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Noah Scheffel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como ser um aliado LGBTQIA+?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

17/05/2021 06h00

Hoje, dia 17 de maio, é uma das datas mais importantes mundialmente para a comunidade LGBTQIA+. Essa data carrega a luta e resistência dessa população por representar o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia. Historicamente, esse foi o dia em que, em 1990, a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde. De lá para cá, muito se avançou nas pautas e direitos das pessoas LGBTQIA+ ao redor do mundo, mas ainda estamos longe de uma sociedade justa e respeitosa para todas as pessoas.

E justamente por essa desigualdade é que muitas pessoas aliadas à população LGBTQIA+ se perguntam como podem ajudar na luta por direitos e acessos igualitários em um mundo ainda preconceituoso. Para começar, uma pessoa aliada entende que possui privilégios estruturais e sociais por ter uma sexualidade ou identidade normativa, que a preserva de vivenciar situações de lgbtfobia. Esse reconhecimento de privilégio pode ser realmente difícil e desconfortável, pois é como assumir que por ser uma pessoa heterossexual e cisgênero, a culpa da lgbtfobia existir é sua. E a questão aqui é quase essa, mas calma, deixa eu explicar. Vamos começar substituindo "culpa" por "responsabilidade", e você vai ver que faz sentido.

Você, pessoa heterossexual e cisgênero usufrui, sem perceber, de privilégios que pessoas homossexuais e bissexuais e pessoas transgênero não possuem: você tem acesso à saúde física, sempre foi permitido que você doasse sangue, você sempre pode se casar com quem amou, você nunca foi impedido de usar um banheiro público, você não foi expulso de casa ao contar aos seus pais quem você é. Eu poderia passar horas aqui escrevendo todos os privilégios que você possui unicamente pelo fato de que a sua sexualidade ou identidade de gênero é considerada "o normal" no mundo todo.

Entender isso, é o primeiro passo para identificar como você pode usar desse privilégio para se tornar de fato uma pessoa aliada à causa LGBTQIA+, e assumir como sua responsabilidade a luta por uma sociedade mais justa. Entenda: a culpa não é sua, mas é sua responsabilidade, visto todas essas liberdades e acessos que você possui, agir para que todas as pessoas também possuam esses mesmos direitos.

Tendo isso em mente, muitas pessoas ainda ficam na dúvida sobre o que podem fazer em termos práticos. Aqui, buscar informação sobre a realidade das pessoas que fazem parte deste recorte é muito importante. Você vai entender a história, as barreiras, os direitos ainda não conquistados e os acessos que ainda nos são negados. Vai ficar muito mais fácil de entender o seu lugar nisso tudo, pois você poderá olhar para seu histórico, seus acessos, os locais de influência que possui, e identificar em cada pedaço da sua vida onde você pode encaixar ações e mecanismos que tenham impacto positivo para as comunidades LGBTQIA+.

Alguns exemplos: se você é uma pessoa recrutadora em uma empresa, busque contratar pessoas LGBTQIA+ para fazer parte dela, visto que você já estudou e entendeu que um dos grandes problemas desse recorte é a empregabilidade. Se você é dono de algum estabelecimento público como um restaurante, respeite a legislação e deixe evidente que neste espaço as pessoas transgênero possuem seu direito de uso do banheiro conforme sua identificação de gênero. Se você tem o hábito de realizar apoios e doações a organizações que prezam pelos direitos humanos, reveja se você não está deixando de fora organizações que lutam contra a lgbtfobia. Se você é profissional de saúde, não coloque a sexualidade da pessoa que está atendendo como o principal fator para diagnosticar algo que pode ser uma simples gripe.

Se posicione publicamente como uma pessoa aliada e seja uma ponte de diálogo nos espaços que ocupa, para trazer as pessoas LGBTQIA+ para ocuparem os mesmos espaços que você.

Perceba que dentro dos aspectos da sua vida você possui infinitas alternativas de ser uma pessoa aliada à causa LGBTQIA+, e esse privilégio pode, literalmente, salvar a vida de alguém. Mesmo que os direitos tenham avançado em diversos países, a violência contra essas pessoas também aumentou, e a data de 17 de maio vem como um lembrete de que há muito ainda para percorrer para que direitos, acessos e existências sejam preservados.

Agora, há algo em comum que podemos fazer independente de quem somos: todes nós podemos nos posicionar quando identificamos atos de lgbtfobia. O seu posicionamento, além de levar para mais pessoas a consciência que você desenvolveu por uma sociedade mais justa, ainda pode trazer o benefício de salvar uma vida. E esse não é, afinal, um grande privilégio?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL