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A década do clima: fogo, água e a era dos extremos

Enchente no Espírito Santo - Assessoria de Comunicação do Governo/Divulgação
Enchente no Espírito Santo Imagem: Assessoria de Comunicação do Governo/Divulgação

Cassia Moraes* e André de Castro dos Santos*

13/02/2020 04h00

Após a euforia e votos de prosperidade do Réveillon, os primeiros meses de 2020 vieram como um trailer do que nos espera nos próximos anos. Os incêndios na Austrália chocaram a comunidade internacional em janeiro: mais de 11,7 milhões de hectares de terra foram queimados, matando 33 pessoas e cerca de 1 bilhão de animais desde que começaram. Diferente da Amazônia, localizada na área mais úmida do planeta, a Austrália está numa área em que é normal a ocorrência de períodos longos de estiagem. Nessa época, são esperados incêndios florestais em decorrência do calor e da seca, um fenômeno importante para a renovação da biomassa na vegetação australiana. Passado o período seco, chuvas costumam encerrar naturalmente o processo de queima e a vida segue o seu ciclo.

Este ano, contudo, a seca e o calor intenso se prolongaram além do normal, resultando numa temporada de queimadas atípica, que deixou para trás uma devastação sem precedentes: uma área quase do tamanho da Inglaterra foi destruída pelo fogo, com chamas que chegaram a 12m altura, 6 vezes maiores que as chamas dos incêndios na Amazônia ano passado. Embora os incêndios na Austrália não tenham sido causados diretamente pelo ser humano, como foi o caso das queimadas realizadas na Amazônia, a magnitude do impacto é consequência de um fenômeno causado pela atividade humana: a mudança do clima.

Se as mudanças climáticas intensificam processos naturais já existentes, como os incêndios na Austrália, em fevereiro o Brasil viu a outra face dessa moeda. No caso das tempestades que atingiram São Paulo e Belo Horizonte recentemente, uma combinação de fatores reforçou o impacto desses fenômenos, que serão cada vez mais comuns e mais extremos. Além do impacto das mudanças climáticas globais, a intervenção humana nas metrópoles brasileiras, por meio do uso intensivo de concreto e verticalização das construções, resulta na formação de ilhas de calor. O calor absorvido pelo concreto é transportado para o ar e mantém-se próximo à superfície, uma vez que a verticalização prejudica a circulação do ar e a dissipação do calor. Por isso, ventos úmidos que antigamente passavam sobre as cidades, agora, precipitam - às vezes com violência - sobre essas áreas urbanas, devido à concentração de calor.

Além de tempestades como as dos últimos dias se tornarem mais comuns e intensas, seus efeitos tendem a se tornar cada vez mais devastadores. A canalização histórica dos cursos hídricos, tanto superficiais quanto subterrâneos, bem como a impermeabilização do solo e a ocupação de áreas de mananciais, estão entre os fatores críticos que tornam grandes aglomerações urbanas como São Paulo e Belo Horizonte tão vulneráveis a esses eventos.

Outro agravante é o fato de que as tempestades impactam de maneiras diferentes as populações ricas e pobres nessas cidades, como foi exemplificado de forma brilhante e poética pelo filme Parasita, grande vencedor do Oscar esse ano. Embora bairros nobres também tenham sido severamente atingidos, causando prejuízos milionários, são as áreas e populações periféricas as mais prejudicadas. Enquanto para as classes mais abastadas as chuvas torrenciais são um contratempo, a periferia sofre com perdas de vidas e propriedades não seguradas. No que se refere à ocupação das áreas de manancial, a questão é ainda mais delicada, pois, além de serem áreas de várzea, vulneráveis a enchentes, sua ocupação prejudica a penetração das águas da chuva, potencializando ainda mais as enxurradas.

Espera-se que eventos como esses sejam mais comuns e mais intensos por causa da crise climática. O que podemos fazer nesse cenário? O primeiro passo é parar de negar o problema, como o primeiro-ministro da Austrália e o presidente do Brasil ainda fazem, e implementar medidas de mitigação a fim de evitar que esses eventos fiquem ainda mais comuns. Ao mesmo tempo, planos de adaptação devem ser elaborados para tornar as cidades mais resilientes e, consequentemente, os estragos desses fenômenos menores.

A mitigação das ilhas de calor deve combinar uma mudança na ocupação do solo e adaptação das construções. A implementação de jardins verticais e tetos verdes, por exemplo, são soluções simples que podem minimizar os impactos urbanos. A verticalização, contudo, é problema mais complexo, que não pode ser mitigado tão facilmente. Podemos, entretanto, incluir limitações à construção de prédios muito altos nas políticas de zoneamento urbano e planos diretores como uma medida para desacelerar a intensificação do problema. A ocupação de áreas de manancial também é complexa, em grande parte irregular, e reflexo da especulação imobiliária. A mitigação desse problema inclui fiscalização para impedir novas ocupações irregulares, mas também elaboração de políticas efetivas de acesso à moradia.

A impermeabilização do solo, por sua vez, pode ser mitigada pela substituição do asfalto em determinadas vias pelo antigo paralelepípedo ou pelo piso intertravado. Ou seja, alternativas muitas vezes já existentes e baratas, que permitem a penetração da água no solo, abastecendo os lençóis freáticos e evitando o escoamento desordenado, responsável por enchentes e doenças. Por fim, um componente negligenciado da adaptação às mudanças climáticas é a capacitação profissional de jovens com o intuito de prepará-los com as competências necessárias na transição para sociedades mais sustentáveis e resilientes. Dessa forma, nosso objetivo através do Youth Climate Leaders (Líderes Climáticos da Juventude) é treinar jovens e conectá-los com oportunidades profissionais na área, enfrentando dois dos principais desafios destacados pelo Fórum Econômico Mundial para os anos 20: a crise climática e o desemprego.

Assim como o seriado Game of Thrones, o filme Parasita e outros sucessos de bilheterias, a crise climática é uma narrativa baseada em eventos extremos, opostos e extraordinários. Muitas águas vão rolar, e fenômenos como os incêndios florestais da Austrália podem ocorrer também no território brasileiro, por mais que seja difícil conceber esses cenários enquanto

ainda nos recuperamos dos estragos das chuvas. Ainda que incêndios do tipo sejam mais prováveis no Cerrado, bioma com características e dinâmica climática semelhantes às da Austrália, queimadas criminosas na Amazônia intensificam os riscos por diminuir a quantidade de umidade transportada para outras regiões do país. No jogo do clima, causa e consequência se misturam e blefar já não é mais uma opção.

*Cassia Moraes é Mestre em Administração Pública e Desenvolvimento pela Universidade de Columbia, CEO do Youth Climate Leaders (YCL) e Coordenadora de Redes e Captação no Centro Brasil no Clima.

*André de Castro dos Santos é pesquisador, doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa e em Direito Ambiental pela Universidade de São Paulo.

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