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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O silêncio é mesmo dos inocentes?

Martin Luther King Jr.  - Time & Life Pictures/Getty Image
Martin Luther King Jr. Imagem: Time & Life Pictures/Getty Image
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

19/04/2021 06h00

Martin Luther King Jr. disse que nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam. E ele estava certo, mas tão certo, que foi silenciado.

O problema aqui é que "o que importa" é subjetivo, ou seja, o que importa para mim, talvez não importe para você, e vice-versa. Mas será que não deveria existir um senso comum sobre o que é importante para a humanidade? Eu, como um batalhador pelos direitos humanos, acredito que sim: todas as pessoas deveriam se importar e usar dos seus privilégios para se posicionar a favor de uma sociedade mais justa para todas as pessoas. Mas infelizmente essa não é a realidade que vivemos.

A realidade que vivemos é a que quando saímos do silêncio pelas coisas que importam, nos colocamos em risco. E esses riscos podem ser dos mais sutis, aos mais declarados, e suas consequências, só sabe quem os corre, e normalmente, são os mesmos que estão a correr.

Mas a quem responsabilizamos pelos riscos que corremos? Responsabilizamos quem não concorda com a gente e nos torna um alvo, responsabilizamos nós mesmos porque "deveríamos ter permanecido em silêncio", ou responsabilizamos o silêncio em si, que pedia para ser rompido porque a desigualdade grita?

O silêncio é amigo da zona de conforto, do estático, do que não incomoda, do inquestionável, daquilo que não queremos mudar. Ele também é amigo do invisível, do não dito, da falta de transparência, da não existência de diálogo para uma ponte de conexão.

Existem pessoas que veem a real importância de oportunidade em qualquer rachadura do silêncio, e enfrentam o medo para a partir dela, abrir caminhos sem volta, que mudam para melhor a sociedade que vivemos. E digo que os caminhos são sem volta porque, quando alguma coisa realmente importa para você, e você tem a chance de lutar por ela, você não se calará nunca mais.

Porém há aqueles que são amigos de infância do silêncio, e ao te ouvirem, questionarão a tua luta, irão desvalidar tua fala, e tentarão a todo custo, te silenciar.

Só que há ainda aqueles que dizem que se importam também, muito provavelmente apenas para continuarem a crer que suas vidas não "começaram a terminar". Mas não se engane, se eles realmente se importassem, o barulho do silêncio deles não seria tão capaz de nos deixar sem palavras, quando eles poderiam simplesmente, falar.

E é por isso que eu digo que o perigo mora ao lado. Se você é um alvo, você encontra mecanismos para ao menos tentar desviar da bala. Agora, quando o barulho não é do tiro deflagrado, mas do silêncio de quem também deveria se importar, você não tem como se defender. Como você poderia imaginar que precisaria se proteger, também, do ensurdecedor silêncio? O irônico aqui é que a vida que começa a terminar não é a sua, mesmo que o atingido seja você.

Romper o silêncio e se posicionar é um risco, mas como disse Conceição Evaristo enquanto narra a história de alguém que não se cala, "qualquer vida era um risco e o risco maior era o de não tentar viver".

E você, corre o risco de romper o silêncio pelo que é importante, ou já começou a terminar de viver?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL