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Se puder, confine-se em um garimpo, Bolsonaro

Presidente Jair  Bolsonaro falou em confinar ambientalistas na Amazônia -
Presidente Jair Bolsonaro falou em confinar ambientalistas na Amazônia

Natalie Unterstell*

07/02/2020 08h26

Ontem, Jair Bolsonaro disse que "se pudesse, confinaria os ambientalistas na Amazônia". Não, ele não se referia a um reality show com ativistas em algum lugar remoto na floresta.

Ele expressou seu desejo - consciente ou inconsciente - de não querer dialogar com quem sabe mais e pensa diferente dele quando o assunto é aquela região.

Quem conhece, vive ou já viveu na Amazônia sabe que os seus 4 mil km² estão longe de permitir um confinamento e, mais ainda, de representar uma experiência ruim ou limitante, como paira na fala do presidente.

Em primeiro lugar, será que o presidente Bolsonaro sabe que a economia do Brasil cresceu mais no período em que a Amazônia teve menos desmatamento?

Segundo, será que ele entende que existe indústria na Amazônia e que, por exemplo, toda a produção brasileira de motocicletas, televisores e outros eletrônicos é feita em Manaus?

Terceiro, que uma boa parte da nossa pauta de exportação agrícola é produzida em solo e clima amazônicos?

Quarto, que naquelas áreas protegidas que ele insiste em desprezar se faz inovação de ponta - de drones que monitoram o manejo sustentável do pirarucu até cosméticos a base de açaí que fazem o maior sucesso no mercado internacional?

E quinto, que tudo isso poderia ser elevado à décima potência se não houvesse concorrência desleal por parte de atividades ilegais, pouco coibidas pelo governo?

É preciso atualizá-lo sobre o que acontece nos 60% amazônicos do país que ele governa. É uma região onde indústria, biodiversidade, turismo e tecnologia prosperam. Ainda assim, ela tem convivido, nas últimas décadas, com desmatamento ilegal persistente e indicadores econômicos e sociais muito aquém do desejável.

Ontem, Bolsonaro desferiu mais um ataque, descrevendo os defensores do meio ambiente como perdulários que têm "carpete em casa e tomam whisky vendo TV a madrugada toda". Não sei qual série de TV ou filme o presidente assiste para evocar imagens tão cafonas e irreais.

Se soubesse como age um ambientalista em 2020, ele poderia aludir à octogenária Jane Fonda, sendo presa toda semana em frente à Casa Branca, por atos pró-ação climática junto de outros ambientalistas e artistas. Mas parece que Jair desistiu de atacar hollywoodianos depois de virar piada com um ataque à Leonardo di Caprio.

Se conhecesse a realidade dos ativistas ambientais brasileiros, quem sabe Bolsonaro tivesse citado os guardiães da floresta: apesar de serem apenas 150 indígenas, protegem uma imensa área do povo Guajajara no Maranhão. Quatro deles foram mortos por conflitos com invasores e madeireiros ilegais no ano passado. Mas esses defensores são reais e corajosos demais para que o presidente os ataque de forma pusilânime.

Bolsonaro também fez alusão a supostos "adeptos da causa que não teriam vivência prática e contato com a natureza". Nesse quesito, o sr. Presidente está em desvantagem com os ambientalistas e também com a maior parte de seus colegas militares. Não serviu na Amazônia e não conhece a natureza.

Se a conhecesse, não proporia tamanha desfaçatez como o projeto que libera geral o garimpo em terras indígenas, e que é a razão por trás da verborragia anti-ambientalista do presidente.

O histórico das falas de Bolsonaro indica que a Amazônia tem que ser arrasada para render alguma coisa. Também deixa clara sua intenção de silenciar quem ousar fazer oposição à visão binária entre "destruir ou proteger".

Não, senhor presidente, a Amazônia rende muito e pode gerar muito mais riqueza se houver acerto nas políticas públicas e capacidade de escuta de quem vive na região.

Mas é preciso ouvir mais do que grileiros de terras, garimpeiros invasores e produtores arcaicos, que mal representam a gente daquela terra.

Especificamente no caso da mineração em terras indígenas, é preciso ouvir com qualidade os povos originários. Mas será que isso ainda é possível?

O presidente Jair Bolsonaro estabeleceu a regulamentação dos garimpos clandestinos como sua prioridade. Ele tem um lado bem definido nessa história. Ele inclusive declarou ter encomendado, já como presidente, um estudo para criar "pequenas Serras Peladas" Brasil afora.

A proposta formal que promove esse tipo de desenvolvimento da época do Império foi enviada pelo Executivo ao Congresso Nacional nesta semana, apesar dos inúmeros apelos dos povos cujas terras estão invadidas por garimpeiros.

Bolsonaro e seus ministros usam alguns poucos indígenas favoráveis à medida, ignorando uma grande parcela (ou maioria) que já experimentou dessa economia no passado e não quer seu retorno.

Os Yanomami e Ye'kwana, por exemplo, são muito claros na sua recusa em aceitar a mineração, que consideram incompatível com o modelo de cuidado que adotam na maior terra indígena do país. O garimpo deixou uma cicatriz muito clara para esses povos: em 1993, um grupo de garimpeiros armados dizimou 20% da população indígena no Massacre do Haximu, classificado como genocídio.

Hoje a Terra Indígena Yanomami está invadida por milhares de garimpeiros ilegais que buscam ouro. As lideranças indígenas têm feito inúmeros apelos ao governo federal para que interviesse, sem sucesso.

Diz Bolsonaro que precisa legalizar o garimpo em terras indígenas para poder ajudar os indígenas a saírem da pobreza. Será mesmo?

Os Yanomâmi e Ye'kwana querem ter o direito de dizer não à mineração em terra indígena. Mas o projeto do presidente diz que eles têm direito de dizer sim, mas não de recusar. Caso o povo indígena não queira explorar nem permitir que terceiros explorem seus territórios, eles não terão direito a veto.

Enquanto isso, da parte dos garimpeiros, a expectativa de se legalizar diante do apoio do governo ao reconhecimento da atividade (mesmo que ilegal) gera uma verdadeira "corrida ao ouro".

Faço uma sugestão ao presidente. Confine-se em um garimpo na Amazônia. Viva por lá e retorne quando descobrir se seria possível legalizar de modo inteligente e preservando o interesse público essa atividade majoritariamente indesejada pelos povos por ela afetados.

Se viver aquilo que os povos originários já convivem como doenças, violência, desmatamento, assoreamento dos rios e contaminação por mercúrio e outros metais pesados, compreenderá os legítimos motivos que os afastam da proposta em questão.

Se for a campo, Bolsonaro poderá ver como a atividade garimpeira está associada a uma forte degradação social, com o aliciamento de meninas, meninos e mulheres para exploração sexual nos barrancos e balsas.

Sejamos claros: garimpos existem e estão se proliferando com máxima força desde que Bolsonaro ascendeu ao Palácio do Planalto. O que o presidente quer é limpar a barra desses invasores. Para isso, vale tudo. Inclusive eleger inimigos imaginários e jogar a opinião pública contra eles, como em paredão do programa Big Brother.

*Natalie Unterstell é administradora formada na FGV e mestre em políticas públicas pela Universidade de Harvard. Dirige a organização Talanoa, que trata de riscos e regulação da mudança do clima.

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