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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O desconhecido é mesmo aterrorizante, mas será que ele é pior?

Jovem se afogando em tristeza - Getty Images/iStockphoto
Jovem se afogando em tristeza Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

19/07/2021 06h00

Está nas nossas vidas, nas nossas decisões, na ausência delas, dentro das nossas casas, nos nossos relacionamentos, nos nossos empregos: a zona de conforto. E quanto mais o tempo passa, mais você mergulha nela, como adentrar o mar em uma praia no verão de sol escaldante, em que a euforia faz com que você sinta que está se divertindo e te faz desejar que cada segundo dure para sempre, enquanto você é levado pela correnteza cada vez mais distante, sem perceber.

Esse estado de não perceber faz com que sigamos as nossas vidas nos baseando naquilo que, por costume, nos trouxe uma sensação de que estamos bem. De que tudo está bem. E por isso você continua ali, seguindo a vida como ela se desenha para você, no fluxo das ondas conforme elas vêm. Porque é isso que você conhece, e o desconhecido nos preenche de medo, e poderia ser pior.

Você se esforça para acreditar que não há nada de errado. Até mesmo aquelas coisas que você às vezes se pergunta se não estão erradas, você logo se convence de que está exagerando, e que poderia ser pior. Afinal, é assim que as coisas são ou sempre foram, e em algum momento você idealizou uma versão dessa realidade que você quis que realmente durasse para sempre. E desapegar disso é quase que desapegar um pouco de você mesmo.

Então, você se agarra nesse "para sempre", mesmo que nada esteja bem, mesmo que tudo que você idealizou tenha mudado. Você se agarra a esta zona de conforto pois você se acostumou com ela e não sabe o que faria sem essa ilusão de vida que você projetou, mas não viveu. E ainda segue na esperança de viver. Mas dá pra viver o que nunca existiu?

E pela zona de conforto você tolera praticamente tudo. Inclusive o que te faz mal. Você tolera um trabalho que não aguenta mais por não ser valorizado, mas não pede demissão porque sair de lá seria sair do que você já está acostumado, e isso poderia ser pior. Você tolera um relacionamento que te machuca porque é convencido de que a culpa é sua, e é levado a acreditar que você mereceu até mesmo as violências que aguentou. Até porque poderia ser pior.

Só que nada dura para sempre. Chega um momento em que você olha do mar para a areia e percebe que tudo mudou. Você não vê mais onde estão as suas coisas, ou mesmo onde você está: percebe que foi levado para alguma outra direção, e que sair de onde você está agora é muito mais difícil.

E por mais que você tenha tomado consciência de que essa é a realidade, sair dela é extremamente desafiador. É romper o conhecido e aceitar correr o risco daquilo que você não conhece. Aquilo que em cada situação da sua vida você pensou: poderia ser pior. Então de onde tirar coragem para nadar contra essa maré que é a zona de conforto, e enfrentar o que você não conhece?

Primeiro, lembre-se que cada vez mais a maré vai tentar te levar, sem que você perceba, para essa imersão no contra rumo do que você é, do que você é capaz e do que você merece. E por mais que você pense que pode ser pior sair desse mergulho confortável no mar da praia no verão de sol escaldante, imagine-se literalmente fazendo isso: você sai do mar, da sua zona de conforto. Toma um breve tempo para se secar e se adequar à nova realidade.

Agora, tente voltar para este mesmo mar, essa sua antiga zona de conforto. O mar é o mesmo que você acabou de sair, mas agora quando a primeira onda que se aproxima pela areia encosta no seu pé, você percebe que a água está gelada.

A água não mudou. O mar é o mesmo.

Quem mudou foi você, que ao sair de um local que acreditava ser confortável, conseguiu perceber que ele não era.

Sair da zona de conforto requer perceber que realidade é essa que você está de fato vivendo. Que mar é esse em que você está imerso, submerso, arrastado pela maré. Porque, por mais que sair dela seja extremamente difícil e desafiador, você merece mais.
Afinal, que zona de conforto é essa, que não te traz conforto?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL