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Julie Dorrico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Falas da Terra": escuta Brasil

Colagem de Vitor Tuxá - Vitor Tuxá
Colagem de Vitor Tuxá Imagem: Vitor Tuxá
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

19/04/2021 06h00

"Falas da Terra" é um especial que a rede Globo vai exibir, neste dia 19 de abril, para celebrar o Dia do Índio, destacando o protagonismo indígena. Como o próprio nome sugere, traz a pluralidade de falas de sujeitos indígenas que compartilham suas identidades étnico-raciais, culturas, lutas e ocupações, seja da terra física ou das simbólicas, como moda, música e arte.

Sob direção de Antonia Prado, o especial conta na estrutura com a consultoria de Ailton Krenak, liderança e escritor; Ziel Karapató, artista e ativista; Graciela Guarani, cineasta; Olinda Tupinambá, jornalista e documentarista; e Alberto Alvarez, cineasta e ator. Conversei com alguns integrantes do elenco sobre suas participações. Veja a seguir:

Lian Gaia - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Lian Gaia
Imagem: Reprodução/Instagram

Lian Gaia é atriz indígena. É também metonímia de muitos indígenas que, apesar de não saberem suas origens, as sentem. Sem saber suas raízes étnicas, ela denuncia no teatro e no audiovisual, a violenta situação em que foi colocada compulsoriamente pelo Estado, que lhe tirou o pertencimento étnico, a memória coletiva e a língua. Atriz, formada em psicologia pela Universidade Santa Úrsula, é acolhida por diversas etnias que compreendem a opressão que passam os indígenas em suas identidades e territórios.

No especial, atuou como atriz indígena, fazendo a abertura. Compartilha que está nesse lugar de retomada da identidade indígena, após anos anestesiada por uma narrativa colonial brasileira que lhe negou o orgulho de se perceber como mulher indígena. Falar sobre a retomada não é consenso entre todos os povos e sujeitos indígenas, e nem poderia se considerarmos uma história colonial que nos atravessa somando-se a isso a diversidade de opiniões que habita cada indígena no país. Por isso, Lian declara que temos que falar cada vez mais sobre o tema, e incentivar a presença de corpos indígenas nas telas e em produções audiovisuais com maior frequência durante o ano. Ela conclui assim nossa conversa: "Eu espero, acredito, eu quero que, depois de Falas de Terra, continuem falando de nós".

Você pode acompanhar um pouco da sua atuação em seu Instagram, onde ela compartilha fotos artísticas e performances.

Ziel - Reprodução/Instagram Ziel Karapató - Reprodução/Instagram Ziel Karapató
Todo caboclo tem ciência. Performance "Piracema", 2019.
Imagem: Reprodução/Instagram Ziel Karapató

Ziel pertence ao povo Karapotó, que fica no estado de Alagoas, região Nordeste do Brasil. Atuou como produtor, revisor e dirigiu também cenas ao lado de Graci Guarani, Olinda Tupinambá e Alberto Alvarez. Graduando em artes visuais pela Universidade Federal de Pernambuco, ele está concluindo o seu curso. Ziel compartilhou os desafios que é participar de uma produção audiovisual em plena pandemia em uma emissora com estrutura profissional, a rede Globo. Ziel fez questão de ressaltar que a equipe tomou uma série de precauções para manter a saúde dos participantes, fazendo teste e mantendo a distância necessária.

Outro ponto que enfatizou para Ecoa foi o fato de que a equipe indígena sentiu falta da representatividade de gênero, inclusão de todas as regiões e jovens indígenas que atuassem em áreas diversas, para a produção, solicitação que foi atendida pela direção.

Ziel Karapotó falou da importância desses centros reinventados, isto é, de produções audiovisuais que tematizem as culturas e povos indígenas, com a participação efetiva desses sujeitos, pois, em suas palavras:

"Projetar nossos corpos nas telas é uma forma de atravessar os espaços-tempos e chegar nos espíritos e corações da sociedade brasileira".

Na sua rede social do Instagram, Ziel compartilha sua produção artística.

Day - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Day Molina
Imagem: Acervo Pessoal

Dayana Molina é estilista indígena. Utilizando a moda como ferramenta para a descolonização, participou do especial abordando o tema, mas também a sua história indígena. Diretora da Nalimo, sua marca que nasceu da inversão de seu sobrenome, atua com direção de arte e produção de moda. Possui vasta experiência no exterior estudando moda, em lugares como Argentina, Chile, Amsterdã, Madrid, França e Portugal.

Informou que quando criou a tag "descolonize a moda" tinha por objetivo descentralizar a moda dos moldes brancos, imprimindo a pluralidade da identidade indígena no país, indo para além dos grafismos e elementos indígenas comumente buscados. Por isso buscou criar uma cadeia que pudesse gerar empregos para vários outros indígenas, desde a produção até às passarelas. Roupas e acessórios, nesse sentido, são compreendidos pela produtora como um meio para dialogar com a indústria da moda sobre a presença dos corpos indígenas nesses espaços e de quem vai consumir essas peças, indígenas e não indígenas.

Ela diz: "A moda que eu produzo está cheio de ativismo e resistência, conectada com a natureza, expressão daquilo que acredito, é uma expressão originária". Usando o conceito de corpo-território, Dayana traduz a liberdade que o indígena tanto buscou ao longo dos séculos: o direito de existir em diferentes espaços sem que sua identidade lhe fosse negada. Estar na cidade ou na aldeia, ocupando as funções de estilista, artista ou escritor, não faz o indígena menos indígena como já quis fazer acreditar o Estado brasileiro com o mito da integração.

Estar no especial significou para Day Molina, como é conhecida nas redes sociais, uma conquista e protagonismo coletivo. Em suas palavras, "um novo amanhecer, que a gente tem sonhado, o futuro em que a gente pode se enxergar". Arremata que "descolonizar esses espaços é um sonho coletivo" e que por isso mesmo precisa haver outras produções que permitam que corpos indígenas ocupem esses espaços de audiovisual. Atualmente prepara sua nova coleção "Abya Yala antes de América Latina", com foco nas mulheres indígenas, que será distribuída pela sua empresa Nalimo. Ela se encontra no Instagram aqui e sua empresa aqui.

Outros corpos, outras histórias

Além de Lian Gaia, Ziel Karapotó e Day Molina, o especial traz mais dezoito personalidades indígenas com outros pertencimentos, outras memórias, relacionamentos e ativismos. As histórias trazidas aqui compartilham um fragmento do grande mosaico que é a identidade indígena no Brasil. Escutar essas histórias é uma forma de desnaturalizar o conjunto de códigos racistas que pesam sobre o indígena contemporâneo. Há lideranças e escritores como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, cantora, como Djuena Tikuna, artista como Emerson Uýra, mulheres ativistas que defendem a terra e a cultura como Alessandra Munduruku e Elisa Pankararu, entre outros. Corpos diferentes, trajetórias outras falam a mesma linguagem, a da e em defesa da terra.