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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Setembro levanta, amarelo anda, e o burnout é de quem?

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

27/09/2021 06h00

Setembro veio e com ele a pauta da saúde mental, que dessa vez chegou bem forte dentro das empresas e nas redes sociais. Tem se falado muito em "burnout" (ou, em português, "Síndrome do Esgotamento Profissional") nas relações trabalhistas, e como a nossa vida é prejudicada com o excesso de trabalho.

Vejo dois grandes agentes agravantes aqui: um deles é o trabalho remoto, que para uma grande parte das pessoas tomou conta do relógio e não existem mais limites para parar de trabalhar. O outro agente, que é bem problemático, é a romantização desse excesso de trabalho. É como se houvesse uma corrida para ver quem trabalha mais, quem puxa mais o saco da empresa na rede social profissional, quem faz o maior gesto de agradecimento ao empregador como se, ao fazer o funcionário se matar de trabalhar, a empresa ainda os estivesse fazendo um favor.

Está tudo muito errado quando a gente percebe que transformou uma relação trabalhista numa relação afetiva. E até ok amar o local e as pessoas com quem você trabalha, porém, sua vida não é o seu trabalho, e ele vai seguir sem você, se acharem conveniente. Se a gente trata o trabalho como uma relação afetiva, ele pode muito que bem se tornar um relacionamento tóxico sem você notar -- não que de outra forma ele também não se torne tóxico, mas pelo menos a gente consegue racionalizar e ver onde se meteu.

Mas falando onde a gente se meteu, cá estamos nós no "Setembro Amarelo", o burnout, a preocupação com o trabalho excessivo e suas consequências. É aquela chuva de postagens pra conscientizar a galera a escolher uma vida balanceada, saudável, com tempo para descanso, família e diversão. Dá pra imaginar a cena, não dá? Uma família formada por um casal, o sol entrando pela porta envidraçada que dá no deck com piscina, um trabalhando no notebook em uma reunião online onde estão todos felizes, e o outro dividindo uma partida de Fifa com o filho mais velho, enquanto o bebê dorme tranquilamente no berço.

Que tipo de casal você imaginou? Branco? Hétero? Cis? Você reparou quando eu disse "escolher" uma vida assim? Agora, pensa comigo nessa mesma cena protagonizada por um casal formado por pessoas negras e trans. Você consegue ver pela vidraça uma piscina? Um dos responsáveis jogando videogame em horário comercial? Ou esse equilíbrio na rotina com duas crianças? Eu "adoraria" poder dizer que você não consegue imaginar única e exclusivamente por conta do racismo e da transfobia estruturais, onde não estamos acostumados com estes perfis nestas posições, porém, não é "só" por isso: essas pessoas em sua maioria não podem mesmo escolher descansar.

A desigualdade de oportunidades para quem não é branco ou cis é abismal. Se você tem dúvidas basta olhar o censo de diversidade da empresa que você trabalha, levando em consideração estes marcadores de raça e identidade de gênero junto à hierarquia de cargos que essas pessoas ocupam. Essas ditas minorias estão em posições onde foram ensinadas pelo cis'tema da branquitude a precisar fazer tudo duas, três, quatro vezes melhor, para ter metade do reconhecimento. Pessoas estas que compartilham conhecimento, dominam suas atividades, são excelentes profissionais, agregam muito às equipes e trabalham como se não houvesse amanhã. Porque para elas, às vezes, não há mesmo, pois a noite chega, o trabalho segue e o ontem se junta ao hoje, e sem possibilidade de escolher por isso.

Mas sabe quem é promovido? Aquelas pessoas que romantizam o trabalho excessivo porque quando cansarem de puxar saco, podem simplesmente ir deitar a hora que bem entenderem, e adotarem a exaustão e a escolha pela vida saudável, afinal, elas sempre estarão garantidas. O exercício do racismo e da transfobia estruturais se somam ao exercício de inclusive poderem se aproveitar do trabalho daquelas pessoas que não puderam escolher nada.

Não dá pra gente dizer que nos preocupamos com a saúde mental quando isso é realidade para apenas uma parcela da população. Enquanto a parcela que está mais em risco continua tendo sua saúde mental relativizada pela própria impossibilidade de acesso a ela. As ditas minorias vivem uma realidade onde precisam ignorar a ansiedade, a depressão, a exploração trabalhista, e a desigualdade, porque se pararem pra olhar pra isso, se pararem para olhar para as próprias dores, a vida vem e cumpre esse plano social de dizimar as poucas oportunidades que tiveram. Não dá pra parar. Esse não é um privilégio possível. A única opção ao cair é se levantar o mais rápido possível e tentar chegar o mais próximo que der do inalcançável.

Enquanto brancos e cis estão rolando no feed dancinhas, gatinhos e muitos alertas sobre burnout, negros e trans estão sofrendo com ele. Antes que setembro acabe, e você coloque sua cabeça no travesseiro e durma, pense comigo: o que estamos fazendo além da fitinha amarela?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL