente superlativa, superlotada, soberba, suprema.

O suprassumo da artéria urbanoide latina. Eu olho e a vejo assim. Com ela, transito comigo mesma sob as égides de uma nudez necessária e óbvia à sua ordem, pois assim, ela quer, assim me atravessa. E eu, assim como tantes e com tantes, também desejo todo esplendor de tudo que há de mais superlativo, soberbo, supremo e afins das suas territorialidades.

O que não se vê — e busco, portanto — são as frestas deste acontecimento de supercidade, já que esse organismo impede qualquer preenchimento atrevido, qualquer presença alheia à sua vontade, pois sua condição de permanecer fabulosa se basta.

Ela está só! Quase que divinamente articulando sua engrenagem e, enquanto sinto que a vejo e que me alimento, e que vivo e a respiro, ela me escanteia e se move por tantos e com tantos outros. No meio de mostras, coisas e mais coisas de renome internacional e de tudo que há de mais imprevisível e previsível, ela se exibe, ramifica mais alguns olhos para não perder a balada, para dizer que, ainda, por tantos e com tantos, me vê e espera.

Eu, como tantes e com tantes outres, vou. Até lá, ela se esconde em pontes, viadutos, túneis, becos, condomínios e sem domínios, paredes e paredes, poucas cores e muitos nomes. Ela se despe e me espera lá; espera que, de alguma forma, eu pinte, cante, poetize ou deprede seus entrelugares. Até chegar lá, ela me convida, quase que sorrateiramente: capte-me!

Até lá, ela fica nua, suntuosa e dura; as poucas luzes confundem o que também faz parte dela. Neste caminho, ela se refigura em arquiteturas confusas, difusas, dispersas, esquecidas, esvaziadas pela sua fome de se multiplicar.

Neste caminho, ela lança neons coloridos, sex shops, saunas, entulhos, grafites, demolições e demolidos, e me diz, impassivelmente:

— São apenas locais de passagem...

Eu pergunto:
-- Para quem?

Não é passagem para mim! É a minha tela em branco preenchida de tudo que te escapa. É o meu elo com que restou da sua geografia predatória, minha paixão pelas suas desnecessidades. É também o meu lugar; o seu medo é o meu lugar. Eu quero habitar o seu medo, sua incoerência. Pois, assim, me sinto mais sua.

Sinto que posso ser necessária a ti, que assim poderei te ter, como poucas e poucos, e apenas com outres. Ela não se vê nesses entrelugares. Narcisa abandona o espelho, porque os espelhados das grandes avenidas a suprem. Eles a fazem ser a mais bela de todas, o celeiro dos grandes debates, onde o capital, inclusive humano, encontra forças para se distinguir das demais. Enche-se de brios a Paulicéia...

Antes de me deslocar até lá, invento uma moda inexplicável que depende do clima avesso, das representações que irei encontrar de ti e da que quero ter para também me exibir. Assim nos seduzimos. Você me canta com melodias coloridas, dos raps, sambas e sinfônicas. E, assim, me deixo levar por todos os seus cantos.

Confundo-me! E, quando penso que estou nos seus espelhos, fazendo o mesmo que tantos e tantos outros fazem: admirando-se em ti (isso me dá uma superioridade a mais), você revela o que eu já estava disposta a não pensar:

-- Eu sou o nada!
-- Por que me diz isso? Sabes que acredito!

Pois sei que o seu nada lhe compõe essencialmente; esse nada é o seu tudo. Seu nada é tudo que você é e poderia vir a ser, relativizado pela sua incapacidade de se debruçar nas suas feridas. Seu nada é um tudo à paisana! Sei bem porquê inventa tantas qualidades para seus acasos: porque deve soar poético para alguns tantos que também a desejam.

E não adianta se defender dizendo que é até amorfa, querendo que não lhe cobrem pelo seu desprezo por certos caminhos, porque esconde atrás das suas saias balonê, entre outras coisas, gentes caminhantes, perambulantes, moradias verticais de três ou quatro andares onde se põe o beliche, a geladeira, o fogão e a televisão ligada na casa dos brothers.

No 1º, 2º, 3º e 4º andares, moram os outros tantos.

-- Sou plural! Retruca.
-- Eu também sou!

Poderia estar numa terra de coqueiros, mas fico aqui ao seu redor, perifericamente, tateando sua existência, desvendando seus abismos, tentando, de pouco em pouco, ser um pedaço de ti. Estou onde queres: aqui e lá. Mas eu ando com meus próprios passos, com a insanidade que me fui brindada e a consciência de que faço parte; portanto, olho atrás das suas modas, vejo joelhos, calcanhares e cotovelos, sinto sua axila vencida...

Eu gosto de ver onde esqueces, onde descansas, mesmo sem querer; onde há possibilidades de me distinguir entre tantes.

-- Tenho...
-- Basta! Preciso ir.

Leio as últimas notícias, tomo um banho, fumo, escovo os dentes e apago a luz. Cerro o que não é apenas um dos seus olhos, mas também a fenda da sua vigília, que é onde habita a sua verdade-cidade.

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