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A vertigem da democracia para além das telas

Posse da presidente Dilma, um dos momentos retratados em Democracia em Vertigem - Divulgação/Netlfix
Posse da presidente Dilma, um dos momentos retratados em Democracia em Vertigem Imagem: Divulgação/Netlfix

Flávia Pellegrino e Yuri Esteves*

15/01/2020 04h00

Nesta semana foi divulgada a indicação do filme brasileiro "Democracia em Vertigem" ao Oscar 2020 na categoria Melhor Documentário. Dirigido pela cineasta Petra Costa, a obra foi o segundo documentário mais assistido por brasileiros na plataforma de streaming Netflix em 2019. O interesse pela democracia, especialmente pela crise que esta vem passando, tem crescido não apenas no cinema, mas também na literatura.

Entre os livros recentes estão "Democracia em risco?", com ensaios de 22 autores brasileiros, "O povo contra a democracia", do cientista político germano-americano Yascha Mounk, "Ruptura: A crise da democracia liberal", do sociólogo espanhol Manuel Castells, "Como a democracia chega ao fim", do filósofo inglês David Runciman, e "Como as democracias morrem", dos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que alcançou o topo da lista de best-sellers no site de compras Amazon no Brasil.

Democracia em Vertigem, como qualquer trabalho autoral, imprime a perspectiva de sua diretora, Petra Costa, como um dos olhares possíveis sobre o processo político no Brasil recente. É legítimo concordar ou discordar das escolhas narrativas e abordagens presentes no filme, sem, no entanto, deixar de reconhecer que diversos episódios, discursos e ações têm colocado a democracia e seus valores em xeque no país.

É curioso notar que esse momento conturbado da democracia brasileira seja retratado por meio de uma produção cultural do campo audiovisual, justamente quando o cinema nacional vem passando por um ataque deliberado promovido pelo governo federal. O desmonte da Ancine, com demissões de funcionários e extinção de recursos para obras que tendam a desagradar autoridades, é reflexo do enfraquecimento das instituições e reforça as crescentes afrontas a liberdades fundamentais à democracia.

Ao desrespeitar as diversidades presentes na sociedade e impedir que elas sejam refletidas em produções culturais, determinadas lideranças políticas brasileiras revelam pouco apreço por princípios que são vitais à vida democrática, independente de posição partidária ou ideológica. A essência da democracia reside na diversidade de ideias, na multiplicidade de identidades e forças políticas em disputa e na heterogeneidade de interesses sociais representados nas diferentes instâncias de poder. Sem isso, a crise é inevitável.

Segundo pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2019, o apoio à democracia está em queda no Brasil. Ainda que 62% dos brasileiros concordem que a democracia é sempre a melhor forma de governo, 22% se diz indiferente quanto ao regime em vigor (ditadura ou democracia) e 12% enxerga em regimes autoritários uma saída possível a depender das circunstâncias. Em 2018, tais números eram 69%, 13% e 12%, respectivamente.

Esses dados sinalizam que a defesa da democracia em abstrato, como um conceito distante do cotidiano da população, é insuficiente. É preciso construir e fortalecer projetos que resgatem a cultura do diálogo e do debate entre os diferentes, hoje tão ausente em uma arena política em que a polarização tem sido a regra. Iniciativas como Pacto pela Democracia, reunido vozes plurais da sociedade civil pela defesa e revigoramento democrático, podem contribuir significativamente nessa tarefa.

A construção de saídas deve ser com mais, e não menos democracia. Aproximando as pessoas comuns dos processos de decisão, promovendo diálogos pautados por respeito e tolerância, e reunindo atores comprometidos com a construção democrática brasileira para garantir que sigamos vivendo em uma sociedade livre e regida sob o Estado Democrático de Direito.

*Flávia Pellegrino e Yuri Esteves integram a secretaria-executiva do Pacto pela Democracia, iniciativa da da sociedade civil brasileira voltada à defesa e ao aprimoramento da vida política e democrática no país"

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