PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

O exercício diário de desconstrução do "eu" racista

Manifestação contra racismo no Largo da Batata, em São Paulo - Daniel Teixeira - 7.jun.2020/Estadão Conteúdo
Manifestação contra racismo no Largo da Batata, em São Paulo Imagem: Daniel Teixeira - 7.jun.2020/Estadão Conteúdo

Luanda Pires e Fernanda Perregil

20/11/2020 13h34

Definitivamente, falas como "eu não sou racista" e movimentações em redes sociais com dizeres "Black Lives Matter", não atendem a profundidade necessária no debate sobre racismo, não gerando mudanças efetivas para reparação de uma população historicamente discriminada.

Prova disso é o alto índice de marginalização e violência direcionadas à população negra brasileira. Enquanto comemoramos o Dia da Consciência Negra do país, a família de João Alberto Silveira Freitas, por exemplo, o enterra, após ter sido espancado até a morte nas dependências de uma famosa rede de supermercado (Carrefour), na cidade de Porto Alegre (RS).

É inadmissível que o racismo ainda não seja encarado como um dos maiores problemas nacionais, e a sociedade brasileira ainda se mantenha em estado de "negação", se omitindo e naturalizando a violência contra esses corpos, como maneira de manutenção do status quo.

Falamos de um país cuja maioria da população é obrigada a utilizar-se de mimetismos para ser tolerada pela minoria e acessar à vida em sociedade, nesse articulado sistema de favores em que a população branca admite a convivência e a presença daquelas pessoas negras com traços mais próximos aos europeus.

A falta de um debate transparente e responsável, por parte do Estado e da sociedade civil, faz com que, após 31 anos de uma Lei que tem como objetivo o combate ao crime de racismo, ainda mantenha esse crime na lista dos "crimes perfeitos", uma vez que os indicadores demonstram que as pessoas negras ainda são submetidas à todos as formas de violência - física e simbólica - sem que os criminosos sejam responsabilizados, conforme muito bem diz o antropólogo Kabengele Munanga.

Não vivemos em um país democrático racialmente e é necessário que reconheçamos que as práticas racistas estão enraizadas na vida cotidiana de toda a nossa população, que naturalizou essas violências e agressões de tal forma, que acabou por desenvolver elaboradas maneiras de cometer essas discriminações.

A identificação de "como o racismo se manifesta no dia a dia", e como ainda "reproduzimos esses antigos conceitos de opressão e inferiorização do "outro", se faz necessário para que assumamos nosso papel dentro da luta antidiscriminatória, enquanto indivíduos que compõem e movimentam a estrutura da sociedade. Uma vez que, incumbir o Poder Público como a única fonte de elaboração de políticas afirmativas é mais uma estratégia de manutenção do racismo estrutural e de nos eximirmos da nossa enorme responsabilidade social.

Dentro da perspectiva de conscientização é preciso reconhecermos nossos privilégios que "naturalmente" nos foram dados pela história desse território e a necessidade de desconstrução deste "eu racista", por meio de um exercício diário de reflexão e práticas antirracistas. Entendo se tratar de processo infinito e constante, dado que precisamos desconstruir a nossa forma de enxergar praticamente tudo o que vemos e como vemos.

Essa desconstrução é parte de práticas repetitivas de olhar o todo e entender como a nossa sociedade colonialista e pós escravocrata foi construída e consolidada, tendo o racismo estruturalmente inserido em todas as relações interpessoais e práticas institucionais.

Embora tal exercício ainda seja afugentado pelo medo de perder espaços de poder e pelo desconforto de trazer para consciência nossa própria vergonha humana de que o racismo nos acompanha até aqui, é o único caminho para que de fato possamos construir uma sociedade verdadeiramente pautada na diversidade e inclusão de todas as pessoas.

Devemos nos questionar sobre a forma com que lidamos com a nossa pluralidade, pois o racismo está em tudo! Isto é, na forma de acesso, impregnado nos espaços de poder e nas restrições sociais que marginalizam pessoas a partir de seus fenótipos. Por isso é necessário entendermos que a desconstrução do "eu" racista é parte de um processo contínuo, diário e constante!

Luanda é advogada e palestrante; coordenadora do Me Too Brasil; presidenta da Associação Brasileira de Mulheres Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos - ABMLBTI; secretária Geral da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP; e diretora tesoureira do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero - GADvS.

Fernanda é advogada e Palestrante. No ano de 2019 foi reconhecida pelo Diretório Internacional Chambers and Partners como uma das pioneiras em diversidade e inclusão na área jurídica em toda a América Latina. É coordendora do Núcleo de Mulheres LBT´s e Gênero da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP; vice-presidenta da Associação Brasileira de Mulheres Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos - ABMLBTI; e integrante da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Opinião