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Turismo precisa de economia circular de plásticos para sobreviver

Getty Images
Imagem: Getty Images

Elisa Dettoni, Regina Cavini, Vitor Leal Pinheiro, Helena Araújo Costa, Jaqueline Gil e Elimar Nascimento

07/11/2020 04h00

O turismo, um dos setores econômicos em mais rápida ascensão mundial nos últimos anos, foi um dos principais atingidos pela Covid-19. Se, em 2019, contribuiu com 10% do PIB global, neste ano sofre com uma redução de até 78% da atividade, colocando em risco a subsistência de 100 a 120 milhões de pessoas, envolvidas direta ou indiretamente em sua cadeia de valor.

Ao longo dos últimos meses, o setor vem discutindo formas de retomar os negócios com segurança, tanto para quem oferece os serviços quanto para quem usufrui deles. Mas as imagens recentes do verão europeu e dos feriados de 7 de setembro e 12 de outubro no Brasil revelaram o potencial nefasto dessa retomada: a infestação de plásticos descartáveis e seu impacto no meio ambiente e no próprio turismo.

Considerando que a competitividade do turismo nacional está ancorada na exuberância dos recursos naturais, já que o país ocupa o segundo lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial nesse quesito, e 8 dos 10 principais destinos estão localizados no litoral, não é difícil entender a matemática. Mais lixo marinho (composto por até 90% por plástico) pode levar a uma queda na competitividade, fluxo de turistas e um menor interesse por essas áreas.

Tudo leva a crer que o interesse por ecotourismo, turismo rural, turismo de aventura e em áreas naturais aumentou. Lugares fechados e com alta frequência turística tornaram-se sinônimo de ansiedade para muitas pessoas, que agora buscam novas formas de viajar com segurança e responsabilidade, tendência revelada por pesquisas feitas com turistas na China, Alemanha, Suécia e Estados Unidos (EUA).

O problema dos plásticos de uso único não é novo nem pequeno. E o pior: parece estar subdimensionado. Estudos recentes do Laboratório Plymouth Marine, no Reino Unido, indicam que a quantidade de microplástico na superfície dos oceanos pode ser 10 vezes maior do que previamente estimado. Se antes da pandemia caminhávamos para um cenário assustador em que teremos mais plástico do que peixes no oceano em 2050, essa informação, aliada ao aumento no uso de plásticos de uso único (só nos EUA estima-se um aumento de até 300%) e à suspensão ou redução da capacidade de reciclagem na maior parte das cidades, desenha-se um cenário ainda mais desafiador.

O estudo "Plásticos de uso único no setor de turismo no Brasil", realizado no início de 2020 por pesquisadores da Universidade de Brasília para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), confirmou que a presença de resíduos (especialmente plásticos) afeta a qualidade de atividades recreativas, a percepção dos visitantes e sua satisfação com o destino escolhido para a viagem. Mesmo antes do advento do novo coronavírus, lixo nas praias tinha potencial de reduzir receitas com turismo em cerca de 39% em destinos brasileiros. Por outro lado, chama atenção que metade dos 41 meios de hospedagem entrevistados não associem a destinação incorreta dos plásticos a impactos negativos no fluxo de turistas, enquanto cerca de 79% dos gestores públicos ouvidos percebem a existência dessa correlação.

Mas a pergunta que não quer calar: afinal, o plástico protege contra a Covid-19? A resposta curta é: não. Embora tenhamos a percepção de que produtos embalados, luvas descartáveis e demais EPIs possam proteger contra a infecção do novo coronavírus, devemos lembrar que eles são apenas barreiras para a transmissão. O Guia de Retomada pós-Covid-19, da Iniciativa Global sobre Plásticos e Turismo, coliderada pela Organização Mundial do Turismo e pelo PNUMA, e apoiada pela Fundação Ellen MacArthur, é categórico: embalagens e produtos de plástico descartáveis não são, em si, medidas de higienização, e não implicam na eliminação do vírus, uma vez que essa é justamente a superfície em que ele tem a maior sobrevida: até 72 horas. Por conta disso, superfícies plásticas representam mais um ponto de risco de transmissão do vírus. Ou seja: se quisermos retomar a atividade turística com segurança, devemos focar nossa atenção nos pontos de contato e reforçar a higienização constante - em vez de plastificar todos os itens que entram em contato com o público. As tais amenidades, hoje tão valorizadas, tornam-se, na prática, vetores potenciais de transmissão do vírus.

A pandemia escancara antigos problemas de produção, consumo, mau uso e gestão dos plásticos. É chegado o momento das operações turísticas no Brasil, assentadas na lógica linear de consumo e descarte dos plásticos, agirem pela sobrevivência de seus negócios e pela saúde de suas equipes, clientes e parceiros. Afinal, quem quer estar em contato com a natureza e esbarrar em plásticos e outros resíduos, especialmente se eles puderem carregar o risco de infecção?

O setor turístico está na posição única de ser simultaneamente responsável e impactado pela poluição plástica. É preciso construir alianças com e entre esse setor e seus fornecedores e governos, incluindo atores nacionais e internacionais, para a adoção dos princípios da economia circular, com regulamentação e subsídios para pesquisas e investimentos na produção. Assim, será possível desenvolver um programa robusto, que promova a transição da linearidade para a circularidade do plástico a fim de reverter essa maré e evitar um cenário com potencial devastador para o meio ambiente e para os negócios.

Elisa Dettoni, Regina Cavini e Vitor Leal Pinheiro integram o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Helena Araújo Costa, Jaqueline Gil e Elimar Nascimento são pesquisadores da Universidade de Brasília e autores do estudo "Plásticos de uso único no setor de turismo no Brasil"

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