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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Porchat, ser 'racista em desconstrução' é diferente de ser antirracista

Fábio Porchat  - Divulgação/GNT
Fábio Porchat Imagem: Divulgação/GNT

19/05/2023 11h17

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Logo após o Tribunal de Justiça de SP mandar retirar do ar um programa de "comédia" do Leo Lins por reproduzir "discurso e posicionamentos que hoje são repudiados", outro comediante a entrar nessa cena foi Fábio Porchat, que fez questão de jogar ainda mais luz nesse caso.

Porchat, conhecido por ter uma postura a favor da democracia e por posicionamentos progressistas em relação aos direitos humanos, já disse ser "um racista em desconstrução". No entanto, na determinação da Justiça para que o programa fosse retirado do ar, Fábio saiu em defesa de das "piadas" de Leo Lins — e nos deu uma grande lição.

Teoricamente, ser uma pessoa "racista em desconstrução" é algo positivo para uma sociedade que, em sua maioria, nega ser racista. Ser "racista em desconstrução" é admitir ser racista devido ao histórico da nossa sociedade, que reconhece ter "aprendido a ser racista" por causa desse histórico e que agora precisa "desaprender" a ser.

Durante mais de 300 anos de escravidão no Brasil, a sociedade moldou seu futuro: um país racista. Pode-se dizer que, neste país, o racismo deu certo, pois mesmo após "o fim da escravidão" com a Lei Áurea de 1888, esse processo de abolição não foi concluído.

O fim da escravidão "libertou" o povo negro do regime escravocrata ao qual era submetido desde seu sequestro do continente africano, mas não proporcionou "um novo começo" para esse povo que ficou no limbo social, sem acesso a oportunidades de trabalho, moradia, saúde, educação, etc.

O racismo deu certo neste país porque o povo negro não é mais escravizado, mas é impedido de ter oportunidades equânimes e de receber ações reparatórias que diminuam a desigualdade que nosso histórico moldou. Enquanto formos uma sociedade desigual entre brancos e negros, seremos uma sociedade racista. E essa desigualdade só diminuirá e, quem sabe um dia terminará, se o sujeito branco "racista em desconstrução" agir.

Um sujeito branco "racista em desconstrução" só faz diferença positiva para o povo negro se se tornar "antirracista".

Um sujeito branco "antirracista" age. Ele assume a responsabilidade da desigualdade da qual se aproveita para se manter em uma posição superior e, a partir desse reconhecimento do seu poder, passa a agir de forma consciente como uma pessoa que busca conhecimento para cessar o racismo, seja aquele que produz e reproduz em suas próprias ações, assim como nas ações de outras pessoas e estruturas ao seu redor.

O "antirracista" busca formas de usar seu lugar de poder para diminuir as desigualdades entre brancos e negros e exerce essa responsabilidade por entender que, enquanto um sujeito branco, acaba se aproveitando de uma sociedade racista que se moldou na escravidão, privilegiando as pessoas brancas e, consequentemente, causando a desigualdade de acessos e oportunidades que temos hoje.

O sujeito branco "antirracista" entende que, mesmo que não tenha escravizado alguém, está em uma posição de privilégio justamente porque seus antepassados - outros sujeitos brancos - escravizaram negros.

Agora, deixar de ser um "racista em desconstrução" e se tornar um "antirracista" é difícil. É difícil porque, nesse processo, o sujeito branco precisa sair apenas do discurso e se ver abrindo mão de alguns de seus privilégios e, consequentemente, submetendo seu povo branco a fazer o mesmo.

Aqui nos deparamos com um pacto silencioso e até mesmo inconsciente, que é o "pacto da branquitude". Este pacto é oriundo do desconforto de se ver não estando mais na posição de poder em que se estava acostumado.

No pacto da branquitude, pessoas brancas se unem e se apoiam em ações, opiniões e piadas que tenham sido apontadas como racistas. E esse pacto fica evidente caso o apontamento tenha gerado algum prejuízo para o sujeito branco, caso tenha retirado algum privilégio do povo branco.

Aqui se mostra o abismo entre o sujeito branco racista em desconstrução e o sujeito branco antirracista. Ter a consciência de que se ocupa uma posição de poder devido ao racismo estrutural do qual se privilegiou e não fazer algo a respeito não torna esse sujeito um antirracista. Talvez esse comportamento, ou a falta dele, seja ainda pior do que o daquele sujeito que ainda não reconheceu seu privilégio por ser branco.

Que piada de mau gosto essa que nos fizeram acreditar: que um racista em desconstrução era um aliado da luta pelo fim da desigualdade racial.