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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Mês do Orgulho é sobre todes nós

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

06/06/2022 06h00

Você sabe que me chamo Noah, mas não foi sempre assim. O fato é que eu sou uma pessoa trans, um homem trans. E esse também é um dos motivos que me trouxeram até aqui.

Eu sempre entendi os espaços sociais, o mercado de trabalho e as oportunidades de carreira a medida que as minhas diferenças foram se tornando barreiras.

Talvez muitas pessoas não saibam, mas apenas 5% das pessoas trans estão no mercado de trabalho formal. E que a nossa expectativa de vida no Brasil é de apenas 35 anos. Ah, eu estou com 35 anos.

Além de ser um homem trans e fazer parte da comunidade LGBTQIAP+, eu sou um homem pardo, e a negritude também faz parte de mim enquanto mais um marcador social. E quando a gente olha para carreira a partir dele, a gente vê um abismo.

Eu também não "encaixo" no que se denomina como um padrão de família: eu sou mãe da minha filha mais velha, que dei à luz há 8 anos, e pai da minha filha mais nova, que adotei 4 anos atrás. Então eu sou a mesma pessoa em figuras parentais diferentes, para diferentes universos, que são cada uma delas, e que me impulsionam a construir um mundo melhor. Eu fui deixado para adoção ainda bebê, então eu sei o mundo de possibilidades que recebemos a partir da primeira vez que alguém nos pega no colo e o tamanho da responsabilidade que a gente passa a representar enquanto existência.

Ainda, ser uma pessoa neurodiversa em ambientes de trabalho que tendem a valorizar mais aqueles que pensam "igual", sempre foi uma luta constante para que eu atendesse essas expectativas e tivesse alguma chance de progredir.

Eu fiz minha carreira em tecnologia. Desde muito cedo eu entendi que no virtual eu poderia ser eu mesmo, mesmo que na vida real eu tivesse que esconder várias partes de mim. E eu posso dizer que fiz isso muito bem. Tanto a parte de esconder muito de quem eu sou, quanto de trabalhar gerindo times de tecnologia, a partir deste entendimento que todas as pessoas deveriam estar naqueles espaços.

Veja, antes de chegar até mim a pauta da Diversidade e Inclusão, eu, muito provavelmente para me ver representado, formei times com os mais diferentes marcadores sociais, o que acabou me levando a entender que era muito mais do que tentar me encontrar nas pessoas que eu liderava, mas que de fato, aquele time tão diverso e plural, conseguia entregar muito mais valor nos produtos e serviços que produzia.

E assim a pauta da Diversidade atravessou minha vida. Não somente a partir de toda a diversidade que eu carrego por ser quem eu sou, mas por ter percebido o real valor dela nos ambientes todos, inclusive nos ambientes organizacionais. E de alguém que tinha feito a carreira em tecnologia, e escondido tanto de si, eu me vi tendo coragem para mostrar dentro da minha carreira quem eu realmente era.

Aqui então a minha vida profissional virou de cabeça para baixo. A cada marcador social que eu demonstrava em mim, eu descia um degrau de uma escada que parecia interminável. Eu desci cada degrau de "privilégio" que havia feito eu chegar ao lugar de realização profissional que eu estava, e eu percebi que eu só estava lá, porque eu não era eu, e quando eu fui eu, eu estava sozinho.

Eu desci degraus por ser LGBTQIAP+, desci degraus por ser uma pessoa trans, desci degraus por ser um homem trans, tão invisível e quase que ocupando lugar nenhum na sociedade. Eu desci degraus por ser uma pessoa com um modelo de parentalidade "não convencional". Eu desci degraus por ser pardo, e a pauta da negritude no mercado de trabalho não possuir um local de direitos. Eu desci degraus por ser neurodiverso, e o autismo não se encaixar em como o mercado de trabalho "gostaria de ser".

Desci tantos degraus desta escada que quando parei de descer, me vi completamente sozinho, outra vez. E nessa solidão obviamente eu tive a minha saúde mental abalada, a ponto de achar que essa escadaria da vida e da carreira não eram pra mim.

E isso não é pra ser uma fanfic de superação, porque mesmo que pareça uma, e que eu tenha agido, acredito que ainda temos muito a fazer para que possamos, enquanto sociedade, superar.

Eu fundei o EDUCATRANSFORMA, maior agente nacional de capacitação gratuita para pessoas trans e ponte para a empregabilidade. E esse foi o empurrão de vida que eu precisava para começar a subir, degrau por degrau.

Entendi que eu podia ser um agente de transformação, e poder trazer conteúdo a partir de toda essa diversidade que carrego em mim é, a cada degrau que eu subo, seja o da negritude, o da transgeneridade, o da parentalidade, o da neurodiversidade, finalmente ver outras pessoas como eu. E principalmente poder dizer para elas que elas não precisam continuar descendo. Ser a inspiração. E isso cria uma conexão tão poderosa que cada vez mais pessoas vão se sentindo pertencentes àqueles lugares que almejam, e em colaboração, vão ecoando esse lugar de fortalecimento para as demais, entendendo que juntas o caminho fica mais curto.

Eu quero poder mostrar como essas diferenças entre nós são importantes e valiosas no mercado de trabalho, mas também para nós mesmos. Poder mostrar que essas diferenças não precisam ser barreiras, e sim valores, e que todas as pessoas, independente de qual lugar estejam nesta escada — que na verdade é uma escada que nem possui um fim, assim como a sociedade — podem ser estes agentes de transformação que irão olhar para o degrau debaixo do seu e estender a mão. Levar essa consciência de que a diversidade e a inclusão são assunto de todas as pessoas, e todas as pessoas podem, e devem agir. Pois já passou do tempo de começarmos a fazer algo quando ainda vemos tanta gente descendo, só por ser quem sempre foi.

Eu quero essas e tantas outras representatividades para que outras pessoas que se parecem comigo, e que hoje ainda duvidam de si como eu duvidei de mim, também possam acreditar em si mesmos. Quero poder levar toda representatividade possível para fomentar diálogos para quem ainda não entendeu sua responsabilidade e seu poder na pauta, e mostrar caminhos e mecanismos por um mercado de trabalho mais equânime e justo para todas as pessoas.

Quero poder, a cada degrau que eu subo, olhar para o lado e dizer: "Ei, você não está sozinho. Olha eu aqui. Me dá tua mão, e sobe esse degrau comigo".