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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sites para você encontrar referências acadêmicas de autoria indígena

Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

26/05/2021 06h00

Se a produção literária indígena não é de conhecimento nacional, também as referências acadêmicas de autoria indígena não estão consolidadas como arcabouço normativo da esfera sociocultural, as quais poderiam ser utilizadas para compreender e resolver muitos dos nossos problemas cotidianos: desde as relações étnico-raciais, passando pela questão linguística, chegando às questões climáticas. Segundo o educador Daniel Munduruku, após o advento da Constituição Federal (1988), houve um incentivo das lideranças dos povos originários em promover a formação técnica e universitária dos indígenas. Nas palavras do autor, o motivo para o incentivo da formação era de que, apesar do avanço político obtido, "os indígenas ainda não conseguiam falar por si mesmos". Buscando incentivar a pesquisa acadêmica com participação dos pensamentos indígenas no país, indico a seguir dois sites para acessar referências acadêmicas de autoria indígena.

Bibliografia das publicações indígenas no Brasil

1 - Livraria Maracá/Reprodução - Livraria Maracá/Reprodução
Livraria Maracá
Imagem: Livraria Maracá/Reprodução

Daniel Munduruku participa do projeto "Bibliografia das publicações indígenas no Brasil", que integra a plataforma Wikilivros, uma comunidade virtual do Movimento Wikimedia que busca o desenvolvimento colaborativo de livros, apostilas, manuais e outros recursos educacionais de conteúdo livre, como informa o site. A wiki "Bibliografia das publicações indígenas" tem por objetivo listar as publicações de escritores indígenas do Brasil, como fonte de consulta para pesquisadores e leitores indígenas e não indígenas, iniciativa da bibliotecária e pesquisadora Aline da Silva Franca, que conta ainda com a colaboração do bibliotecário Thulio Dias Gomes.

Além da catalogação dos/as autores/as indígenas por povos e a listagem das obras publicadas, a wiki traz no sumário a categoria "Teses e Dissertações" das seguintes áreas: Antropologia, Artes, Ciências Agrárias, Ciências Ambientais, Ciências da Saúde, Direito, Educação, Geografia, História, Interdisciplinar, Linguística e Literatura, Psicologia, Serviço Social e Sociologia.

As referências acadêmicas trazem as perspectivas dos/as pesquisadores indígenas diante da complexa relação com a universidade e o pensamento ocidentalizado, mostrando a importância de manter o diálogo para a abertura da pluralidade de formas de dar sentido ao mundo. Como exemplo cito a dissertação de Rosi Waikhon, pertencente ao povo Waíkhana, mais conhecido na sociedade dominante como Piratapuia (gente peixe). A pesquisadora, da área de Antropologia Social, ao tematizar a educação para crianças em sua dissertação "Criando gente no Alto Rio Negro: um olhar Waíkhana" (UFAM, 2013), cita a importância do sonho para o seu povo na educação das crianças:

"Os sonhos são fundamentais para sabermos que tipo de pessoa chegará à nossa casa para nos visitar, se é amigo ou inimigo. É através dos sonhos que recebemos alertas para nos proteger de pessoas de má índole, dos animais peçonhentos e dos donos da mata. Os sonhos sinalizam e minimizam os perigos de outro mundo. [...] Ao recebermos o alerta através de sonhos, nossos pais recomendam que sejamos logo imunizados com a fumaça do cigarro e recebemos conselho para ficar o dia inteiro atento ou não irmos para o mato, roça, pesca, caça ou coleta. Esses conselhos foram sempre muito sérios durante nossa fase de criança".

Este rico material étnico é um dos muitos que podem ser encontrados na wiki "Bibliografia", atualmente com cerca de 100 títulos acadêmicos. Para acessar o site, basta clicar aqui: Bibliografia das publicações indígenas do Brasil/Teses e dissertações - Wikilivros (wikibooks.org)

Ikamiaba: cultura e academia

A Ikamiaba é um site que, como se apresenta, contém informações e indicações sobre Literaturas Indígenas; textos autorais de Fernanda Vieira, escritora e pesquisadora indígena que administra o site; o blog Aîuru sobre diversas questões Indígenas e decoloniais; e a Aldeia de Saberes, com artigos e indicações de pesquisas relacionadas às literaturas Indígenas.

Na seção "Aldeia de Saberes" há divulgação de artigos acadêmicos de autoria indígena ou em coautoria com não indígenas. Além disso, apresenta uma paleta de livrarias e sites especializados indígenas, como a Pachamama Editora, a Rádio Yandê ou a MP Store; e as não indígenas com foco na promoção da temática indígena como a Livraria Maracá e o Panton Pia?. Atualmente está em construção do acervo que visa reunir os Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCC?S) de autoria indígena nas diferentes áreas de conhecimento. Para conhecer mais o site, basta clicar aqui: Aldeia de Saberes (ikamiaba.com.br).

Plantando sementes

2 - Universidade Território Indígena/Reprodução - Universidade Território Indígena/Reprodução
Universidade Território Indígena
Imagem: Universidade Território Indígena/Reprodução

O interesse crescente por um ensino étnico-racial universitário que contemple as necessidades indígenas têm sido cada vez mais cobrado pelos estudantes indígenas na pós-graduação.

A pesquisadora Guarani Nhandewa, Géssica Nunes, formada em Letras pela Universidade Estadual de Maringá, e cursando especialização em Gestão Escolar Indígena, também na mesma instituição, criou o perfil na rede social Instagram, Universidade Território Indígena (@universidadeterritorioindigena) para sinalizar a importância de uma produção de conhecimento preocupada com os povos indígenas, bem como para a inserção dos indígenas nas instituições acadêmicas, sobretudo no que diz respeito às mulheres Guarani.

Géssica Nunes busca fortalecer os estudantes indígenas com mensagens de acolhimentos, indicações de referências que combatem o racismo e a discriminação racial, e lives individuais e com educadores/as para sanar dúvidas, com vistas a lutar contra a evasão indígena no nível superior das universidades federais brasileiras. Para seguir essa rede: Géssica Nunes (@universidadeterritorioindigena) ? Fotos e vídeos do Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL