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Julie Dorrico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

TALIN: lançamento do primeiro jogo de literatura indígena

TALIN: lançamento do primeiro jogo de literatura indígena - Criz Pozzobon/Divulgação
TALIN: lançamento do primeiro jogo de literatura indígena Imagem: Criz Pozzobon/Divulgação
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

21/07/2021 06h00

A literatura indígena é um movimento que protagoniza os sujeitos originários na autoria de livros a partir da década de 1990. Nestas obras, os escritores indígenas afirmam suas identidades coletivas de povo ao cunhar ficção e não-ficção com expressões culturais, linguísticas, sociais, religiosas, científicas, filosóficas, cotidianas e afins. Para propagar ainda mais os autores e as obras indígenas, o COMIN (Conselho de Missão entre Povos Indígenas), com curadoria de duas escritoras indígenas, criou o jogo TALIN: Tabuleiro de Literatura Indígena e o Jogo de Memória.

Jogo de tabuleiro entre os povos indígenas

Registros de jogos de tabuleiro estão presentes entre diversos povos indígenas: "o jogo da onça" que estimula a capacidade criativa e a concentração é comum aos Bororo, de Mato Grosso; os Manchineri, do Acre; e os Guarani, de São Paulo e do Paraná. Ainda, há registros de outros tabuleiros, como o "jogo de paciência" para os Kanela, no Maranhão; e o jogo "casa do rei", para os Kadiwéu, no Mato Grosso do Sul.

Professores indígenas, nos dias de hoje, no âmbito da educação escolar indígenas desenvolvem jogos de tabuleiro personalizados para a formação dos estudantes nas comunidades, como podemos ver pelo testemunho do professor Kanatyo Pataxoop, da aldeia Muã Mimatxi, em Minas Gerais.

A Declaração das Nações sobre os Diretos dos Povos Indígenas, de 2007, no artigo 31, ampara os povos indígenas no controle, na proteção e no desenvolvimento de seu patrimônio cultural, nas tradições orais, literaturas, nos desenhos, jogos tradicionais, etc. O termo desenvolvimento não pode ser entendido na concepção positivista e linear que taxa criações literárias, artísticas e didáticas como sinais de "evolução" dos povos indígenas, reiterando o mito da integração já superado. Tais manifestações culturais têm de ser vistas como, em primeiro lugar presentes no cotidiano dos povos; e um direito ao exercício criativo que busca fortalecer os povos indígenas.

Tabuleiro de Literatura Indígena e Jogo de Memória TALIN: um pouco da história da criação

1 - Julie Dorrico/Acervo Pessoal - Julie Dorrico/Acervo Pessoal
A acadêmica e escritora indígena Julie Dorrico, nova colunista de Ecoa
Imagem: Julie Dorrico/Acervo Pessoal

A representante do COMIN, Kassiane Schwingel, coordenadora do projeto, convidou a mim, Julie Dorrico, e a escritora e ilustradora Aline Kayapó para fazer a curadoria das obras e autores indígenas. Aline ficou encarregada de criar a identidade visual, que resultou na jabuti retratada com o traçado do povo Kayapó. Participaram ativamente ainda a pedagoga Roselaine de Castro Diaz que orientou na dinâmica do jogo e a faixa etária; e Cristina Pozzobon, responsável por montar o design digitalmente.

O TALIN tem como dinâmica a mímica, por isso os títulos das obras selecionados foram aqueles que julgamos ser possível a imitação. São 20 obras, de 20 autores diferentes, representantes de 15 povos nativos, entre eles estão Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Olívio Jekupé, Auritha Tabajara. Para acompanhar o jogo de tabuleiro, em seguida desenvolvemos o jogo de memória de escritores, utilizando a mesma identidade visual nas cartinhas. O jogo de memória, por não ter a limitação do tabuleiro, permitiu que outros autores fossem agregados, com isso acreditamos ter conseguido sinalizar a diversidade de escritores indígenas atuante no país.

Para bom uso do jogo sinalizamos o papel do mediador/educador na condução do jogo do tabuleiro. Gestos como bater na boca e fazer "uh uh uh" devem ser evitados pois não representam os povos indígenas e é um gesto racista. Acreditamos que os jogos são iniciativas que devem ser adotadas em todo âmbito nacional pois é uma criação didático-pedagógica que colabora para o fomento da Lei 11.645/2008, lei que torna obrigatório o ensino das culturas indígenas nas salas de aula de toda rede de ensino. Além disso, a curadoria presente no jogo busca incentivar os educadores a trabalharem a literatura indígena no ensino regular como prática cotidiana.

A carência de jogos didáticos para a infância impacta negativamente na formação das crianças indígenas e não indígenas: no primeiro caso por falta de conexão com uma representatividade e tudo o que isso envolve; e no segundo, por reforçar a violenta mensagem de que os indígenas não fazem parte do ensino e atividade diários. É crucial que as instituições educativas reforcem identidades não brancas nas salas de aula, de modo a tornar mais democrático a educação, mesmo na contramão das políticas educacionais que temos sido obrigados a encarar.

Os jogos estarão disponíveis no site do COMIN, na aba "materiais": o TALIN compõe-se de um tabuleiro com os rostos dos escritores, uma paleta de tazos com as respectivas obras dos autores e um manual de instruções de como jogar e imagens das obras. O jogo de memória traz o verso da identidade visual do TALIN e uma cartela de escritores. Recomendamos que ambos os jogos, o tabuleiro e o de memória TALIN, sejam solicitados pelos educadores às suas redes educacionais, para que as diretrizes étnico-raciais possam ser trabalhadas incluindo os povos e sujeitos indígenas na escola desde a infância.

Lançamento do TALIN

A data agendada para o lançamento dos jogos é no dia 26 de julho (segunda-feira), às 19:00 horas de Brasília nos canais do Facebook e Youtube do COMIN. As redes sociais podem ser acessadas no endereço a seguir:

Facebook: Conselho de Missão entre Povos Indígenas - COMIN

Youtube: Conselho de Missão entre Povos Indígenas