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Candomblé e política: tudo a ver

Luciana Bispo

Luciana Bispo

É Ìyálórìsà, assistente social, educadora, gestora do Pólo Cultural LAR Maria Sininha. Militante da infância e contra a intolerância religiosa.

16/09/2020 04h00

Nos últimos tempos, em meio a um processo pessoal de amadurecimento e maior conhecimento em relação às demandas e perspectivas de avanços das religiões de matrizes africanas no campo político, ouço com preocupação uma recorrente recusa à política por parte de sacerdotes, com discursos como "Aqui não quero saber de política".

Quando escuto isso, penso que é importante entender a diferença entre a política partidária e eleitoral, ligada às instâncias municipal, estadual e federal, e a política do dia a dia, marcada por lutas, interesses e demandas da sociedade civil, em que o candomblé, com sua egbé (comunidade), precisa ser compreendido como um espaço que faz política todos os dias ao existir e resistir em um país historicamente racista e caracterizado por avanços fundamentalistas.

Acredito que o candomblé não deva ser visto como político apenas na ótica da resistência, mas também como uma religião que tem outra perspectiva civilizatória, de cuidado integral, acolhimento, respeito, sem discriminação de qualquer ordem. Enquanto outras religiões passaram recentemente a abraçar o discurso da inclusão da diversidade, o candomblé, em sua ótica do cuidado, já tem como premissa o acolhimento de qualquer pessoa que precisa ser atendida, o que está diretamente ligado ao seu surgimento na escravidão, sendo um espaço de cuidado e proteção para escravizados, libertos, livres e todos que também eram rejeitados socialmente.

Toda essa dimensão precisa ser compreendida como política na medida em que desafia os valores que estão postos em uma sociedade capitalista, racista e individualista. Essa política do dia a dia foi estabelecida desde a chegada forçada aqui enquanto escravizado, pois nossa primeira política foi a política de sobrevivência, em que o candomblé assumiu um papel fortalecedor e fundamental, sobretudo com a liderança de mulheres negras. Porém é importante entender que essa política não está apartada da política institucional, pois parte de nossas conquistas está ligada à intervenção política de mulheres negras nessa esfera.

Entre as conquistas, gostaria de destacar a intervenção da iyalorixá Eugênia Anna Santos, conhecida como Mãe Aninha, Obá Biyi, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, que, em 1934, pressionou o presidente da República Getúlio Vargas para sancionar o decreto n. 1202, visando reverter a proibição dos cultos de matrizes africanas no país.

Quase cem anos depois, Mãe Meninazinha de Oxum, do terreiro Ilê Omolu e Oxum, foi uma das lideranças envolvidas no movimento Liberte Nosso Sagrado, que reivindicou a devolução de artigos religiosos do candomblé e da umbanda que foram apreendidos entre 1889 e 1945 e se encontravam no acervo da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Após muito engajamento, a devolução foi recentemente obtida, o que se tornou um marco de uma longa luta para reaver o que nos é de direito.

Os dois casos, apesar da distância temporal, exemplificam um processo árduo de articulação de duas mulheres negras e ialorixás que compreendem a importância da ligação entre a política do dia a dia e a política partidária e institucional em favor da garantia do exercício da nossa religião, como no caso de Mãe Aninha, e do direito à memória, como no caso de Mãe Meninazinha.

Trazendo as palavras de Mãe Meninazinha sobre a devolução dos artigos religiosos, uma luta em parte motivada pelo desejo de fazer o que suas mais velhas não puderam: "Cresci ouvindo isso [sobre os objetos estarem na polícia]. Chegou uma época em que me senti responsável por fazer alguma coisa, já que elas não puderam fazer".

Acredito que nós devemos nos sentir responsáveis por uma participação política ativa, que permita a luta contra o racismo religiosa, a garantia da memória e a transmissão de um legado transformador e de resistência.

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