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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Educação do Futuro

Dona Jacira

Dona Jacira

Nasceu no dia de natal em 1964, cresceu no Jardim Ataliba Leonel, na Zona Norte de São Paulo, e vive hoje no Jardim Cachoeira, na mesma região. É filha de Maria Aparecida, de quem herdou a garra e o gênio forte. Seu pai, Estácio, missionário religioso, morreu meses antes do nascimento da caçula do casal. Jacira é mãe de Katia, Katiane, Evandro (Fióti) e Leandro (Emicida), rapper que dedicou a ela a música ?Mãe?.

08/12/2020 04h00

Rabeia, cumadi, rabeia senão num deságua.

Falas e comandos do quintal da minha infância, de trabalho em equipe. Eu ali traduzia a palavra rabear: é torcer, virar pra lá e pra cá pra água sair do pano.

Quereria eu que esta estória terminasse aqui.

As formas de ensinar de mães negras e indígenas estão nas ações, na vida e pra vida. E permeiam rituais de como se portar, comer, divertir, dormir, conviver e principalmente sonhar e dar credibilidade a esse sonho.

Numa língua bantu-congo isto se chama kindezi, a arte de ensinar e cuidar dos "devir." Indezi quer dizer "acender o sol em alguém educando por amor" em comunidades tradicionais africanas.

Voltando ao meu quintal, depois de um grande esforço, chupar cana sentadas na sombra, falar da vida e dar risada eram a recompensa pelo trabalho extra. Era educação em movimento. Estava tudo ali dado pros meus olhos. A estória estava sendo grafada em mim.

Mas pra uma mini escritora como eu aquilo tudo era pouco, eu queria mais, queria conhecer os saberes da escola do mundo, pôr roupa de uniforme e ganhar ares de inteligência. Foi assim que no tempo certo, eu fui pra sala de aula: um lugar insalubre desde o primeiro dia, sem sombra, sem descanso, sem vírgula e ponto final.

Ali eu aprendi a matemática que me tiraria da jogada, me anulando da minha vida. A depreciação era matéria principal. Enfim quem quiser saber mais sobre minha escola, terá que ler meu livro porque pra tristeza de meus algozes, eu transcendi, não visitei o cárcere, que é plano de futuro pra mim e os meus, nem morri.

A mim foi dado o dom de escrever e minha vida "está nas mãos de um deus potente." As mulheres do quintal diziam isso sorrindo e chupando cana, rabeando a vida. Essa imagem me salvou.

Eu tive que descer ao inferno de uma sala de aula colonial, adoecer dela pra encontrar a cura no reino do quintal da minha mãe. Ali estava a escola que eu queria pra mim e para os meus, mas eu a reconheci "ontem." E nunca é tarde pra sonhar! Mesmo uma escola ruim é melhor que escola nenhuma. Se ela puder deixar de ser tão excludente racista, homofóbica, patriarcal, já será uma melhora.

Eu, uma liderança, precisava ser desencorajada da escrita. A escola onde passei teve esse papel. Assim que identificada, fui precocemente isolada, posta pra lavar as latrinas, exposta pras outras crianças zombarem de mim. Zombaria é uma forma de humilhação. É uma forma de fazer com que as pessoas não nos respeitem.

Foi na escola que eu entendi o trabalho como castigo, escravização, pra ser feito por necessidade de sobreviver. Entretanto agora, na fase adulta, apartada do meu dom, contava mesmo era com a sorte. E mesmo quando tinha uma boa oportunidade, imaginava que talvez nem merecesse.

Ser bem-sucedida era fator de merecimento, de sorte. Aprendi a confiar em pirâmides, jogos de azar, caça-níqueis, jogo do bicho, loteria. Soluções arranjadas pra sobreviver com dignidade. E criadas, em sua maioria, por pessoas brancas. Seria um jeito de viver com prosperidade.

Uma empresa própria era e é quase impossível. Resta, com muita sorte, um emprego previsível (mesmo ganhando pouco) e seguir dependente de assistências governamentais ou...

A escola caucasiana roubou de nós a possibilidade de sermos sujeitos de valor. Agora precisam retomar a forma de ensinar dando oportunidade a quem perdeu a guerra de contar sua estória. Mas pra isso ela precisa reconhecer seus privilégios, não tem outra saída. Já que não nos devolverá o que nos foi tirado ao longo de tanto tempo, precisa agora fazer justiça.

Eu adoeci, quase enlouqueci, porque buscava a minha verdade! O externo me ensinava algo que a ancestralidade, que me protege, refutava. E eu não pude seguir enquanto não descobri. 45 anos de estória roubada.

Hoje eu aprendi a fala do colonizador, a voz do inimigo homem, mulher, branco(a), misógino, racista, tradicional, caucasiano, assassino, abusador.

À nova escola cabe reduzir os efeitos destrutivos da escravização, do tráfico de meus ancestrais. Mas uma educação não depende só de escola, depende de toda uma nação.

Procurar forças no passado pra fazer planos de um futuro melhor, trazer imagens fortes, que orgulhem nossas crianças de ser o que são pra crescerem com respeito próprio.

Honrar e exaltar nossos próprios heróis que lutam pra nos glorificar, que são nossa família. Porque a cidade está cheia de estátuas de gente que nos matou e segregou, contando uma história perversa sobre nós.

Valorizar nossa potência, como povo incrível que somos.

Rabear a vida e voltar pra o início, ciente que o erro não está na fala das pessoas simples, mas na ausência de cuidado com esta gente.

As mulheres negras vêm sendo um exemplo de educadoras há séculos, tá aí o exemplo rasgado pra quem quiser ser justo. Nossas famílias são totalmente matriarcais e nosso enfraquecimento histórico nos fortaleceu.

Voltando ao quintal de minha mãe, onde minha infância se passou, pude aprender muito mais do que imaginava. Um quintal que só tinha mulheres com estória de abandono e pobreza, mas que nos deu tamanha força.

Eu cá comigo penso que é porque não podendo contar com o amor dos homens e do país, ao mesmo tempo, elas canalizam seu amor é nos filhos. (Dorinda Hafner fala sobre isso) Assim sendo a única coisa que nos resta é canalizar o amor que temos nos filhos e educá-los com tal ferocidade de amor, que chega ser assustador.

Dorinda relata em seu livro: "Sabores da África" um evento no meio da praça de mulheres banhando seus filhos. Me acompanhem.

Em plena praça, elas com seus baldes diante de um poço, cuidam de sua riqueza. São mulheres pobres, mas tem à mão sabão de óleo de amêndoa feito por elas. Esfregam seus rebentos com muito zelo, as crianças se colocam em fila pra serem lavadas uma a uma.

Ao terminar, uma única toalha enxuga todos eles, que então recebem uma boa camada de óleo de amêndoa perfumado com alecrim. Em seguida sentam pra um lanche, batata-doce.

Elas ficam apreciando suas obras de arte cada qual mais cheia de si. Há quem lustre assim sua prata, seu ouro, mas para estas mulheres seu maior bem são seus filhos.

Assim era o quintal de minha mãe, foi assim que eu cresci. Esta pra mim é a educação ideal. Uma educação que não reconhece 400 anos de escravização e suas consequências, não deve continuar existindo. Eu penso...

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