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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Levanta, vagabundo, bora salvar o mundo

Bombeiros e voluntários lutam para conter incêndio próxima à vila de Kamatriades, no norte da ilha de Eubeia, na Grécia - Angelos Tzortzinis/AFP
Bombeiros e voluntários lutam para conter incêndio próxima à vila de Kamatriades, no norte da ilha de Eubeia, na Grécia Imagem: Angelos Tzortzinis/AFP

Mariana Belmont

12/08/2021 06h00

Voltei, começando com Emicida.

Há duas semanas não escrevo por aqui, coisa inédita, nunca antes vista na história deste país.

Mas meu corpo sucumbiu e tá pedindo para ser cuidado. Escrevo um pouco melhor, mas sem a certeza de como estarei até este texto sair. Por isso, aproveito este espaço para fazer um pedido: não espere seu corpo gritar de forma desesperada, com dores, para escutá-lo. Cuida primeiro de você, depois do mundo.

Mas vamos lá...

Estive por algumas semanas na Serra da Mantiqueira, falei um pouco sobre isso na última coluna. O frio era tamanho que cortava a pele, acho que poucas vezes senti isso, mas não à toa: especialistas relataram que o Brasil enfrenta sua mais forte onda de frio desde 2016.

A cidade de São Paulo registrou 6,3°C na madrugada do dia 30 de junho. Na região em que eu nasci, Parelheiros, os termômetros chegaram a 3°C e 0°C, como nos velhos tempos de criança. A gente costumava acampar com essa temperatura, hoje, eu jamais faria isso.

Em poucos dias, o cenário era bem triste: notícias sobre a morte de pessoas em situação de rua em São Paulo, notícias sobre a perda de produção de alimentos em decorrência das geadas, sem contar que estamos vivendo uma das maiores crises hídricas do registro histórico no Brasil.

Alguns amigos postaram fotos de lugares com geadas, mas em tom de comemoração. Afinal, morar no Brasil e ver a neve que só conseguimos ver pela televisão ou quando conseguimos viajar para algum país com esse clima, parece ser motivo de alegria e surpresa. Mas na verdade é motivo de atenção e preocupação.

Os incêndios, inundações, frio extremo, calor insuportável e condições meteorológicas extremas observadas em todo o mundo nos últimos meses são apenas um aperitivo do que se pode esperar como consequência do aquecimento global. Se antes alguns de nós ainda esperava exemplos concretos, acho que temos aí uma lista grande.

Mas não podemos nos enganar, a emergência climática já dava sinais claros mesmo antes da profusão desses eventos maiores e de dimensões internacionais. Populações periféricas, rurais e nos territórios indígenas sofrem há muito tempo os impactos da devastação do planeta.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou um relatório histórico, a avaliação mais abrangente até agora, na última segunda-feira (9) -- menos de três meses antes da realização da COP26, espaço de negociações que determinarão o futuro curso da vida na Terra.

O relatório estima que o limite de +1,5°C de aquecimento global em relação à era pré-industrial será alcançado em 2030, dez anos antes do previsto. Não há mais dúvidas -- "é irrefutável", nas palavras do próprio documento -- a ação humana é responsável pelas mudanças do clima da Terra. Mudanças inevitáveis e "irreversíveis", alertaram os cientistas.

O Observatório do Clima fez uma importante análise sobre o relatório e produziu um resumo comentado em português do sumário do IPCC.

Bom, eu estou com medo. Eu estou com medo do que nós vamos sofrer nos próximos tempos. Sim, nós, porque a emergência climática é um problema nosso, de agora, e não das gerações futuras, como falaciosamente se apregoava.

O frio me trouxe medo, ver imagens de alimentos perdidos por causa da geada me deu medo. Ver a morte de pessoas por frio me deu medo.

Precisamos de um plano coletivo para pressionar e mudar a situação por aqui, com urgência. O Brasil já vai chegar na COP26 como vergonha mundial no debate climático. O negacionismo climático precisa ser responsabilizado, afinal é um crime contra a humanidade.

Não vamos esperar o final dos tempos sentados, morrendo aos poucos, eu não vou.

"Às vésperas do último eclipse
Tá todo mundo sem agenda
Pro apocalipse (Sem tempo, irmão)
Um passarinho me disse que
Talvez seja hora de fazer um remix e
Certo? Pipocas e refresco
Num tempo quente
Sério, gente? Eu achei fresco
O bem e o mal se enrosca como um arabesco
É desesperador como soa burlesco..."

Emicida

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL