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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gaia como base para uma espiritualidade secular

Planeta Terra do espaço à noite - Nastco/Getty Images/iStockphoto
Planeta Terra do espaço à noite Imagem: Nastco/Getty Images/iStockphoto
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

23/05/2021 06h00

Costumo escrever basicamente sobre dois temas: meio ambiente e ética secular. São temas interligados e, devido às crises que estamos vivendo, estão convergindo em direção à disseminação de uma visão alternativa de mundo, em que poderíamos cuidar do ambiente e uns dos outros devido ao reconhecimento da natureza que nos permeia.

Não há nada de novo na ideia da natureza como princípio unificador, é algo tão velho quanto contemplar uma paisagem. Mas nos anos 70, o químico inglês James Lovelock formulou a hipótese de Gaia, ao constatar a qualidade autorregulatória de diversos aspectos do planeta. Como autorregulação é um dos sinais básicos da vida, a teoria se refere à (biosfera da) Terra como um grande organismo.

Essa hipótese vem obtendo cada vez mais apoio e comprovação científica, mas independente disso, Gaia (deusa da Terra na mitologia grega) é uma imagem praticamente intuitiva, já que diferentes povos chegaram a esse conceito por todo o planeta ao longo da história.

A questão hoje é que o ponto crítico a que chegou nossa degeneração ambiental está nos forçando a enxergar essa interdependência com o mundo natural. Por exemplo, o Brasil se prepara este ano para as consequências da pior seca da história, que afetará a geração de energia nas hidrelétricas, além das lavouras. A causa se liga intimamente à nossa devastação da Amazônia e do Cerrado e às mudanças climáticas causadas pela poluição humana.

Essa é apenas uma das centenas de sintomas que vêm eclodindo pelo planeta e que expõe nossa frágil dependência do mundo que estamos destruindo, deixando cada vez mais óbvia não apenas a interligação da vida, mas também nos abrindo para essa identidade maior que integramos.

Há um chamado, um grito de socorro que, se escutarmos com atenção, está vindo não apenas do mundo natural, mas também de dentro de nós mesmos. Apesar de ser algo doloroso, reconhecermos essa chaga é um dos caminhos mais óbvios para a reconexão com nossa natureza, sendo também uma etapa necessária para mudarmos o curso autodestrutivo de nossa espécie.

Essa possível religação não precisaria vir de modo tão traumático. Se estivéssemos escutando, como muitos sempre escutaram, se não tivéssemos nos iludido tão fundo nesse sonho de consumismo, exploração e separação, poderíamos já estar aprendendo.

Amor natural

Outro aspecto da crise que vivemos é a falta de qualidades como bondade amorosa e compaixão, como princípios éticos básicos para podermos viver em harmonia. Boa parte dessa falência moral vem da ideia de que para alcançarmos nossos objetivos pessoais não haveria muito problema em explorar os outros e o mundo ao redor, como já mencionei em outros textos.

Para corrigir isso, podemos aprender com a própria mutualidade que sustenta o mundo natural.

Caso tiremos os óculos de dominação com que escaneamos o mundo, é possível reconhecer que a natureza não se resume a uma bestialidade sangrenta, à exploração alheia, à lei do mais forte... Há um princípio puramente natural de benefício e cuidado sustentando a vida. Como diz o ecofilósofo Glenn A. Albrecht (no livro "Earth Emotions"):

"O estranho ritmo e harmonia que é o amor não está isolado em humanos individuais, mas é um fractal do amor que existe no cosmo mais amplo."

Não é preciso invocar entidades sobrenaturais, filosofias de perfeição ética ou culturas de outros povos para nos conectarmos a esse amor e respeito mútuos. Isso é a natureza. O biólogo Edward O. Wilson foi quem popularizou, nos anos 80, o conceito de "biofilia", uma tendência inata, de raízes biológicas, para nos conectarmos à vida ou mundo natural.

Princípios de benefício e cuidado recentemente foram descobertos até no mundo vegetal. Por exemplo, em florestas, há árvores que, por serem mais velhas, possuem mais conexões na rede subterrânea de micélio, pelo qual trocam nutrientes e "informações". Elas são chamadas de "árvores-mães", pois cuidam das plantas mais novas, enviando nutrientes e outros recursos essenciais.

Foram as descobertas nessa área, da pesquisadora Suzanne Simard, que influenciaram o roteiro do campeão de bilheteria "Avatar". Um dos motivos do enorme sucesso do filme é porque ele narra, em tom mitológico, nossa própria separação da natureza. No longa-metragem, apesar de haver base científica para o modo como a natureza se interliga, o roteiro extrapola a qualidade senciente da teia vital no planeta, que adquire os contornos de uma deidade natural. Mas, no fundo, não é a isso também que Gaia se refere?

Se definirmos espiritualidade como algo que se contrapõe ao materialismo excessivo e destrutivo de nossa civilização, e que leva em conta o espectro mais amplo da vida e de nossa identidade, não é preciso apelar para nenhuma crença sobrenatural ou anticientífica. Muitos de nós já cultivamos esse tipo de espiritualidade, apesar de isso poder não estar definido em termos claros.

Outro ponto que precisa de mais ênfase é que não podemos permanecer assim passivos diante da destruição sistemática do mundo que é o nosso próprio corpo.

Toda vida espiritual começa com um sentimento de admiração. A natureza é nossa janela compartilhada mais imediata para a maravilha.
Richard Louv, criador do termo "distúrbio de déficit de natureza".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL