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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Somos maiores do que imaginamos

Multidão de cima formando um gráfico de crescimento - Orbon Alija/Getty Images
Multidão de cima formando um gráfico de crescimento Imagem: Orbon Alija/Getty Images
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

17/04/2021 06h00

Onde estão os limites do meu corpo? O alimento que me sustenta faz parte dele? E o ar que respiro, a água que bebo, o solo que me sustenta? Onde começa minha mente? Meus anseios surgem em mim, ou estão confluindo também à partir de outras direções? O cuidado que estendo a outras pessoas e seres expande minha existência?

Essas perguntas costumavam se limitar a contemplações espirituais ou filosóficas. Mas hoje estão se tornando mais relevantes para todos, devido à situação moribunda de nossas sociedades — não apenas em relação à emergência ambiental e sanitária, mas que inclui também as crises sociais e políticas. Apesar da influência decisiva de atores poderosos nesses problemas — como interesses políticos e corporativos — no final, também estamos interligados nos sistemas destrutivos em operação, como consumidores, cidadãos e também como propagadores de visões de mundo. Ou seja, toda essa autodestruição expõe nossa complexa rede de influência mútua.

Assim, é possível dizer que há uma crise cultural, ou de visão de mundo, que está determinando os outros problemas. Precisamos substituir nossa cultura (auto)destrutiva por culturas regenerativas, que levem em conta nossa inseparabilidade com a biosfera do planeta e também umas com as outras.

Interdependência

A ciência há muito já demonstra que agirmos como uma espécie superior ou separada das demais é uma visão sem base na realidade. Incorporar essa visão em nossas atitudes traria muitas mudanças, começando por uma outra maneira de nos enxergarmos, ou de pensar como um ecossistema.

Em termos sociais também já está demonstrado que cooperação e solidariedade são mais benéficos para a sociedade como um todo do que competição predatória e indiferença.

Visões de mundo desse tipo já não precisam se apoiar em tradições que exigem crenças espirituais ou filosofias nobres. As ciências por si só apoiam essas atitudes. Até mesmo o antigo conceito da espiritualidade oriental, e também de alguns povos originários, de que a identidade individual é uma ilusão já tem paralelos na neurociência (escrevi mais extensamente sobre esse tema neste artigo).

Então, acordar desse sonho em que estamos separados de tudo mais — das outras pessoas, da atmosfera, animais e florestas — é o aspecto interno da mudança que precisamos para frear o atual colapso.

Externamente, há todas essas emergências que estamos vendo: pandemia, convulsões políticas, colapso ecológico... Mas ao tentarmos lidar com esses sintomas urgentes, podemos não perder de vista a doença central causando tudo isso: uma visão distorcida sobre como nos inserimos no mundo, em que predomina egoísmo e supremacismos de todo tipo.

Vácuo

Uma visão de mundo regenerativa e inclusiva também preenche o vácuo psicológico que vem sendo deixado pela expansão da secularização da sociedade e das visões religiosas mais materialistas. Aqui não há nenhuma crítica sobre isso.

No entanto, um fato bastante estudado em algumas vertentes da psicologia, é o papel-chave da busca "espiritual" e seus símbolos mitológicos para o equilíbrio mental. Sem narrativas míticas sobre nossa ligação com "dimensões maiores", essa necessidade psicológica acaba sendo preenchida com fanatismos de todo tipo, como extremismos ideológicos e distorções religiosas.

Já essa nova consciência socioambiental — que já existe, só não está bem disseminada — além de nos guiar na correção urgente dos sistemas dominantes e de satisfazer nosso anseio básico por ligação e propósito, também inclui uma compaixão inata, quase espontânea — não apenas em direção a tudo que vive, mas também a tudo o que sustenta a vida.

Nessa visão, mesmo pessoas que costumamos classificar como inimigas — por exemplo, na atual polarização política das sociedades — não são demonizadas. Reconhecemos nossa humanidade compartilhada, nossos medos e reações inadequadas. Se quisermos realmente curar nossa relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos, não podemos abrir mão da compaixão em situações desafiadoras.

Convite

Um bom exemplo de cultura regenerativa é a abordagem da ecofilósofa estadunidense Joanna Macy, que é hoje uma referência central no ativismo ambiental. No próximo dia 24, haverá um workshop gratuito dessa abordagem, promovido pelo XR + amor SP e podcast Coemergência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL