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Católicas pelo Direito de Decidir surgiu "para questionar lugar da mulher"

A ONG Católicas pelo Direito de Decidir foi fundada em 1993 e luta pelos direitos das mulheres - Reprodução/Católicas pelo Direito de Decidir
A ONG Católicas pelo Direito de Decidir foi fundada em 1993 e luta pelos direitos das mulheres Imagem: Reprodução/Católicas pelo Direito de Decidir

Diana Carvalho

De Ecoa, em São Paulo

14/09/2020 04h00

"Se não sair do Católicas Pelo Direito de Decidir (CDD), você vai ser mandada embora". Regina Jurkewicz, 65, ouviu a frase quando trabalhava no Instituto Teológico, em Santo André. O ano era 2005. A ameaça de demissão foi motivada após o trabalho de doutorado e pesquisa da professora, que questionava a conduta da Igreja com relação a casos de abusos sexuais cometidos por padres contra mulheres.

Regina perdeu o emprego. Mas pode ver crescer ainda mais o trabalho da Católicas Pelo Direito de Decidir, organização que atua na defesa aos direitos reprodutivos das mulheres e que ajudou a fundar em 1993.

"O CDD surge da necessidade de questionar e não aceitar o lugar de subordinação da mulher dentro e fora da Igreja. Além disso, a Igreja tem, oficialmente, uma visão muito negativa, de pecado, sobre sexualidade. E o nosso posicionamento é justamente o contrário, temos uma visão positiva do sexo e não de uma moral sexual que nega corpos e atribui culpa", diz.

Regina Jurkewicz, uma das fundadoras da ONG Católicas pelo Direito de Decidir  - Reprodução/Católicas pelo Direito de Decidir  - Reprodução/Católicas pelo Direito de Decidir
Regina Jurkewicz, uma das fundadoras da ONG Católicas pelo Direito de Decidir
Imagem: Reprodução/Católicas pelo Direito de Decidir

Para a coordenadora do CDD, as mulheres até hoje não têm espaço no sagrado, muito menos no saber. "Quando a gente tem o escrutínio para definir um novo Papa. Você olha no Vaticano e vê aquele monte de homem para decidir quem vai ser eleito. As mulheres não têm possibilidade de chegar perto. E, quando a gente se dá conta dessas situações, é que percebemos que essas 'noções' de Deus são manipuladas pelo próprio patriarcado, porque são imposições criadas".

Em entrevista a Ecoa, Regina fala sobre os avanços de temas tabus dentro e fora de setores religiosos, comenta violações ao direito ao aborto legal e a relação do crescimento do fundamentalismo religioso com o atual governo do presidente Jair Bolsonaro.

Ecoa - O Católicas pelo Direito de Decidir questiona o papel que é dado às mulheres dentro e fora da Igreja desde 1993. Com o passar dos anos, outras questões, como sexualidade e o direito ao aborto, avançam ao mesmo tempo em que movimentos contrários se tornam ainda mais fortes. Como você avalia a defesa desses temas no momento atual?

Regina Jurkewicz - Nos anos 90, 2000, houve um crescimento muito grande do movimento feminista e do movimento LGBT. Isso fez com que discussões sobre aborto, sexualidade deixassem o campo social. Então hoje você tem médicas, psicólogas, profissionais de direito, que, de alguma maneira, dialogam com essas questões.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que temos uma abertura maior para lidar com questões morais, temos uma resposta muito presente da direita religiosa, conservadora, em relação a esses avanços. Então, hoje, a gente percebe a necessidade de um combate muito maior ao fundamentalismo religioso, que ganhou força e visibilidade. Ele está presente no congresso nacional, no crescimento de igrejas e movimentos que se posicionam contra às reivindicações feministas e LGBTs.

Recentemente, no caso da menina de 10 anos estuprada pelo tio, que conseguiu realizar o aborto legal, tivemos um exemplo desse fundamentalismo religioso, com pessoas tentando impedir a interrupção da gravidez...

A gente está passando por um momento de governo de ultradireita que favorece esse tipo de atitude e pensamento. Nesse caso, chama ainda mais atenção é a maneira violenta desses grupos agirem, chamando uma criança de 10 anos de assassina. Um absurdo. Não é uma forma democrática e racional de posicionamento, de argumento. São atitudes agressivas que não tem uma postura reflexiva e aberta ao diálogo.

Agora, esse tipo de 'intervenção', com pessoas ajoelhadas em frente ao hospital, tentando impedir o aborto, é antiga. Nos Estados Unidos, isso acontece frequentemente. E aqui também, mesmo que de maneira quase subjetiva. Em cidades do interior, para conseguir abrir um programa de aborto legal dentro de um hospital público é muito difícil, porque você não tem médicos que assumam fazer, alegam objeção de consciência. Há toda uma resistência, entende? E precisa de enfermeiro, assistente social, psicólogos... Então, embora seja legal e esteja na lei, a implementação do aborto legal no Brasil é muito reduzida, com hospitais que atendem com muita dificuldade e muita pressão por parte desses grupos conservadores.

Ainda sobre esse caso da menina do Espírito Santo, o médico Olímpio Moraes Filho, que realizou a interrupção da gravidez, já havia sido excomungado por um bispo da Igreja Católica por realizar procedimento semelhante em 2009. Essa maneira "punitiva", da Igreja, ainda é bastante presente em sua opinião?

A ideia da excomunhão é muito negativa. Como é que você tem o poder de dizer que alguém não faz mais parte do conceito "corpo de cristo", que é muito maior. Infelizmente não é a primeira vez que setores oficiais usam desse recurso como uma punição. Mas, você veja, o Dr. Olimpio, ele já foi excomungado. E, agora, o que vai fazer? Vai ser excomungado de novo? Então esse tipo de atitude, de posicionamento, acaba caindo num vazio.

Mesmo caindo num vazio, essa ideia de punição parte muito da ideia de dogmas da Igreja Católica: se você não segue determinado princípio, doutrina, está fora...

Já vi padres dizendo que a condenação ao aborto é um dogma da Igreja Católica. Isso foi considerado a partir de 1860, quando o papa declara que a vida é desde o momento da concepção e que tirar a vida em qualquer época é um homicídio, um pecado muito grave. Algo muito condenável. Mas esse posicionamento nem sempre foi assim. Santo Agostinho falava que, entre 40 a 80 dias, é que existe o que ele chamava de hominização, que é o momento que aquele ser que está ali, embrião ou feto, recebe a alma.

Então, do ponto de vista teológico, não há um consenso na história.

A própria bíblia, por exemplo, presente há anos, é uma questão de interpretação. Não dá para ter afirmações literais de versículos do jeito que se faz hoje em dia. "Se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti". Você vai cortar sua mão e jogar fora? Não dá para levar ao pé da letra, é preciso sair dessa visão e compreender que a bíblia é um livro que foi escrito por um grupo de pessoas, em um determinado contexto, determinada época e que também foi dirigida a algumas comunidades.

Existia intencionalidade. Não é assim: é isso, tá posto. O fundamentalismo é exatamente isso, uma leitura bíblica ao pé da letra. E é disso que se servem hoje, não só padres, mas muitos pastores evangélicos, que decoram versículos e saem declarando por aí sem ter uma compreensão maior do contexto em que foi criado.

E qual é a sua opinião sobre o ensino religioso nas escolas?

A gente não deveria ter ensino religioso nas escolas. A gente deveria ter num espaço de educação pública um ensinamento sobre a história das religiões. Teria muito mais sentido, até porque se vivemos num Estado Laico, o ensino deve contemplar as diferentes religiões.

A prática de catequese, por exemplo, é muito reduzida a ensinamentos que não tem criticidade. Não ajudam a pensar e tentam enjaular a visão de um Deus patriarcal, punitivo, que vai dizer quais são os procedimentos, o que cada cristão deve ou não deve fazer. Novamente, tudo muito ao pé da letra.

Muito se fala sobre a postura do Papa Francisco, principalmente relacionada à comunidade LGBTQIA+, de compreensão e respeito. Não chega a ser uma mudança doutrinal, mas de alguma maneira repercute de forma positiva. Como você avalia esse posicionamento?

Sem dúvida, ele não propõe uma mudança doutrinal. Na verdade, quando ele fala dos homossexuais ele fala de acolhimento. Isso a igreja sempre falou: "Vamos acolher o 'pecador' mas não o 'pecado'". Separando essas duas coisas, como se fosse possível.

Então, o Papa, nesse ponto de vista da moral sexual, ele não avança. É o contrário, ele fala de acolhimento mas muitas vezes reforça o celibato e o não lugar da mulher no sacerdócio.

Agora, ele consegue essa repercussão tão grande porque a gente veio de um papado anterior que era extremamente conservador. O Papa Francisco tem uma postura muito simpática, quis morar em uma casa mais simples, abriu os jardins do Vaticano para a população de rua... Então do ponto de vista de uma visão progressista social, ele tem sido muito bom. Mas é preciso distinguir uma coisa da outra, ele não está propondo uma mudança de doutrina no que se refere à moral sexual. E ele também nem tem força, ali dentro, para isso.

E de que maneira a fé católica e a luta feminista podem caminhar juntas?

Não temos essa compreensão que você só pode ser católica se for à missa, se rezar o terço. Consideramos isso uma visão muito limitada. Quando a gente faz encontros, seminários, essa dimensão mística celebrativa está presente, mas de uma maneira horizontal, com a palavra mais distribuída entre as mulheres. O que adianta você ir à missa se você não concorda com o que está sendo dito ou sai de lá e tem uma prática autocentrada, egoísta?

Hoje em dia a gente tem um desenvolvimento forte da teologia feminista que traz novas formas de celebrar, que consideram muito o cotidiano, a vivência de cada uma, e que sai desse pensamento mais abstrato. Na missa, você vê um padre falando e não pode falar nada, você não tem espaço nem para dizer o que pensa, que concorda, que discorda. Você só escuta, o sermão, que pode ser adequado ou não. No catolicismo oficial, você precisa receber esse sermão como algo inquestionável e ele é dito por quem? Por um padre que faz essa leitura da bíblia, do evangelho, de acordo com suas interpretações enquanto homem.

Quais são as interpretações e critérios estabelecidos pela Igreja das quais o Católicas discorda, além da questão do aborto e sexualidade?

Uma das coisas fortes do pensamento oficial da Igreja é a imposição de uma moral sexual que nega corpos e atribui culpa às mulheres. Que não tem uma visão positiva do sexo. A gente trabalha muito com essa noção de direitos sexuais e reprodutivos. De certa forma isso está dentro de uma visão moral que não reconhece que pode haver amor entre pessoas do mesmo sexo, que travestis e transexuais não devem ser respeitadas e compreendidas e ter a mesma dignidade que todas pessoas.

Além disso, defendemos muito uma igreja que se reporte à justiça social. No tempo que estamos vivendo, não dá para não defender a democracia, ser alheia a isso. Cada vez mais a gente tem vivido sinais antidemocrático e devemos, sim nos posicionar e defender um Estado Laico.

No atual governo, a gente vê um discurso conservador muito aliado a forças religiosas. "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". Como fica a atuação da organização frente a isso?

Tudo isso é muito problemático. Desde os símbolos religiosos, que já estão presentes dentro de espaços institucionais do governo, a essa posição ameaçadora e de negação aos direitos básicos. O que é um absurdo. Estamos numa dependência de lideranças muito arriscada, por isso só se fala em resistência e na defesa da democracia.