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Mente Natural

Mudar a visão sobre nós mesmos pode mudar o mundo

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Imagem: Getty Images
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

10/01/2021 04h00

Por natureza, o ser humano é bom ou ruim? A ideia de que fundamentalmente temos uma natureza egoísta ou altruísta não é apenas um antigo debate filosófico. Nossa visão de mundo sobre isso tem consequências profundas tanto no nível coletivo quanto individual.
Há uma ideia encrustada em uma camada profunda de como funcionam nossas sociedades: sim, seríamos egoístas por natureza. E esse pensamento acaba sendo responsável por boa parte de nossos problemas, já que isso é a justificativa moral para as aberrações de nossa civilização, como desigualdade extrema, colapso natural, competição predatória e atitudes supremacistas (preconceito, exploração, ecocídio etc).

O conceito de um egoísmo inato está associada à ideia de que "sobrevive o mais forte" ou "para garantir minha sobrevivência, vale tudo". Sendo assim, não haveria nada de errado em se enriquecer com o empobrecimento alheio ou com a exploração e extermínio de outras formas de vida (incluindo humanos).

No final, sem desenraizar essa ideia de que 'vale mais a pena ser egoísta' fica impossível evoluirmos em direção a sociedades mais humanas e compassivas.

Valores humanos

Quando falo em natureza 'boa ou má', uso isso como sinônimo de 'altruísmo x egoísmo', já que o que define o egoísmo é a busca por autossatisfação mesmo que outros sofram no processo — isso é o que costumamos classificar como 'maldade'. Já altruísmo é exatamente o oposto: agir pelo bem alheio, mesmo que haja sofrimento para si mesmo no processo — e isso é o que chamamos de 'bondade'.

Além dos argumentos científicos e filosóficos que defendem a ideia de que temos uma natureza altruísta mais profunda, essa posição traz mais benefícios à sociedade em geral. Por exemplo, incentiva a cooperação (em vez da competição indiscriminada) e compaixão (em vez da indiferença). E isso não é algo para tentar maquiar ou cobrir uma suposta má índole humana inerente, mas sim, é algo que está mais de acordo com nossa própria condição humana, algo que cada um pode observar em si mesmo, se olhar atentamente (mais sobre isso adiante).

Um dos sinais que demonstram o quanto nos afastamos de nossa bondade natural é o fato de que em nossas sociedades valores como competitividade, enriquecimento, fama ou poder costumam ser mais apreciados do que preocupação com os outros, doação e humildade.
Atitudes como compaixão e amor ao próximo são consideradas apenas como valores espirituais, ou seja, seriam para pessoas inclinadas à santidade, mas não para humanos em geral, que fariam muito melhor se preocupando com coisas mais práticas como 'vencer na vida', nem que para isso muitos outros tenham que perder.

Desprezar a bondade e solidariedade como 'valores supérfluos' é uma das causas centrais do estado moribundo de nossas sociedades. Esses valores não se restringem à espiritualidade, são expressões de nossa humanidade básica. Nossa civilização muitas vezes parece desumana justamente devido à ausência dessas atitudes.

Caso predominasse a visão de que somos naturalmente altruístas, o cultivo desses valores seria algo muito mais natural para todos, deixando de ser visto como algo religioso ou para 'pessoas inclinadas a isso'.

Ciência

Uma das principais fontes da ideia de um egoísmo inato vem de uma interpretação da seleção natural de Charles Darwin: vencem os mais fortes — assim, se dá bem aquele que mais se fortalecer contra a competição.

Uma interpretação superficial dessa teoria científica acaba incentivando o comportamento egoísta, afinal isso estaria na raiz da própria seleção natural: egoístas sobrevivem. No entanto, já foi observado em muitas espécies de animais que comportamentos altruístas favorecem sua sobrevivência.

Por exemplo, morcegos bem alimentados costumam compartilhar parte do alimento que ingeriram — regurgitando-o — com outros que não encontraram alimento, em uma comunidade. Quando um deles passa a repetidamente recusar ajudar desse modo, ele é expulso do grupo. Sem cooperação, a continuidade dessa sociedade fica ameaçada. Assim, o egoísmo é penalizado e o altruísmo, premiado.

Há diversos exemplos desse tipo, e comportamentos altruístas não se restringem à cooperação entre membros da mesma espécie. Entre os vídeos de animais campeões de audiência, aqueles que mostram uma espécie ajudando a outra estão entre os mais vistos: há o leopardo que adota um macaco bebê, o gorila que salva o corvo, o cachorro que ajuda a foca etc...

As vantagens evolutivas desse tipo de comportamento não foram muito estudadas, mas é evidente que há altruísmo animal, especialmente entre primatas — a classificação a qual nós pertencemos como espécie.

Estudos do Max Planck Institute, na Alemanha, demonstraram como bebês — ainda novos demais para imitar o comportamento dos adultos — naturalmente (e sem nenhuma recompensa) procuram ajudar os outros.

Lei da selva e economia

A ideia de que a vida seria um vale-tudo pela obtenção do próprio prazer também está ligada ao fato de que seres humanos, quando abandonados em uma situação sem lei ou regras, geralmente degeneram em barbárie.

Mas o fato de que isso só costuma ocorrer em situações onde não há coesão social revela a fonte do problema. Somos seres sociais, isso é um fato. Somos 'programados' para isso. Nossa própria sobrevivência e desenvolvimento depende de uma sociedade.

Quando esse círculo se quebra e nos encontramos em uma situação onde não temos vínculos sociais com as outras pessoas, é natural uma degeneração de comportamento e valores, pois nos encontramos em uma situação em desacordo com nossa natureza.

Outra fonte de inspiração — hoje, talvez a principal — para a ideia do egoísmo inato é o neoliberalismo econômico, que transplanta o cenário da sobrevivência na selva, para uma sociedade de consumo e produção em massa: 'deixe as empresas fazerem o que quiserem e sobreviverão os mais fortes'.

O resultado disso é que vemos hoje no mundo: desigualdade abismal (no Brasil, por exemplo, os seis maiores bilionários têm a mesma riqueza que 50% da população), e suas graves consequências: sequestro da democracia (dinheiro compra a política) e exploração cada vez pior dos desprivilegiados, além do colapso ecológico e suas consequências, que ameaçam a continuidade da civilização como a conhecemos.

Esse sistema parte das premissas clássicas do liberalismo político (cidadãos devem ter suas liberdades garantidas, e não ser controlados pelo estado), mas ao ser transplantado para o mundo das megacorporações operando com liberdade absoluta (e assim controlando a política e economia) se tornou um monstro sedento e incontrolável.

Isso não deixa de ser é uma consequência e amplificação daquela ideia lá no começo: 'vale tudo para a obtenção de benefícios pessoais. Isso é correto pois a natureza é assim.'

Não, a natureza não é assim. Com a exceção dos humanos, não há uma espécie tiranizando as outras. Ecossistemas florescem e perduram se houver equilíbrio e harmonia. Quando não há, e uma espécie sai do equilíbrio, o meio ambiente quebra.

É isso o que estamos vivendo hoje no ecossistema em que nos encontramos: a biosfera do planeta, doente e agonizando devido à ação humana.

Enriquecimento

Outro aspecto econômico dessa questão é o seguinte: em uma sociedade que gira em torno da acumulação de capital, o bem supremo é o enriquecimento. No processo de tentar enriquecer à qualquer custo, geralmente vemos qualquer forma de controle e limitação como uma agressão à nossa liberdade, sem notar que a regulamentação visa limitar os efeitos destrutivos da expansão predatória das corporações.
Então é por isso que é tão comum ouvirmos discursos políticos, corporativos ou midiáticos defendendo o neoliberalismo ou o livre comércio, tentando nos convencer que o melhor é darmos liberdade completa para as corporações (e seus donos) fazerem o que quiserem conosco e com o mundo.

Como a desigualdade social evidencia, esse tipo de ideologia não favorece a cooperação na sociedade, mas sim o enriquecimento cada vez maior de um número minúsculo de indivíduos.

O 'meme' egoísta

O problema se complica pois a ideia enraizada de que é melhor sermos egoístas, para a maioria das pessoas, não é uma escolha. Somos ensinados a pensar assim. Isso vem de todos os lados: mídia, relações pessoais, educação, trabalho, família... E não é uma conspiração consciente, trata-se de um fenômeno mais ou menos espontâneo e fora de controle — apesar de haver certa orquestração política e econômica para a disseminação desse tipo de mensagem.

Todos nós passamos isso adiante uns para os outros sem perceber, como nos 'memes' — que originalmente não se referem a figurinhas engraçadas na Internet, mas sim a ideias culturais que se replicam, passam por seleção natural e perduram como genes, ou neste caso, mais como um vírus (curiosamente, quem cunhou a palavra 'meme' foi o biólogo Richard Dawkins, que escreveu um livro bastante influente para toda essa ideologia do 'vencem os mais fortes': "O gene egoísta").

Então, para contrabalancear esse desequilíbrio, disseminando um melhor entendimento sobre a necessidade de cooperação, como sendo nossa própria natureza, uma abordagem efetiva é tentarmos propagar o cultivo de valores humanos como compaixão e solidariedade de forma secular e universal, como sendo reflexos de nossa humanidade, e não como ideias filosóficas ou espirituais.

Em pequena escala isso já está sendo feito; por exemplo, em movimentos que propagam o cultivo secular da compaixão ou meditação. E isso costuma aparecer bastante até na cultura popular, como nos diversos filmes ou séries que passam mensagens sobre uma bondade humana inerente — apesar de o oposto ser bastante comum também.

Bom senso

Vou sugerir um exercício mental simples, que qualquer pessoa pode fazer, que pode ser uma maneira direta para termos uma ideia mais clara sobre a natureza da personalidade humana.

Solte por um momento todas as ideias sobre o que está certo ou errado, julgamentos, planos de carreira, construção de família, relacionamentos etc. Imagine temporariamente que tudo isso é secundário, como por exemplo, quando estamos em um momento totalmente relaxados, sem nenhuma preocupação ou plano em mente.

Então imagine-se em meio a outras pessoas que você costuma ver diariamente, tanto mais próximas quanto menos. Como dependemos de uma sociedade para quase tudo que fazemos, dependemos das outras pessoas, não estamos lutando cada um por si por nossa sobrevivência.

Como você se sente em relação aos outros? Não há respostas certas ou erradas aqui, cada um tem um histórico e terá reações diferentes. No entanto, muitas pessoas, talvez a maioria, quando relativamente livres do condicionamento cultural, vão sentir uma apreciação. "Não é algo ruim. Na verdade, parece muito bom até."

Uma minoria apenas, nesse cenário, teria impulsos agressivos ou de simplesmente usar os outros como instrumentos para seus próprios fins.

Essa abordagem de nos conectarmos mais com camadas mais básicas de nossa existência é o que é trabalhado, por exemplo, em algumas formas de meditação voltadas para o cultivo da compaixão. E isso pode ser muito útil nesse processo de reavaliarmos nossa natureza básica para uma melhor inserção no mundo, e sua possível transformação.

Origem dos valores

Há também uma terceira resposta para a pergunta se a natureza humana é egoísta ou altruísta: nenhuma das duas opções. Seríamos como um papel em branco, que adquire suas cores conforme as experiências.

Nesse caso hipotético, então, poderíamos escolher o mais vantajoso. Levando em consideração a sociedade como um todo, fica óbvio que cooperação e solidariedade trazem mais benefícios.

Outra visão bastante comum é a seguinte: impulsos humanos seriam naturalmente egoístas, agressivos e antissociais; valores positivos são apenas formas de manter isso sob controle. No entanto, em termos práticos, essa visão acaba sendo parecida com a de uma bondade natural inerente, pois também defende a necessidade de valores humanos como compaixão para evitarmos o caos e colapso social.

Além disso, se examinada mais a fundo, essa ideia diz que para existirmos adequadamente como sociedade, precisamos de valores solidários. Então, esses valores seriam virtualmente intrínsecos à existência da sociedade — e isso é quase o mesmo que dizer que a solidariedade faz parte da natureza da sociedade humana.

Há também uma teoria social bastante disseminada que diz que as religiões são criadas como uma forma criar valores morais para manter a sociedade sob controle. Obviamente que esses valores realmente cumprem essa função. Mas pessoalmente, como praticante espiritual, penso de forma diferente: os fundadores e propagadores de tradições espirituais (ou éticas) na verdade tiveram mais contato direto com nossa natureza mais básica, que é solidária, amorosa e compassiva. É daí que surgem os valores morais. Eles podem parecer coercivos caso imaginemos que são valores externos. Mas eles vêm de nossa própria natureza mais profunda.