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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aquele em que o fit cultural age contra a empresa

Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

28/06/2021 06h00

O termo "fit cultural" já vem sendo utilizado dentro do que chamamos de recursos humanos estratégicos, onde o papel do RH deixa de ser apenas operacional e passa a ter responsabilidades que tragam resultados aderentes ao que a organização busca a partir da sua contribuição enquanto especialista no maior ativo da empresa: as pessoas.

E uma das formas de chegarmos até esses objetivos organizacionais tem sido de atrair talentos que tenham o chamado "fit cultural", ou seja, se encaixem exatamente na cultura organizacional.

Cultura organizacional também é um conceito recente utilizado para representar os valores, a missão, os comportamentos e princípios que a organização possui.

Ou seja, os RH's têm buscado pessoas que sejam reflexos da cultura da sua organização.

Isso pode parecer ótimo, pois só entram talentos que tenham os mesmos valores e crenças que a organização, e o trabalho a ser executado pelas pessoas passa a ser a única preocupação, pois aparentemente existe um alinhamento entre os perfis comportamentais das pessoas, seus pensamentos e aspirações, e pouco é necessário lidar com situações que envolvam os sentimentos das pessoas pois todas elas se apresentam confortáveis assim. Dessa forma, a organização passa a cuidar apenas das entregas, das metas e dos resultados.

Mas repare a hipocrisia aqui: se o maior ativo da empresa são as pessoas, por que continuamos buscando formas de não nos preocuparmos com elas, e focarmos apenas em produtividade?

E mais, o que isso tem a ver com diversidade?

Veja só, se estamos buscando pessoas que sejam reflexo da organização, não estamos agregando nada de diferente para ela. Os pensamentos são os mesmos, os valores e aspirações também, e as ideias, continuam sendo todas iguais. Em resumo, não há inovação, pois todas as pessoas são reflexos umas das outras, e também da própria organização.

Em processos seletivos podemos estar deixando de fora diferentes perfis e talentos pelo simples fato deles serem um pouco diferentes da cultura da organização. Um simples "você não possui fit à nossa cultura" como retorno de um processo seletivo pode estar deixando de fora uma pessoa que se entrasse na sua empresa diria "acho que podemos melhorar este ponto aqui pois eu penso diferente". E a partir dessa constante troca de pensamentos e diálogos, seguir um caminho para compreender mais pessoas diversas e em consequência, uma maior parcela da população consumidora.

E agora, como se faz isso? Surge um novo conceito, chamado "add cultural", que não busca no potencial talento a reprodução dos valores da organização, e sim o quanto essa pessoa pode colaborar com a cultura existente, trazendo diferentes perspectivas ao acrescentar novos pontos de vista. E isso tem tudo a ver com diversidade. Pois somos todes pessoas diversas, e, portanto, levar as nossas diferentes vivências para o ambiente organizacional traz benefícios à organização, que deixa de ser uma reprodução constante dela mesma, e embarca em uma jornada de evolução e inovação através da melhoria contínua.

Isso é focar nas pessoas, e não na produtividade. A não ser que a sua empresa esteja satisfeita em produzir mais do mesmo, até o mercado de consumo cansar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL