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A saída vem pela encruzilhada

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Gelson Henrique

Gelson Henrique

É um jovem negro de 21 anos morador de Campo Grande, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Estuda Ciências Sociais na UFRRJ. Criou com amigos uma iniciativa chamada Caravana Itinerante da Juventude, que tem como foco estimular a participação política e social de jovens de periferias e favelas. Pesquisador da área de Jovens e Participação Política, é reconhecido pela Ashoka Brasil, como um Jovem Transformador da Democracia no Brasil e é Conselheiro Jovem do Unicef Brasil.

16/08/2020 04h00

Em minha concepção existem três dimensões do ser da população preta. A primeira delas é o corpo físico, que causa impacto no meio, quando passamos ou chegamos, apenas por ser e estar. Em seguida, há a incorporação das nossas subjetividades, que se apresentam nas trocas de olhares, ou nos gestos involuntários que transmitem conforto, esperança e motivação. Só entendemos o momento exato para tal, por conta dos nossos atravessamentos raciais em comum.

E a terceira dimensão é a nossa intelectualidade, que é acionada não somente quando abrimos nossa boca e repassamos nossas tradições, mas também por meio da nossa escrita. Essas dimensões se apresentam nas ruas da vida, nas quais cruzamos com diversas histórias e pessoas.

O que seria dos trajetos do povo preto sem as encruzilhadas? Analisando os caminhos percorridos por mim e por meus irmãos de vida e de luta, uma coisa que me chama atenção é justamente a importância desses encruzilhamentos com pessoas em nossos percursos. Os trajetos que trilhamos só nos levam a lugares por conta de pessoas específicas que viabilizam caminhos para que possamos nos construir de alguma maneira.

Muitas dessas relações nascem em espaços violentos para nós, mas é nas fissuras das estruturas que criamos conexões e redes que são fundamentais para nos encontrarmos no outro e entendermos que ao nos cruzar, nos tornamos mais fortes. Hoje, só estou conseguindo terminar minha graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro por conta de pessoas que me possibilitaram permanecer naquele ambiente acadêmico, que é tão nocivo à subjetividade preta.

Quando pensamos nos trajetos do povo preto também precisamos buscar o entendimento de que é necessário nos relacionarmos de maneira leve, não impondo um caminho que tem que ser trilhado. Fica evidente que precisamos ter o poder de escolha no nosso próprio percurso, visto que a branquitude colonial já tenta cotidianamente nos controlar e impor as suas certezas hegemônicas.

Entre nós, precisamos achar outras maneiras de caminhar coletivamente à luz da nossa ancestralidade, das pretas e pretos que vieram antes. Com isso, entendo que somos plurais, podendo nos cruzarmos e mesmo assim seguir em diferentes caminhos, mas sem esquecer a força que geramos nas encruzilhadas.

Lembrando nossa ancestral, Neusa Santos, que dizia que o mito negro é tridimensional. A meu ver o povo preto é multidimensional e batemos de frente com a branquitude no mínimo em três dimensões diferentes. Uma delas é quando decidimos construir coletivamente, entendendo nossa pluralidade e não tentando nos uniformizar assim como o colonialismo tentou fazer com nossos antepassados, percebendo que a nossa grandiosidade está nas encruzilhadas de saberes, culturas e vivências.

Até porque, como diz Black Alien, a zona de "conflito é a nossa zona de conforto". E o conflito, nesse aspecto, é uma interação plural que é necessária nas relações.

O que eu quero dizer com isso é que é nas encruzilhadas que divergimos e encontramos os caminhos que nos levam à casa. É através dos nossos e com base no que passamos que conseguiremos trilhar um caminho para a emancipação. Como Maria Clara Monteiro sempre me lembra, com uma frase de Katiúscia Ribeiro, o futuro é ancestral.

Conseguimos perceber isso através das mobilizações e articulações que as juventudes de periferias e favelas estão fazendo neste momento pandêmico para garantir o mínimo de dignidade humana para nossos territórios, através de redes cruzadas entre nós. Um exemplo são as ações da União Coletiva pela Zona Oeste, que é uma rede de diversos grupos que estão se propondo a ajudar famílias da extrema zona oeste do Rio de Janeiro, dos bairros de Paciência, Santa Cruz e Sepetiba. Ajudamos mais de 2.000 famílias e ainda não podemos parar.

Portanto, a saída vem pela encruzilhada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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