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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você precisa saber o que é interseccionalidade

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

06/09/2021 06h00

Cada vez mais, com o crescimento dos temas de diversidade e inclusão, o conceito de interseccionalidade vem sendo mencionado. Porém, por ser um conceito que explica um assunto de muita profundidade, parece muito difícil de entender, e a maioria das pessoas acaba deixando pra lá o que deve ser o foco na agenda da inclusão.

Hoje resolvi trazer uma explicação diferenciada e com uma abordagem mais lúdica sobre o que é interseccionalidade, para que primeiramente você entenda o que ela é, mas também para te mostrar como ela existe em absolutamente tudo na nossa sociedade, e afeta a vida de todas as pessoas. Portanto, nada de deixar de lado só porque a palavra parece complicada!

Imagina que você hoje tem um jantar especial em família para comemorar algo muito importante. Agora, faz de conta que você pediu para sua família comer uma pizza enorme, toda de calabresa, com borda recheada de catupiry.

Nesse momento, lá na pizzaria, estão fazendo a massa com a farinha, passando molho de tomate sobre ela, colocando catupiry na borda enroladinha, espalhando o queijo mussarela, distribuindo fatias de calabresa, adicionando algumas rodelas de cebola, e quem sabe azeitonas.

Você consegue contar quantos ingredientes formam essa única pizza? Vários, né?

Quando falamos de interseccionalidade na sociedade, estamos falando sobre vários marcadores, ou características, que compõem uma pessoa. Somos todos pessoas cheias de características, e alguns de nós com mais ou menos marcadores sociais.

A pauta da interseccionalidade quando falamos de inclusão é importante, e deve ser o foco porque o que acontece hoje com esses diferentes ingredientes, ou marcadores, é o seguinte: quando o entregador te leva a pizza, e você abre a caixa sobre a mesa de jantar e chama sua família para comer, sua mãe diz que não gosta de cebola, seu irmão diz que não come esse tipo de calabresa, sua avó diz que tem nojo de catupiry. No final das contas, esses vários ingredientes que formavam a pizza foram retirados com a mão, jogados de lado dentro da caixa, e descartados porque não foram aceitos.

Com as pessoas a sociedade age do mesmo jeito. Imagine uma mulher. Agora, imagine que essa mesma mulher é negra. Depois, imagine que essa mulher negra também é trans. E então, imagine que essa mesma mulher negra e trans, também é deficiente visual.

Esses são vários marcadores que compõem essa mulher. E o que acontece com essa mulher na sociedade? Ela passa por preconceito capacitista por ser uma pessoa com deficiência, passa por preconceito transfóbico por ser uma pessoa trans, passa por preconceito racista por ser uma pessoa negra, e passa por preconceito machista por ser uma mulher.

Assim como você contou a quantidade de ingredientes da pizza, conte a quantidade de preconceitos que essa pessoa passa na sociedade por causa do somatório de seus marcadores sociais, ou seja, por causa da interseccionalidade desses marcadores.
Só que agora, não estamos falando de uma fatia de pizza, onde não comer calabresa é "questão de gosto", e sim de uma pessoa que precisa conviver em uma sociedade que diz não saber lidar com pessoas trans, não conviver com pessoas negras, não contratar deficientes visuais, e que acaba jogando "tudo isso" numa caixa indesejada, o mais distante possível da mesa de jantar.
Quando se trata de uma pessoa sendo excluída, nunca vai se tratar de "gosto", e sim, de preconceito.

Falar de interseccionalidade é falar de múltiplos fatores que formam uma pessoa, e que ao mesmo tempo a excluem da sociedade, por exercício de poder e preconceito que essa mesma sociedade está baseada. Só que não existe luta por diversidade sem a pauta da interseccionalidade, por mais difícil que seja tirar do nosso imaginário que a pessoa é uma coisa só, e aceitar que ela é uma combinação de diversos marcadores sociais.

Precisamos entender a interseccionalidade e colocar ela como ponto principal quando discutimos diversidade e inclusão, senão vamos estar todos jantando apenas massa de pizza sem nada por cima.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL