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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escritora e cientista Rosi Waikhon fala da criação de gente

A escritora e cientista Rosi Waikhon - Arquivo pessoal
A escritora e cientista Rosi Waikhon Imagem: Arquivo pessoal
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

01/12/2021 06h00

Rosi Waikhon é como se autodenomina Rosilene F. Pereira, a primeira mulher do povo Waíkhana a defender uma tese de doutorado, o que aconteceu no último dia 22, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A primeira também da região do Alto Rio Negro (AM).

O povo Waíkhana, de tronco linguístico Tukano, se localiza entre Brasil e Colômbia, no estado do Amazonas. Segundo Rosi, são reconhecidos na literatura antropológica como Pirá-tapuia, mas se autodenominam "Waíkhana", com 9 clãs, divididos em dois grandes grupos: os Werethada e os Werethada Barhui. A população segundo o Siasi/Sesai (2014) é de 1325 pessoas, e do IBGE (2010), 1401.

Tese em Antropologia Social exalta a educação da criança indígena do alto rio Negro

"Cuidados na criação de gente: habilidades e saberes importantes para viver no Alto Rio Negro" é a tese da pesquisadora Rosi Waikhon, que demonstra os conhecimentos ancestrais como pilares da educação das crianças. Para isso analisou experiências práticas e vivência das crianças, narrativas curtas e narrativas míticas que as acompanham desde a infância.

A pesquisa é uma continuação da sua dissertação de mestrado também defendido no PPGAS/UFAM. Rosi é licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com o trabalho "Gestão Ambiental na ótica indígena: uma forma de manejo e sustentabilidade na região do médio e Alto Rio Negro".

Mesmo tendo cumprido toda a formação acadêmica exigida pela sociedade envolvente, a cientista destaca a reverência aos Avós Pirá-tapuia, Arapaços e Tukanos da sua rede social de parentesco no processo de construção de sua tese. Os Avós, frisa Rosi Waikhon, são os sábios detentores de conhecimentos milenares apreendidos com os antepassados e compartilham na prática o processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. São eles, por meio da memória, das narrativas, dos sonhos, e da prática dos sentidos, que aprenderam a ler os rios, as paisagens, os montes, a floresta. A forma de escrita, os livros dos Avós estão na memória e em todo ambiente em que vive as populações indígenas. A mesma considera este "acervo" como uma biblioteca viva.

Na tese, ela argumenta que é na circulação das crianças em diversos ambientes da floresta que elas vão aprendendo, e é na prática que produzem conhecimentos sobre flora, fauna, respeito pelos rios, igarapés, solos e o universo. A autora diz: "não basta ter habilidade de nadar, é preciso compreender quando não pegar canoa, remo e sair pra pescar".

Cientista, ativista e artista

Rosi Waikhon é conhecida no mundo literário indígena. Ela é escritora, poeta, ativista e cientista em defesa do conhecimento indígena nos centros acadêmicos, em especial no manejo do ambiente das culturas indígenas. Entre seus ensaios acadêmicos está "Roças, lugar de construção da ciência indígena na região do Alto Rio Negro: conhecimentos que não são à toa."

O seu perfil no Instagram é um laboratório de mini diários onde compartilha imagens sobre o território ancestral onde reside; Tóbi, o seu xerimbabo; e mini textos que falam do dia a dia, das dificuldades, narrativa da avó do mundo, entre outros. A página na plataforma do Facebook, "Diário de uma Waíkhana antropóloga", conforme a descrição, "narra experiências e reflexões sobre vivência e desafios do mundo branco".

Escritora

Como escritora venceu o 5º Concurso FNLJ/INBRAPI Tamoios de Textos de Escritores Indígenas, edição de 2008, com o conto "Kali e Taiwano no Mundo Encantado das Águas". Atualmente o concurso, que é voltado exclusivamente para escritores indígenas, intitula-se FNLIJ/UKA Tamoios de Novos Escritores Indígenas.

Como poeta participou da Antologia Indígena (INBRAPI, 2009), uma das primeiras antologias organizadas no Brasil, com os poemas "Sou Alguém", "Renovar-se" e "País das Fichas", esse último uma crítica ao atendimento sanitário destinado pelos brancos aos indígenas. Apareceu também na revista do Laboratório de Linguagens LEETRA da Universidade Federal de São Carlos, com o poema "Guerreiras do rio Negro"; e na coletânea Mulheres indígenas com o poema " O silêncio dos pássaros e a surdez humana".

Como contista publicou "Yawareté açu, o jabuti e a onça pintada: kirtí (reconto) do povo pirá-tapuya waíkhana", no livro "Nós: uma antologia de literatura indígena", organizado pelo ilustrador e escritor Mauricio Negro, publicado pela Companhia das Letrinhas (2019).

No audiovisual, Rosi Waikhon protagonizou o curta que leva o seu nome, dirigido por Antonio Carlos Banavita, que você pode assistir acessando este link: POVOS DO BRASIL - Rosi Waikhon - Piratapuia (ufmt.br).

Entrevista

Veja a seguir uma mini entrevista com Rosi Waikhon.

Fale um pouco quem é Rosi Waikhon?

Rosi - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Sou uma Waikhon, mulher do povo Wa´ikhana, reconhecidos na literatura antropológica como Pirá-tapuia. São aproximadamente nove clãs vivendo em comunidades dispersas entre Brasil e Colômbia. Sou neta de Avós Baya (mestre de cantos, danças e narrativas), em outras palavras "mestre de cerimônias ou artista", Yaí (mestres que conhecem narrativas e curam através das palavras, fazem diagnóstico de determinadas enfermidades, detêm conhecimentos das plantas medicinais e usam na cura).

Eu não sou falante da língua nativa, mas sou da geração que cresceu com base da educação indígena, onde aprendi sobre a origem do nosso povo, humanidade, território, organização socioeconômica. Aprendi as narrativas onde estão contidos os conhecimentos dos cuidados com o meio em que vivemos.

Toda a educação de base devo a esse rol de Mestres conhecedores de Avós e Avôs Pira-tapuia, Arapaço e Tukano. Eu costumo dizer que eles são nossos sábios, nossos doutores, são esses conhecimentos que nos trouxeram a esse ponto alto da academia dos brancos.

Rosi Waikhon, você é escritora, cientista, doutora — o que significam todos esses títulos para você?

Pergunta difícil, vou responder de forma que possamos levar aos leitores a compreensão não apenas do título (papel em si), mas do conjunto do significado de um título que é coletivo e não individualizado, porque Nós somos do ouvir, sentir, cheirar, sonhar, experimentar, pensar, criar, olhar (e sonhar não no sentido de futuro, e sim do sonhar quando me ponho na rede e durmo, e no dia seguinte lembro a sequência do filme sonhado e escrevo, desenho e penso sobre). [...]

Um dia enquanto ouvia meu pai contar trecho da narrativa da "Origem da pupunha", que trata sobre diversidade dos frutos, das cores, a vida dos animais, aves e dispersão das sementes de pupunha na terra, disse: "se soubéssemos escrever na linguagem dos brancos, poderíamos passar para eles a mensagem para respeitar nossa terra, pois ela é nossa casa e vida.

Assim colocaram-me numa instituição escolar. O processo de escolarização na minha concepção foi como um campo de batalha, uma espécie de campo minado, tinha que andar com cuidado para não pisar numa mina e explodir (considero rito doloroso porque sempre conflitava, por exemplo, com nossa forma de pensar a "origem do mundo", e divergíamos constantemente da proposta do mundo escolar seguida à risca no livro didático).

Comecei a anotar em cadernos, blocos de anotações, gravar áudios (não apenas da fala, mas de rumor das cachoeiras, cantos dos pássaros, canções do cariçu [sonoridade musical da flauta de pã], mauaco [flauta de embaúba], entre outros), memorizar.

Interessante destacar a entrevista concedida em 2011 - 2012 à Maria Silvia Cintra, pesquisadora de Literatura. Confesso que fiquei alegre pelo interesse dela e à medida que fazia as perguntas, eu relembrava: "sou da oralidade, anota do jeito que narrar". Assim ela gravou e depois publicou na revista do laboratório de linguagens LEETRA, da Universidade Federal de São Carlos em meados de 2012. Quando saiu a publicação, li, estava exatamente como falei, e pude vibrar silenciosamente pensando: "consegui quebrar muros", "a coragem da professora" porque sabemos que a academia tem metodologias rígidas e precisamos ter pessoas que tenham coragem e quebrem barreiras. A partir daquela entrevista senti-me encorajada a usar meu acervo pessoal, lapidar projeto de pesquisa e seguir o rigor da metodologia científica, obviamente encorajada por professoras orientadoras que foram brilhantes do início ao fim.

Penso que o título é uma espécie de ferramenta pela qual consegui expor pensamentos na linguagem dos brancos, ao mesmo tempo que uso para defender a Nós, povos indígenas.

O que é a criação de gente, que você fala na sua tese de doutorado?

São as formas, modos como as crianças indígenas são cuidadas. Busco demonstrar processos de desenvolvimento de saberes e habilidades no manejo do ambiente para viver na Terra Indígena Alto Rio Negro. Aponto pedagogia da vida, demonstro como a criança vai aprendendo junto com sua rede de parentesco, pois ela não está separada ou presa em único lugar. Argumento e demonstro como são construídos os pensamentos da criança. Destaco a formas dos aconselhamentos e como o manejo se dá na prática. Enfim, é uma metodologia que observei e analisei no recorte da minha rede social de parentesco.

Como foi para você viver essa relação paradoxal de ser indígena e antropóloga, o que você fez de diferente enquanto indígena e antropóloga?

Essa pergunta permite mencionar alguns desafios. Antropologia é interessante, abre portas para várias áreas. Eu por exemplo, da área de Ciências biológicas, fui bem recebida, digamos que tive um pouco de "sorte" por contar com professoras que gentilmente puderam e tiveram paciência de me orientar. No segundo capítulo da tese, apresento esse olhar onde faço reflexões sobre sabedoria dos Avós, educação acadêmica e práticas em campo como indígena, pesquisadora antropóloga. Confesso que é muito difícil, conforme mencionei anteriormente. O campo do processo de educação imposto pela sociedade colonial é doloroso, ele assusta, maltrata, nos trata como "subalternos" e sem "inteligência". Nem sempre é possível romper com algo tão enraizado, por vezes transbordados na fala das pessoas como num piloto automático. Penso que o diferencial foi no diálogo entre as duas ciências, a indígena e não indígena e nas intervenções locais demonstrando como nossos Avós conseguiram manter vivos nossos rios, igarapés, matas e toda diversidade que estão conservados graças à sua tecnologia. Na minha pesquisa constatei que as tecnologias dos não indígenas não ajudaram a manter nossa biodiversidade, pelo contrário, elas aceleram a destruição.

Quais seus planos para fortalecer a luta dos povos indígenas, em especial sua região, agora que concluiu o doutorado?

Sua pergunta nesse momento me parece complexa, analisando minha trajetória percebo como o contato do mundo branco incide em nossas vidas e quando nos damos conta estamos nadando em mar aberto sem chegar a lugar algum. Então como doutora em Antropologia, os planos são continuar fortalecendo os saberes do Avós que defendi na tese. Penso que a epígrafe da minha tese traz a melhor definição:

Livres como pássaros dos sonhos
Livre como um pássaro que voa e encanta os rios, as matas, as montanhas e o mar
Livres como abelhas, borboletas e libélulas a voar
Livres como andorinhas no fim da tarde voando e tecendo peneira no ar
Livres para ler e pensar narrativas
de sabedoria milenar a nos inspirar.
Rosi Waikhon, 2021

Atualmente penso em "projetos de vida", coisas pequenas, caminhar com Tóbi (meu cachorro), cuidar da minha alimentação, visitar os meus parentes mais vezes, escrever as poesias e continuar com as performances da "Avó do Mundo", que continua compartilhando conhecimentos ancestrais. Como meu primeiro trabalho, nos próximos dias colaborarei falando desses conhecimentos em "Ética e Performance" na disciplina da Dra. Ayumi da OCAD/University.

Você é bastante ativa no mundo digital. Você pode falar um pouco sobre isso, em especial das redes sociais em que mantém páginas?

De um lado, o mundo digital me assusta, do outro penso que é uma das formas que podemos contrapor algumas inquietações, em especial quando sufocam povos indígenas. Embora sabendo que os criadores das redes coletam nossos dados, mantenho páginas abertas ao público, que são o Diário de uma Waikhana Antropóloga e a Rosi Waikhon/Artista. O recorte é antropologia e arte. O Instagram é um pouco fechado, talvez nos próximos meses vou abri-lo para o público. O mundo virtual é um universo sem limite, cabe a cada "ser" que está do outro lado da máquina saber usar tal ferramenta, acessível tanto para o bem ou mal. É comum sentir vibrações boas e negativas, alguns entram na página só pra bisbilhotar e desejar vibrações ruins, outros se encantam e compartilham energias boas, isso é natural. Então pelo fato de ter entrado no mundo digital já há algum tempo foi interessante defender a tese via web-conference, diretamente da região do Alto Rio Negro.

Para seguir a Rosi Waikhon nas redes sociais:
Facebook: Diário de uma Waíkhana antropóloga.
Instagram: Rosi Waikhon (@rosi_waikhon).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL