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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dois sites para você conhecer os povos indígenas

Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

02/06/2021 06h00

No Brasil, a língua falada é a brasileira. Se eu começasse esse texto fazendo essa afirmação, provavelmente incitaria uma grande indignação coletiva. Isto porque segundo a norma nacional, a língua oficial é o português. Não há um código de lei ou documento jurídico que tenha oficializado a língua nacional com o nome de "brasileira". Pelo contrário, há um Dia Internacional da Língua Portuguesa comemorado no dia 05 de maio instituída em 2009, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Como podemos notar, vivemos em sociedade e compartilhamos códigos e regras oficiais dados pelo Estado-nação.

No que se refere aos indígenas no Brasil, porém, grande parcela da população nacional não se envergonha de desconhecer os nomes próprios dos povos. Essa distância entre sociedade nacional e povos originários é reforçada quando falas de autoridades negligenciam a diversidade dos nativos, ou quando, desonestamente, os nomeiam a seu bel-prazer, como fez o presidente ao visitar a Terra Indígena do Balaio, que fica no município de São Gabriel da Cachoeira. Sem se dar ao trabalho de reconhecer a etnia que o cumprimentou, lhes chamou de "Tribo do Balaio", quando a maioria dos residentes pertencem ao povo Tukano, que se autodenominam Yepá-Mahsã. É possível conhecer um pouco mais a história desse povo, que foi ignorado em seu nome próprio pelo presidente, na obra "O mundo Tukano antes dos Brancos", lançado no ano de 2017, e de autoria do escritor Álvaro Tukano.

André Baniwa, escritor e liderança que integra a Federação das Organizações do Alto Rio Negro (FOIRN), chamou o presidente de makadawalitsa, que significa pessoa sem valor, por não respeitar os povos indígenas do Alto Rio Negro nas esferas que carecem de urgência, como o reconhecimento da diversidade de povos, a política que os envolve diretamente e a crise sanitária que o presidente faz questão de ignorar em âmbito nacional.

1 - Reprodução - Reprodução
ISA
Imagem: Reprodução

Com vistas a evitar a multiplicação de makadawalitsa, indicamos dois sites indigenistas que podem ser fontes de informação sobre a diversidade dos povos indígenas. O primeiro é o Instituto Socioambiental (ISA), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público para propor soluções de forma integrada a questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.

Possui sede em São Paulo (SP) e subsedes em Brasília (DF), Manaus (AM), Boa Vista (RR), São Gabriel da Cachoeira (AM), Canarana (MT), Eldorado (SP) e Altamira (PA).
No site Povos Indígenas no Brasil é possível encontrar os povos por estado ou por família linguística, bem como acessar um acervo disponível que mostram ações sobre direitos, políticas indigenistas, as terras indígenas, notícias, etc.

2 - Reprodução - Reprodução
IBGE indígenas
Imagem: Reprodução

O Indígenas IBGE foi criado no dia 19 de abril de 2012 para destacar a estatística populacional dos povos indígenas. É possível encontrar os antigos censos de 1991 e 2000, e o mais atual, o de 2010. Na parte de "estudos especiais" encontra-se dois folders, um frente e outro verso. No primeiro folder, que está em formato PDF, se lê, em ordem alfabética, os povos indígenas listados no último censo. Além disso o documento possui informações sociodemográficas, domiciliares e de língua.
Em ambos os sites, ISA ou IBGE, não há um povo sequer nominado "balaio". O acesso aos dois sites com a lista dos mais de 300 povos indígenas é vital para que o apagamento das organizações políticas, sociais e culturais indígena, cesse. E para que possamos coletivamente ir contra a prática secular de ocultamento de nossos nomes próprios, nossas organizações e nossas culturas

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL