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Como podemos construir um futuro antirracista?

A jornalista Anielle Franco - Divulgação
A jornalista Anielle Franco Imagem: Divulgação
Anielle Franco

Anielle Franco

Anielle Franco é cria da favela da Maré, Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte (EUA) e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M (EUA), e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet), cursando relações étnico-raciais com foco na identidade das mulheres negras, por meio da mémoria e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Recentemente publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em outros livros, como a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles. Colunista convidada da revista Marie Claire e Mídia Ninja.

24/06/2020 04h00

Nunca teremos de fato uma democracia sem debater todas as desigualdades que dividem esse país. E quando me refiro a desigualdade, falo amplamente de todos os tipos possíveis da mesma.

Impossível passarmos por uma pandemia global, por casos que exemplificam o genocídio do povo negro, pela fome, pela pobreza, pelo descaso com nossas favelas e periferias, sem nos incomodarmos, e ainda dizer que lutamos pela democracia desse país.

De qual democracia estamos falamos?

Pois para mim, falar em democracia é falar de desigualdade e como combatê-la. Uma coisa não se separa da outra. Ou pelo menos não deveria.

Em um dos momentos mais difíceis do mundo inteiro, nosso país se destaca pelo racismo, pela ausência de líderes que se importem mais com vidas do que com números, e por divisões ideológicas que a cada dia nos destroem.

No meio disso tudo, nosso povo preto se torna ainda mais vulnerável, ainda mais exposto, e sujeito a todas as atrocidades possíveis que esse tsunami estrutural faz. Sem dúvida nenhuma, a população negra, pobre, favelada e periférica, é a mais atingida em diversos vieses.

Nosso país carrega um histórico de racismo nos braços que não é velado, que mata e depois pergunta quem era, que destrói sonhos, que impossibilita de chegarmos aonde sempre tivemos vontade, que cria divisões raciais cruéis e injustas.

Mas estamos cansados de assistir a tudo isso, morrer, e não lutar.

Nosso povo luta a décadas por sobrevivência, resistência e dignidade. Não temos mais como não pensar, através dos olhares da população negra, em como podemos de fato construir uma sociedade antirracista.

Nosso nível de repúdio a tudo isso já é tão alto que não vimos outra saída no início desse mês, além de irmos para as ruas com nossos corpos e máscaras, protestar com medo de morrermos de tiro, covid-19, ou fome.

Mas até quando teremos que enfrentar esse racismo estrutural e institucional, que nos mata e apaga nosso povo? A cada 23 minutos um jovem negro é morto no país. Assassinam nossos jovens e assassinam nossos sonhos todos os dias.

Permitir que sonhemos, permitir que sejamos capazes de chegarmos aonde quisermos, deveria ser direito nosso.

Desde março vemos que movimentos de favelas e periferias, organizações negras, quilombolas, indígenas e demais membros da sociedade civil estão trabalhando em prol de ajudar diversas pessoas que se encontram necessitadas ainda mais nesse momento.

Pessoas essas, que aguardam desesperadamente por um auxílio emergencial que não chegou e não chega nunca.

Colocar comida na mesa dessas pessoas é prioritário. Nossa luta política começa em nossas casas, favelas, periferias. O que temos visto são diversas mulheres negras a frente de suas comunidades agindo e liderando em prol de seu povo. Buscando saídas urgentes para que nenhum de nós ficássemos para trás.

Estar à frente de espaços de tomada de decisão é um motor que me move para tentar diminuir os impactos gerados a partir de ausências históricas e sistêmicas que expandem desigualdades e fazem nosso povo perder a perspectiva de um futuro melhor.

Hoje, à frente do Instituto Marielle Franco, que carrega não só o nome de minha irmã, mas a responsabilidade de seguir defendendo sua memória, buscando justiça e espalhando seu legado, tenho caminhado ao lado de diversas organizações e movimentos do país, lutando pela garantia da segurança alimentar e acesso ao auxílio emergencial a milhares de mulheres negras das periferias do Rio, com o projeto "Agora É A Hora" e, de outro lado, a partir da trajetória e da atuação de ativistas negras, buscado apontar o caminho de "Para Onde Vamos" depois da crise, entendendo que a resposta para estas perguntas só poderão vir a partir de uma perspectiva negra, feminina e coletiva.

Tudo isso reforça a máxima que um futuro antirracista é poder manter nosso povo negro vivo e forte.

É reconhecermos nossos ancestrais, nossas raízes, e termos ciência do tamanho de nossa força.

É entender que há séculos lutamos por dias melhores e que não aceitaremos mais retroceder nem um passo atrás.

É termos uma sociedade que entenda a importância dos direitos iguais para todos.

É termos oportunidades para chegarmos, estudarmos, e nos formarmos de igual para igual.

É não morrermos de fome, de tiro, ou dando à luz, apenas por sermos negros e negras.

É termos mulheres negras ocupando espaços de decisão e seguirem vivas.

"Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista" - Angela Davis, durante sua última visita ao Brasil em 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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