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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meditação altruísta para tempos difíceis: Expandir o amor e a compaixão

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

02/04/2021 06h00

Atualmente, cada vez mais pessoas têm recorrido à meditação para tentar buscar algum alívio para situações de angústia e estresse contínuos. No entanto, é comum que o benefício obtido tenha curta duração, como se meramente apertássemos um botão de pausa: há paz enquanto nos desligamos. Mas não podemos, nem queremos, ficar o tempo todo desligados.

A convite de Ecoa, vou sumarizar algumas técnicas de meditação, que costumam ajudar na descoberta de fontes internas de bem-estar que não sabíamos possuir, podendo contribuir não apenas para lidarmos melhor com este difícil período, mas também para a transição em direção a relações e sociedades mais humanas.

São formas de meditação secular, ou seja, que podem ser praticadas independente de tradições espirituais. Essencialmente, é assim que se medita no budismo tibetano — a tradição em que me formei — mas os elementos mais espirituais, que podem exigir algum tipo de crença, estão ausentes. Mestres tibetanos como o Dalai Lama, Mingyur Rinpoche e outros costumam usar abordagens similares quando se dirigem para o público em geral ateu/agnóstico, ou com outras inclinações espirituais.

As meditações e contemplações serão publicadas em três partes. Para conhecer as duas primeiras, só clicar abaixo:

  1. Motivação, atenção e respiração
  2. Bondade amorosa e compaixão
  3. Expandir o amor e a compaixão

Parte 3: Expandir o amor e a compaixão

Agora, faremos de novo como na Parte 2 - Bondade amorosa e compaixão com a diferença de que tentaremos estender nosso cuidado compassivo para pessoas e seres mais distantes. Essa etapa é crucial; sem ela, na verdade não estamos fazendo nada muito diferente do que sempre fazemos: nos preocupamos com nós mesmos, nossa família e amigos; o restante não importa tanto.

É expandindo nosso círculo de amor que trazemos uma nova dimensão ética para nossas vidas e comunidades. Essa dimensão não apenas pode trazer um preenchimento e satisfação inéditos, mas se conecta com a camada mais profunda de nossa existência, com a própria vida.

Esse é um trabalho bem gradual e longo, mas que vai se compensando já durante o caminho. Começa com o reconhecimento de que todas as pessoas, mesmo as que não gostamos, compartilham exatamente os mesmos desejos que nós: ninguém quer sofrimento e todos buscamos satisfação. Tudo que fazemos gira em torno disso, mas cometemos inúmeros erros nesse processo, gerando sofrimento em vez de felicidade.

Não gostamos de certas pessoas por causa dos erros que elas cometeram (ou cometem). Não aceitamos. Mas quando é conosco, somos os primeiros a nos declarar inocentes. Então tentamos corrigir essa visão distorcida, que concede privilégios especiais para si. Tentamos estender nosso círculo de preocupação e cuidado.

E isso não se refere apenas a humanos. Uma das causas centrais da atual emergência ambiental é justamente não reconhecermos que outros seres vivos — incluindo toda a teia da vida — também compartilham as mesmas aspirações básicas que nós: viver e prosperar.

Meditação

1 - Motivação

Em uma postura confortável, nem muito tensa nem muito relaxada, comece cultivando uma motivação altruísta. Pelo menos, tenha a intenção de que com essa prática, você possa ser mais compassivo com as outras pessoas e seres. Contemple isso por um ou dois minutos.

2 - Conexão com amor e compaixão

Já nessa etapa 2, por 1 ou 2 minutos, apenas descanse a mente naturalmente, sem alimentar nenhum pensamento, mas também não bloqueando nada. Basta não se distrair. Ou se preferir, medite na respiração.

Fazemos a meditação como na Parte 2, mas com outros objetos de contemplação: trocamos nós mesmos e seres amados, por alguém mais neutro — de que não gostamos nem desgostamos muito (um pouco, tudo bem) — e uma pessoa por quem nutrimos antipatia.

Reconhecemos que essas pessoas ou seres, em um nível básico, são como nós. Da mesma maneira como enxergamos alguém com indiferença, desdém ou antipatia, outra pessoa pode nos ver assim também. Ou seja, apesar de meu ponto de vista, quando considero os pontos de vista alheios, não há tanta diferença assim entre todos nós.

Então tentamos estender nossa compaixão primeiro para seres mais neutros, por alguns minutos. Depois para pessoas difíceis. "Que você esteja livre do sofrimento e suas causas. Que tenha felicidade e suas causas."

3 - Dedicação

Ao fim, nos conectamos novamente com a motivação altruísta e selamos com uma aspiração para que essa prática possa trazer benefício não apenas individual, mas também coletivo.

Dicas

O ponto-chave dessa meditação é cultivar bondade amorosa e compaixão num nível de sentimento genuíno. Se isso não estiver acontecendo, contemple mais a igualdade entre todos os seres. Tente enxergar de fato essa realidade. Se precisar, volte para as etapas da compaixão consigo mesmo e com seres amados. Depois, tente de novo.

Caso ainda não consiga, cultive a intenção e aspiração de fazer isso ("eu gostaria mesmo de ser capaz de fazer isso. Seria tão bom..."). É muito comum não conseguirmos porque, no fundo, simplesmente não queremos (perdoar). Então cultive esse desejo.

O significado de compaixão no contexto da meditação é ligeiramente diferente daquele que encontramos no dicionário. Aqui não há um senso de superioridade ("Coitado desse ser lá embaixo..."), mas sim o reconhecimento de uma igualdade. E não é só um sentimento, mas sim uma atitude, um compromisso de fazer algo a respeito.

Essas quatro etapas do cultivo da compaixão (consigo mesmo, pessoa amada, neutra e inimiga) são sequenciais. Passe para a próxima, quando a anterior estiver bem definida. Por exemplo, caso autocompaixão seja muito desafiadora, fique nisso até que não seja mais tão difícil.

Estender compaixão para quem não gostamos não significa ser conivente com uma conduta que prejudica os outros. Trata-se de reconhecer nossa humanidade compartilhada e perdoar, da mesma maneira que perdoamos nossos erros. Reconhecemos que os erros não definem quem uma pessoa é no nível essencial. E nos abrimos para a possibilidade de ajudar. A compaixão não exclui punição e correção (se aplicadas com atitude amorosa), da mesma maneira como corrigimos nossos filhos e filhas, sem deixar de amá-las.

Com a prática e experiência, vá expandindo o número de pessoas e seres que você consegue abraçar em seu círculo de compaixão. Por exemplo, todos os meus familiares e os familiares deles, animais abandonados, todo meu bairro etc. No entanto, faça isso apenas se houver um sentimento genuíno surgindo do coração; caso contrário, foque em poucas pessoas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL