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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tuxá Toidé: conheça o podcast de Tayná Cá Arfer Tuxá

 Tayná Cá Arfer Tuxá - Acervo Pessoal
Tayná Cá Arfer Tuxá Imagem: Acervo Pessoal
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

14/07/2021 06h00

Tayná Cá Arfer Tuxá ou Tayná Chayenne é indígena do povo Tuxá, da Aldeia-mãe, localizada na Bahia, nordeste do Brasil. A jovem de 14 anos, decidiu compartilhar algumas escritas de resistência de sua autoria desde o seu pertencimento ao povo Tuxá, um dos 305 povos originários que habitam o território nacional. Para isso criou o podcast Tuxá Toidé na rede social Instagram onde inaugurou com o poema Toidé dzene tsoro radda nuñe, que foi compartilhado pela Articulação dos Povos Indígenas (APIB), pois dialoga com o momento presente ao fazer resistência aos projetos de exploração que atacam os direitos indígenas, como a PL 490/2007.

História e língua do povo Tuxá (Bahia, Nordeste do Brasil)

O povo Tuxá, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), vive principalmente na cidade de Rodelas, uma aldeia urbana com mais de 60 casas. Ocupavam diversas ilhas, sobretudo a Ilha da Viúva, no Rio São Francisco, que foi submersa pela construção da hidrelétrica de Itaparica, projeto desenvolvido pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco-CHESF, afogando o território ancestral do povo, o D'zorobabé.

Por conta disso, os Tuxá foram transferidos para três áreas: um grupo vivendo nos limites dos municípios de Ibotirama (Área Indígena Tuxá de Ibotirama), outro no município de Rodelas (Áreas Indígenas Tuxá de Rodelas e Nova Rodelas), ambos no estado da Bahia, e outro à margem direita do rio Moxotó, junto aos limites do município pernambucano de Inajá, onde se situa a Terra Indígena Tuxá da Fazenda Funil.

O poema da Tayná tem como título Toidé dzene tsoro radda nuñe, que na língua materna dzubukuá traduz-se como "Resistir para existir terra protegida".

A língua materna ainda é negada em buscas comuns na internet. Porém, já é possível vislumbrar pesquisas que reiteram sua presença enquanto língua em revitalização e trabalhada na educação escolar do povo, como a tese do pesquisador Leandro Durazzo, que estudou os processos históricos e socioculturais da língua, reiterando assim a existência do dzubukuá à família Kariri e tronco Macrô-Jê. Interesse manifesto dos próprios professores Tuxá, a tese colabora para o reconhecimento da diversidade plurilinguística indígena no país. Nesse link você conhece o material publicado: Cosmopolíticas Tuxá: conhecimentos, ritual e educação a partir da autodemarcação de Dzorobabé.

1 - Projeto Um outro Céu - Projeto Um outro Céu
Mapa do Território Tuxá
Imagem: Projeto Um outro Céu

Poema inaugural no podcast Tuxá Toidé

Conheça um trecho do poema de Tayná Cá Arfer Tuxá e veja a potência da palavra poética indígena:

Toidé dzene tsoro radda nuñe
E se eu te contar uma história real?
Onde morremos todos os dias desde o navio de Cabral
Onde os nossos corpos se tornaram escandalização
Onde a nossa existência é tratada como ilusão.
Onde na aldeia nos calam
E nos julgam na urbanização
Onde somos incriminados,
mesmo quando somos assassinados

Era Abya Yala, virou área colonizada.
O que era Pindorama virou Brasil,
O que era floresta virou prédio,
O que era lar virou garimpo,
O que era vida virou destruição.

Minha identidade foi mantida no anonimato
Minha terra foi maltratada
Me forçaram a rezar
Me deixaram ser ar.

Nos perguntam de onde viemos
Mas a verdade é que sempre estivemos aqui
A diferença é que agora eu preciso lutar até para existir
Meu canto virou grito que pede socorro,
Minha flecha é proteção,
Minha chanduca é orientação.

[...]

Se teu garimpo me mata,
Se corre mercúrio no corpo dos meus parentes,
Se teu agro não é tech, teu agro não é pop, teu agro é genocídio.
Se tem PL decidindo se eu vou viver,
Se aquele que deveria me proteger, foge de helicóptero quando me vê.

Saiba mais

Nesse link você acessa o podcast Tuxá Toidé, e escuta o poema na íntegra: Tayná Cá Arfer | Tuxá Toidé

Rede social da poeta:

InstagramTayná Cá Arfer Jurum Tuxá (@taynachaianne)

Instagram do Podcast: Tayná Cá Arfer | Tuxá Toidé (@tuxatoide)

PL 490/2007: Para saber mais por que este projeto de lei ataca os direitos indígenas clique aqui: APIB: Nota Técnica da APIB sobre o PL 490 | OBIND

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL