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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indígenas no tópos: demarcando as universidades brasileiras

Ailton Krenak recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela UnB, sua segunda honraria - divulgação
Ailton Krenak recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela UnB, sua segunda honraria Imagem: divulgação
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

08/12/2021 06h00

O poema "Identidade indígena" de Eliane Potiguara publicado originalmente em jornal de Angola, na África, na década de 1970, já anunciava:

"Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões, unidos como cardume"

O desejo de brilhar no palco da História, de que fala a poeta Eliane Potiguara, é marcado pela incessante luta que afeta gerações desde 1500, isto é, desde quando o século da colonização se instaurou nas terras indígenas e deu início à longa resistência de sobrevivência que perdura até os dias de hoje.

Denunciando práticas de monocultura simbólicas e físicas, intelectuais indígenas trazem à superfície desde sempre, em suas produções científicas, ações ativistas, obras literárias, entre outros, as ininterruptas práticas extrativistas que ameaçam a floresta, as vidas indígenas, e, consequentemente, a vida de todos — humanos e não humanos — na Terra. E agora, mais do que nunca, evidenciam que ela é retroalimentada por instituições e culturas que buscam salvaguardar a identidade nacional: universidades, museus, movimentos literários, cinema, música, tudo que concorre para alicerçar um Brasil sem povos indígenas.

Gradativamente, vimos a produção de conhecimento brasileira acolher as filosofias indígenas no bojo das universidades, mesmo avançando pouco na inserção estrutural de modo proporcional de indígenas professores no seio da academia. As cotas para concurso público de nível federal não contemplam os sujeitos nativos via de regra. Nas exceções existentes, são frutos de lutas sociais ensejadas por movimentos indígenas que reclamam o mesmo direito concedido aos negros (pretos+pardos) no Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2012), de âmbito federal, do qual não participamos.

Cotas estaduais para indígenas e pessoas trans

Esta semana foi possível ver este caso isolado no Rio Grande do Sul, pelo decreto estadual que criou vagas de concurso público para indígenas e pessoas trans como forma de "reparação histórica e social". Você pode acessar a matéria completa aqui.

Cotas municipais para indígenas e negros

No final do mês de novembro do ano corrente, a Câmara Municipal de Curitiba (CMC) aprovou, no primeiro turno, o projeto de lei que cria o sistema de cotas étnico-raciais, de 20%, nos concursos públicos da prefeitura para indígenas e negros, excluindo, porém, a população cigana que também é étnico-racial. O projeto de lei é de autoria da vereadora Carol Dartora (PT). Você pode ler toda a matéria aqui.

Universidades brasileiras conferem o título de Doutor Honoris Causa a indígenas

O prefeito de Pesqueira (Pernambuco), o cacique Marcos Xucuru expressa corriqueiramente o ditado popular entre os indígenas que habitam imemorialmente a região do Nordeste, o famoso "Diga ao povo que avance", que é respondido com um sonoro "Avançaremos!". O ditado me invoca o sentimento de que cada uma das vezes que um indígena ocupa um espaço cultural, político, científico, avançamos com esse sujeito. Isto porque todo indivíduo indígena carrega consigo a inerente identidade coletiva de Povo Originário, que reclama humanidade, cidadania, Direitos Humanos e Não Humanos (os direitos da Natureza/Floresta) vedados pela colonização portuguesa/espanhola/holandesa/britânica (com consequências ainda sobre nós).

Eliane Potiguara recebe o título de Doutora Honoris Causa pela UFRJ, a 1ª mulher indígena a receber a honraria

Primeira indígena escritora, Eliane Potiguara, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a mesma instituição pela qual se graduou em Letras. Ativista desde a década de 1970, se dedica à defesa dos povos indígenas, por meio da literatura escrita alfabética e oral. Esteve no Movimento Indígena em prol dos direitos indígenas para a Constituinte de 1988. É reconhecida no movimento indígena a nível nacional e internacional. Para ler mais sobre a trajetória de Eliane Potiguara, clique aqui. O título inaugura o reconhecimento de honra a uma mulher indígena por uma instituição universitária brasileira, por todo o seu trabalho em prol da literatura indígena no país. Em entrevista ao jornal Fórum, ela espera que o "título contribua para a visibilidade da questão indígena no Brasil, contra a violação dos direitos e a favor da manutenção da territorialidade em geral".

Ailton Krenak recebe o título de Doutor Honoris Causa pela UnB, sua segunda honraria

No dia 03 de dezembro, a UnB (Universidade de Brasília) conferiu o título de Doutor Honoris Causa a Ailton Krenak, filósofo, poeta, escritor, liderança política e ambientalista.

O vice-reitor Enrique Huelva destacou a relevância de Ailton Krenak, sobretudo na pandemia: "Ele acrescenta novas ontologias que transcendem a divisão entre a natureza e o ser humano. Quando destruímos a natureza, destruímos o ser humano", reiterou. Para ler integralmente sobre a aferição do título clique aqui.

O Conselho Universitário concede o título a "personalidades que tenham se destacado pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos".

Importante lembrar que Ailton Krenak já é Doutor Honoris Causa pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), de Minas Gerais, sendo assim, um Doutor Honoris Causa Multiplex, podendo usar a abreviação "DR. h. c. mult". Compartilho o vídeo do Consuni sobre a justificativa da honra ao mérito concedida:

Coletivo de literatura indígena elenca outros indígenas que possuem o título de Doutor Honoris Causa no Brasil

O perfil @literaturaindigenaminasgerais, perfil de divulgação de obras literárias produzidas por indígenas do estado de Minas Gerais, administrado por Paolla Vilela (@loladepoisdos30) e André Muniz (@leitordeandremuniz) pertencentes ao povo Puri, compartilharam nas redes os indígenas que possuem o título de honra ao mérito. A seguir, confira as demais universidades brasileiras que reconhecem assim como Eliane Potiguara e Ailton Krenak, Almir Suruí, Cacique Babau Tupinambá, Raoni Metuktire (Kayapó), e Cacique Caboquinho (Potiguara):

Indígenas no tópos

Assim como a centralidade da luta indígena é pelo território, pela demarcação das terras, o reconhecimento de honra ao mérito aos indígenas demarca o lugar simbólico nas universidades brasileiras, esta, importante por ser o lugar da produção de conhecimento e palco de normas sociais. Não queremos estar no topo, como povos que disputam a meritocracia segregacionista, mas queremos estar em todos os lugares, como sempre estivemos desde nossos ancestrais. Se no dicionário tópos é lugar, mas também fundamento para embasar argumento, estarmos nas universidades brasileiras significa o avanço de nossas lutas, com nossos corpos, rumo a reflorestar a subjetividade, e a sermos cardumes que outrora fomos.