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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mês do Orgulho… cis?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

07/06/2021 06h00

Em 28 de junho de 1969, Stonewall, um dos bares LGBTQIA+ mais frequentados de Nova York, e também dos mais perseguidos pela polícia, foi palco de um protesto que ficou conhecido como Revolta de Stonewall. Esse não foi qualquer protesto. Foi o principal protesto de resistência à violência que pessoas LGBTQIA+ sofriam na época pelo Estado, como perseguições, prisões e espancamentos. Por isso junho é conhecido desde então como Mês do Orgulho LGBTQIA+, quando se deu origem a atos anuais que foram crescendo em cidades e países, e perduram até hoje.

De 1969 para cá, direitos em prol da igualdade foram conquistados, porém, o recorte como um todo ainda possui diversas heranças históricas de preconceitos e portas fechadas que precisam ser abertas. Então este mês não é um mês "apenas" de comemoração, e sim de reconhecimento pelas pessoas que lutaram pelos direitos que temos, e consciência pelos direitos que ainda precisamos conquistar. Mas sobretudo, é um mês de nos orgulharmos pelas nossas existências e resistências em uma sociedade lgbtfóbica.

Tendo todo esse contexto, gostaria de focar no título que dei a esta coluna. Para começar, divido um letramento importantíssimo para que os demais parágrafos façam sentido: cis (abreviação de cisgênero) é uma pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento. Sendo o mais direto possível, uma pessoa cis é aquela que ao nascer foi anunciada como menino, e ao crescer e se entender como indivíduo, continuou se identificando para a sociedade como menino.

O "oposto" disso, são as pessoas trans (transgênero, transexuais ou as travestis). Essas pessoas, em algum momento de suas vidas, se entenderam não contempladas ou pertencentes com a identificação de gênero que lhes foi atribuída ao nascer. Eu, por exemplo, sou um homem trans. Quando nasci, o médico disse que eu era menina, porque a sociedade estruturalmente baseia o gênero das pessoas conforme seu sexo biológico. Porém, independente de sexo biológico, uma pessoa pode se identificar com outro gênero durante sua vida, ou mais de um gênero, ou até mesmo gênero nenhum. Essas pessoas, assim como eu, são pessoas trans. Esse é o T da sigla LGBTQIA+.

Mas aqui está o x da questão, ou o T da questão, melhor dizendo. Normalmente as pessoas entendem que essa sigla compreende as pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo gênero, ou seja, pessoas homossexuais. E isso causa uma confusão danada! Pois essa sigla compreende tanto as pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo gênero, como também pessoas trans. E pessoas trans não são, necessariamente, pessoas homossexuais. Isso significa que orientação afetiva e sexual, que é por quem nos atraímos, é completamente diferente de identidade de gênero, que é o gênero com que nos identificamos.

Vou utilizar o meu exemplo para deixar o mais transparente possível. Eu sou casado com uma mulher, portanto, por eu me identificar como homem, o nosso relacionamento é um relacionamento heterossexual - mesmo eu sendo trans.

Ou seja, gênero e sexualidade são coisas diferentes, mesmo que para resumir aquelas pessoas que fogem do que é tido como normal pela sociedade, tenham sido agrupados em uma mesma sigla.

Com esse letramento, gostaria de mostrar para vocês porque é importante diferenciarmos essa questão, principalmente no mês do orgulho de todas as pessoas que se sentem compreendidas pela sigla LGBTQIA+.

Normalmente neste mês vemos campanhas onde existe representatividade de casais lésbicos, formados por duas mulheres cis, ou famílias compostas por dois homens cis caracterizando um casal gay com filhos. Campanhas essas sempre com chamadas positivas relacionadas ao direito de amar. Essa representatividade é extremamente importante para que tais existências sejam naturalizadas como deveriam, e para que a sociedade evolua e desconstrua seus preconceitos. Porém, nós entendemos agora há pouco juntos, que a orientação afetiva e sexual - ou trocando aqui pelas frases das campanhas, "o direito de amar" - não representa toda a sigla LGBTQIA+. E aí vem a minha questão: onde estão as pessoas trans no mês do orgulho?

Nós não as vemos sendo representadas no mês mais colorido do ano, celebrando as conquistas que a sigla toda teve - e veja só - conquistas essas que ocorreram principalmente por conta da luta delas. Inclusive a Revolta de Stonewall que citei lá no início.

Pare para pensar onde você vê as pessoas trans sendo representadas ou visibilizadas. Em casos de violência, em notícias de atos transfóbicos, em relatórios que confirmam o Brasil como o país recorde, pela 13ª vez consecutiva, em assassinatos de pessoas trans, ou em dados estatísticos da baixíssima expectativa de nossas vidas, que é de apenas 35 anos. Sim, essas informações são todas verdadeiras, mas onde as nossas narrativas de orgulho possuem espaço dentro do mês que também é nosso, e não apenas de pessoas cis, mesmo que lésbicas, gays ou bissexuais?

O mais cruel de tudo é que a existência trans é completamente esquecida mesmo quando todos estão segurando bandeiras arco-íris. Acredito que, em grande parte, pela maioria das pessoas ainda estarem presas naquela confusão da "sigla LGBTQIA+ não explicada", ou até mesmo por acharem que representando pessoas cis desta sigla já é suficiente para "celebrar o orgulho". Porém não há "Mês do Orgulho LGBTQIA+" se as pessoas trans não forem incluídas. Se no evento que você planejou ou na campanha que você veiculou, você não representou a existência das pessoas trans, não há motivo para você se orgulhar.

Inclua as pessoas trans nas suas narrativas de diversidade. Contrate pessoas trans para trabalharem na sua empresa. Vinculem campanhas que pessoas trans estejam contempladas. Conviva com pessoas trans. Nós existimos e temos muito orgulho de quem somos.

Esse mês, assim como todos os outros meses do ano, também é nosso. O Mês do Orgulho LGBTQIA+ não é apenas o mês do orgulho pelo direito de amar, é também o mês do orgulho por existir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL