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Julie Dorrico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"A escrita Baniwa sempre existiu"

André Baniwa nos Petróglifos  - Arquivo pessoal André Baniwa
André Baniwa nos Petróglifos Imagem: Arquivo pessoal André Baniwa
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

12/05/2021 11h39

O povo Baniwa, que habita a bacia do rio Içana, área que fica no município de São Gabriel da Cachoeira, estado do Amazonas, acredita que o mundo e a humanidade se originaram na cachoeira de Hipana, o umbigo do mundo, onde tudo começou e onde tudo irá terminar. Quem conta essa história é o escritor e educador André Baniwa na obra "Bem viver e viver bem segundo o povo Baniwa no noroeste amazônico brasileiro" (Editora UFPR, 2019), que luta pela educação, autonomia econômica e cultural do povo frente ao Estado nacional.

Mapa - Associação Indígena da Bacia do Içana - Associação Indígena da Bacia do Içana
Mapa mostra a região onde vivem os Baniwas
Imagem: Associação Indígena da Bacia do Içana

Fim do mundo Baniwa

Nos conta André Baniwa, em seu livro, a seguinte história de origem:

Quando a humanidade, Baniwa, surgiu na cachoeira de Uapuí, Hipana, também surgiram os brancos e os negros, os não indígenas. Nessa história de criação, há dois tipos de brancos: os que surgiram de hipana, do mesmo lugar, são aliados; os que originaram dos restos mortais do inimigo Ooliamali, são inimigos. Ooliamali é uma cobra grande que seduziu a esposa de Ñapirikoli, fazendo-a trair seu marido. Ñapirikoli descobriu a traição, matou a cobra, e para se vingar da mulher transformou os espermas de Ooliamali, o amante morto, em peixes, e deu-lhes para a esposa comer. Ela comeu, engravidou e depois transformou os bichinhos da cobra morta em humanos que os Baniwa chamam de homem branco, ialanawinai; estes são os inimigos eternos dos povos indígenas. Ñapirikoli vendo a situação toda, enviou os brancos para longe dos indígenas, para o outro lado do mar, Onidiaka peemalhe, para que aqueles não perturbassem os nativos da terra. Assim, previu que um dia, os ialanawinai voltariam e esse retorno sinalizaria o início do fim do mundo Baniwa.

O início do fim do mundo Baniwa é também o início do fim para todos os povos originários que viviam e habitavam essas terras, pois foi o contato com os portugueses que marcou o longo processo de genocídio, escravidão, e, racialização dos nativos ao imporem-lhes a identidade de "índios", destruindo das nações nativas, as suas organizações sociais, línguas, nomes tradicionais e modos de vida tradicionais.

Afetados pela colonização e pelas atividades extrativistas herdadas dela, os Baniwa enfrentaram nas décadas de 1970 e 1980 mais uma ameaça, a do garimpo ilegal, que, no entanto, reorientou a organização social do povo, obrigando-os a tomar uma atitude para enfrentar esse conflito. Voltaram-se, assim, para a educação, símbolo da resistência contra os garimpeiros. E foi assim que organizaram a "I Assembleia Geral dos Povos Indígenas do Rio Negro", em 1984, cuja meta urgente era a escolarização.

A educação escolar no umbigo do mundo

A primeira escola inaugurada no território foi em 1953 pela Missão Salesiana na comunidade de Assunção e a primeira escola da região do Médio rio Içana foi fundada em 1970, pelo pastor Henry Loewen, do Summer Institute of Linguistics (SIL). Nos anos 1980 as escolas não contavam com suporte do Estado, e eram dirigidas por pastores ou irmãs salesianas. Com a criação da Secretaria Municipal de Educação (Semec), em 1983, órgão responsável pela educação escolar no município de São Gabriel da Cachoeira, o estado assumiu as escolas da bacia do rio Içana, assim, as escolas dos pastores e irmãs salesianas foram incorporadas ao governo estadual.

A década de 1990 na bacia do rio Içana foi marcada por cobranças das lideranças por escolas municipais nas comunidades indígenas, até então estimadas em menos de vinte. As reivindicações fizeram duplicar esse número de escolas de ensino fundamentalentre os anos de 1996 e 1999 .

Sucessivamente às demandas estruturais, houve a preocupação com a formação específica de professores Baniwa e Koripako, outro povo indígena que habita o alto Içana, que fica no Brasil e concomitantemente a Colômbia. O problema residia no fato de que os professores que atuavam na bacia do rio Içana vinham de outras regiões como rio Uaupés e Rio Negro e ministravam as aulas em língua portuguesa, mesmo os estudantes baniwa sendo falantes exclusivamente do idioma baniwa. Para sanar essa grave falta no ensino, a Semec, junto à Seduc (Secretaria de Educação do Amazonas), ofereceu o primeiro Curso de Magistério Indígena. Em 2001, já havia cerca de 100 professores Baniwa e Koripako atuando nas comunidades da bacia do rio Içana, falantes da língua Baniwa/Koripako, gerando mudanças positivas na educação escolar.

Porém, as lideranças, associações e comunidades ainda sentiam que precisavam tomar a educação escolar como uma ferramenta para o povo, de modo a formar os Baniwa e Koripako para a reivindicação de direitos fundamentais e autonomia sócio-político-cultural. E foi assim que em 1997, como fruto de luta, conquistaram a própria escola, Escola Indígena Baniwa e Koripako (EIBC) Pamáali, que começou a funcionar de fato no ano de 2000, com processos de ensino e aprendizagem voltados às realidades das comunidades, e com uma gestão escolar exclusivamente realizada pelos Baniwa.

Oficialização da língua Baniwa no município de São Gabriel da Cachoeira

De 1996 a 2000 houve o trabalho da unificação da grafia da língua Baniwa, com dicionários e gramática elaborados pelos professores, o que acabou unindo o povo que estava dividido pelas religiões cristãs que estavam e estão no território tradicional. É preciso destacar outro advento histórico das línguas indígenas no Amazonas, que foi o reconhecimento das línguas Tukano, Nheengatu e Baniwa como oficiais no município de São Gabriel da Cachoeira, pela Lei nº 145 de 11 de dezembro de 2002, proposta pelo vereador Camico Baniwa, fortalecendo ainda mais a língua na educação escolar.

Capa do livro - Reprodução - Reprodução
Capa do livro "Bem viver e viver bem segundo o povo Baniwa no noroeste Amazônico" de André Baniwa
Imagem: Reprodução

Esse panorama geral da educação escolar Baniwa e Koripako podem ser encontradas de forma detalhada na obra "Bem viver e viver bem segundo o povo Baniwa no noroeste amazônico brasileiro", bem como o balanço atual da situação da educação que falarei a seguir.

Existem hoje 57 escolas na bacia do rio Içana. Desse total, 33 ofertam o ensino fundamental; outras 17 ofertam o ensino fundamental completo; e em 7 escolas existem o ensino médio, a saber, as escolas Assunção, Pamáali, Tunuí, Cachoeira, Canadá, Boa Vista, Nazaré e Castelo Branco, porém, como alerta o escritor André Baniwa essas funcionam como salas de extensão da escola Assunção, a única autorizada pelo sistema estadual de educação que habilita oferecer o ensino médio.

O ensino da língua portuguesa e da educação formal é uma exigência antiga das lideranças, que a assumem como instrumento de luta para a afirmação do povo. Mas, sabendo da necessidade da educação tradicional, os Baniwa desenvolvem cartilhas e propostas pedagógicas que fortaleçam o ensino da cultura desde a primeira infância. Assim, os petróglifos, desenhos rupestres arqueológicos, existentes no território Baniwa, tornam-se cartilhas para ensino das crianças desde o ensino fundamental.

"Lidana: Sempre tivemos escrita"

A escrita alfabética em língua portuguesa é um instrumento de poder da sociedade dominante usada para balizar o relacionamento com os povos indígenas, para inferiorizá-los.

André Baniwa, que atuou diretamente na construção da educação escolar, em entrevista à essa coluna, relatou que a "não escolarização, a não alfabetização eram sinônimos de incivilização". Daí a urgência em cumprir essa demanda. A escolarização e a alfabetização nessa conjuntura dizem respeito à escrita alfabética, muitas vezes tomada como universal, enunciada somente como "escrita" para significar esse código da língua portuguesa e oficial no Brasil.

Wakoeri - Associação Indígena da Bacia do Içana/Reprodução - Associação Indígena da Bacia do Içana/Reprodução
Wakoeri: história da origem da terra
Imagem: Associação Indígena da Bacia do Içana/Reprodução

Lembramos, todavia, que existem outros códigos de comunicação existentes para povos indígenas, muitas vezes chamados de ideogramas, pictografias, petróglifos vistos como os antepassados do alfabeto latino, ou pejorativamente como sistemas primitivos de comunicação. Embora não sejam aceitos comumente como escritas, códigos de comunicação, eles existem e possuem valor imemorial para os povos indígenas. Não é verdade que os povos indígenas que não dominam a escrita alfabética sejam povos sem escrita, ágrafos, iletrados. Prova disso é que para os Baniwa, a escrita sempre existiu: a palavra na língua materna traduz-se como lidana.

Lidana é escrita. Pode ser o grafismo na cestaria; ou os petróglifos nas pedras, também vistos como desenhos, gráficos, letras, palavras, ícones de acesso ao mundo do conhecimento Baniwa, como argumenta o educador em seu twitter.

Petróglifos - Associação Indígena da Bacia do Içana - Associação Indígena da Bacia do Içana
Foto petróglifos
Imagem: Associação Indígena da Bacia do Içana

André Baniwa nos diz: "a lidana é auxiliar da memória oral do discurso indígena". Nesse sentido, a cartilha "Wakoeri: história da origem da terra" é uma parte da educação Baniwa, uma vez que ela vem acompanhada das narrativas orais que os ícones significam. A cartilha tem por objetivo ensinar as crianças Baniwa desde cedo como manejar, se envolver, cuidar da terra.

Dessa maneira, observamos que a escrita Baniwa e a oralidade não são excludentes, mas complementares. A escrita sempre existiu na tradição Baniwa. No presente, o povo adota o alfabeto da língua portuguesa para adicionar aos seus conhecimentos outras formas de se comunicar e lutar no mundo.

Os não indígenas podem encontrar um variado código de escrita Baniwa na cestaria comercializada pela Associação Indígena da Bacia do Içana, no site Baniwa - Balaiio waláya e acompanhar mais sobre informações culturais no Twitter do educador André Baniwa.

Campanha para apoiar a Escola Indígena Pamáali

Como pudemos notar, os Baniwa se organizam para ter autonomia e ter condições de estruturar as escolas nos projetos culturais, mas ainda carece de recursos para tornar ideal o ensino das crianças do ensino fundamental da Escola Pamáali. Por isso divulgo a campanha aberta para quem puder fortalecer o ensino das crianças Baniwa por meio de doações de computadores, recursos financeiros para compras de livros de literatura indígena e outros materiais:
Dados:
Associação Indígena da Bacia do Içana
Banco do Brasil
Agência nº 1136-3,
Conta Corrente nº 27.401-1,
CNPJ: 02.335.825/0001-60

Contato de e-mail do Vice-Presidente da Associação: andrebaniwa@gmail.com